Artigo da seção pessoas José Mojica Marins

José Mojica Marins

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deJosé Mojica Marins: 13-03-1936 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

José Mojica Marins (São Paulo, São Paulo, 1936). Diretor, ator, roteirista. Na infância, frequenta o cinema gerenciado pelo pai. Em 1948, ganha uma câmera de 8 mm e grava filmes amadores. Aos 17 anos, funda a Companhia Cinematográfica Apolo e abre uma escola de atores. Em 1954, inicia a produção do primeiro filme profissional, o longa-metragem Sentença de Deus. Dois anos depois, abandona a produção, após a morte acidental de três atrizes durante as gravações. Estreia como ator, roteirista e diretor em A Sina do Aventureiro (1958), faroeste financiado parcialmente pela venda de cotas em troca de participação no filme – recurso usado diversas vezes pelo cineasta. Em 1963, roda o drama Meu Destino em Tuas Mãos.

Segundo Mojica, após um sonho, cria a figura de Zé do Caixão, um agente funerário sádico que aterroriza uma pequena cidade. O personagem torna-se protagonista de À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964). Para pagar dívidas, Mojica vende os direitos autorais antes da estreia do filme. O longa torna-se sucesso de bilheteria e permite-lhe realizar novos projetos. O diretor torna-se um dos cineastas mais conhecidos da Boca do Lixo1. Em 1966, realiza Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, continuação do filme anterior. Em 1968, lança O Estranho Mundo de Zé do Caixão, com roteiro de Rubens Francisco Lucchetti (1930). Além do cinema, apresenta o programa televisivo Além, Muito Além do Além, que permanece no ar entre 1967 e 1968. Em 1969, publica as revistas em quadrinhos O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

O longa-metragem seguinte, Ritual dos Sádicos (1969), é interditado pela censura, sendo liberado apenas em 1983 com novo título, O Despertar da Besta. Sem lançamento comercial e, portanto, sem retorno financeiro, Mojica tem dificuldade para realizar projetos pessoais e atua em filmes de outros diretores. Em 1969, participa de O Cangaceiro sem Deus, de Oswaldo de Oliveira (1931-1990), e O Profeta da Fome, de Maurice Capovilla (1936). Dirige também filmes por encomenda: em 1971, Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro e D’Gajão Mata para Vingar; em 1974, Exorcismo Negro. Como José Mojica Marins, assina os filmes Finis Hominis (1971) e Delírios de um Anormal (1978). Faz ainda, por encomenda, filmes de sexo explícito:  A Quinta Dimensão do Sexo (1984) e Dr. Frank na Clínica das Taras (1986).

Nos anos 1990, é descoberto nos Estados Unidos, com o lançamento de uma caixa de filmes, nos quais o personagem Zé do Caixão passa a se chamar Coffin Joe. Nos anos 2000, apresenta-se nas Noites de Terror, evento promovido pelo parque de diversões Playcenter, em São Paulo, e apresenta o programa de TV Cine Trash. Em 2008, grava Encarnação do Demônio, filme que encerra a Trilogia Zé do Caixão. Entre 2008 e 2014, apresenta O Estranho Mundo de Zé do Caixão, programa de entrevistas exibido pela TV Brasil. Em 2015, dirige o episódio “O Saci”, para a série As Fábulas Negras. No mesmo ano, é lançada a minissérie Zé do Caixão, sobre a vida do cineasta.

Análise

Com À Meia-Noite Levarei sua Alma e o personagem Zé do Caixão, anti-herói paradigmático, José Mojica Marins destaca-se como principal referência do cinema de horror produzido no Brasil.

Interpretado pelo próprio cineasta, o personagem Josefel Zanatas (trocadilho de Satanás), é um coveiro cruel, temido e detestado pela população da pequena cidade em que habita. A fim de perpetuar-se, ele pretende gerar o filho perfeito com a mulher ideal. Para realizar esse desejo, Zé do Caixão não mede esforços e elimina sadicamente quem se coloca em seu caminho.

Em seus filmes de horror, Mojica desenvolve um estilo particular: mescla referências da tradição do cinema de horror internacional, em especial o estadunidense, com elementos do folclore, da realidade e de religiões brasileiras. Em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Zé do Caixão tripudia sobre a religiosidade: na Sexta-Feira Santa, a esposa nega-lhe carne para o almoço. O personagem, entretanto, recusa a tradição e devora um pernil com as mãos, enquanto assiste à procissão e ri da crença dos concidadãos.

Ao lado do japonês Nobuo Nakagawa (1905-1984) e do estadunidense Herschell Gordon Lewis (1926-2016), Mojica é um dos cineastas inaugurais da estética e do subgênero do horror gore, em que a violência física é gráfica, excessiva e estilizada. Exemplos disso são a cena em que Zé do Caixão fura os olhos de seu inimigo em À Meia-Noite Levarei Sua Alma e as cenas de canibalismo no episódio “Ideologia”, de O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

A afronta aos cânones estéticos e temáticos, a crueza da mise-en-scène e a precariedade da produção, superada com criatividade, aproximam Mojica de jovens cineastas do cinema moderno brasileiro. Em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, Mojica encena um inferno gélido em cores, contrapondo-o à narrativa em preto-e-branco. Em Ritual dos Sádicos, seu filme mais radical, o diretor explora as cores das alucinações provocadas pelo uso de LSD, psicotrópico dado por um médico às suas cobaias humana. Essas cenas surrealistas e psicodélicas, sem encadeamento narrativo, provocam impacto pela força da construção imagética e atmosférica. A contracultura está presente em Finis Hominis, profeta transgressor que surge como personagem antípoda de Zé do Caixão.

A promoção excessiva do personagem acaba por confundir criador e criatura. Esse conflito entre José Mojica Marins e Zé do Caixão é o mote para Exorcismo Negro, produção que se aproveita  do sucesso de O Exorcista (1973), filme estadunidense dirigido por William Friedkin (1935).

As dificuldades financeiras para realizar projetos autorais reforçam o alinhamento do cineasta com a Boca do Lixo, em produções de gêneros diversos, rápidas, baratas e sob encomenda. Ainda assim, é possível ver em seus filmes, desde A Sina do Aventureiro, o gosto pela crueza, pela truculência dos personagens e pelo erótico e grotesco. A decadência posterior a Ritual dos Sádicos atravessa os anos 1970, com poucos filmes de destaque, e chega aos anos 1980, quando as mudanças de paradigmas no cinema brasileiro, em especial o produzido na Boca, levam o diretor à produção de filmes de sexo explícito. Em uma dessas produções, por exemplo, o grotesco alia-se ao humor em cenas de zoofilia com um pastor alemão ou com um touro.

Desde À Meia-Noite Levarei Sua Alma, os filmes de Mojica, em especial seus longas de horror, provocam reações controversas na crítica. No Jornal do Brasil, Maurício Gomes Leite (1936-1993) escreve: “[...] absolutamente não é cinema [...], não é um filme primitivo, é primário; não choca, imbeciliza; para o cinema do Brasil não é uma linha pioneira, é um atraso”2. Na mesma toada, Rubens Ewald Filho (1945) escreve sobre Perversão, na revista IstoÉ:

O triste é que José Mojica Marins, nos seus primeiros filmes, tinha um certo charme do malfeito. Era como um pintor primitivo que levaram para a escola a fim de aprender a pintar. Disseram-lhe que era um gênio e ele acreditou. Hoje já sabe fazer fotografias de cartão-postal e dar declarações intelectualizadas. Mas não passa de um borra-botas igual a tantos outros3.

Em contrapartida, Salvyano Cavalcanti de Paiva (1923-2004) classifica À Meia-Noite... de “obra-prima da velhacaria com surpreendente dose de inventividade cinematográfica”4 e José Lino Grünewald (1931-2000) aponta que Mojica é “sem dúvida um dos melhores cineastas brasileiros e um dos poucos que, ao nível internacional, inova no gênero horror”5.

A partir dos anos 1990, nos Estados Unidos, Mojica torna-se diretor prestigiado em circuitos cinéfilos com a chancela de cult. Há também uma revisão crítica da obra do cineasta, que lhe permite voltar à cena para além das esporádicas participações midiáticas. Encarnação do Demônio  é seu filme mais caro e com maior valor de produção. O longa adapta a história de Zé do Caixão a tendências estéticas do horror contemporâneo, mas preserva o estilo do diretor. Apesar da recepção crítica positiva, o filme fracassa nas bilheterias, encerrando a carreira do diretor.

Notas

1 Entre os anos 1960 e 1980, a Boca do Lixo, na região da Luz, em São Paulo, é o maior polo cinematográfico do país, responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico.

2 Cf. BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Zé do Caixão: Maldito – a biografia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2015. p. 164.

3 Ibidem, p. 431.

4 Ibidem, p. 166.

5 Ibidem, p. 291.

Outras informações de José Mojica Marins:

  • Outros nomes
    • José Mojica Marins
  • Habilidades
    • cineasta

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (9)

  • BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Zé do Caixão: Maldito – a biografia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2015.
  • CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Multimeios) – Instituto de Artes da Universidade de Estadual de Campinas, Campinas, 2008.
  • PUPPO, Eugenio (Org.). Horror no cinema brasileiro. São Paulo: Heco Produções, 2009.
  • PUPPO, Eugenio (Org.). José Mojica Marins: 50 anos de carreira. São Paulo: Heco Produções, 2007.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em Tempo de Cinema. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com José Mojica Marins. Revista Zingu!, São Paulo, out. 2008. Disponível em: < http://revistazingu.blogspot.com.br/2008/10/djmm-entrevista.html >. Acesso em: 1 set. 2016.
  • DOSSIÊ José Mojica Marins. Revista Zingu!, São Paulo, out. 2008. Disponível em: < http://revistazingu.blogspot.com.br/2008/10/djmm-entrevista.html >. Acesso em: 1 set. 2016.
  • FERREIRA, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Limiar, 2000.
  • SPACA, Rafael. Conversações com R.F. Luccheti. Rio de Janeiro: Verve, 2015.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOSÉ Mojica Marins. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa204021/jose-mojica-marins>. Acesso em: 24 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7