Artigo da seção pessoas Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho

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Cinema  
Data de nascimento deEduardo Coutinho: 11-05-1933 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 02-02-2014 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Eduardo de Oliveira Coutinho (São Paulo, São Paulo, 1933 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014). Cineasta, documentarista. Estuda nos colégios Stafford e São Luís e, em 1952, entra para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, que não conclui. Em 1954, integra o Seminário de Cinema no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) e trabalha como revisor na revista Visão. Consegue uma bolsa de estudos para o Institut des Hautes Études Cinematographiques (Idhec), em Paris, onde conclui os cursos de direção e montagem em 1960.

Volta ao Brasil em 1960 e, em 1962, acompanha a caravana UNE Volante, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Conhece Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado na Paraíba. No retorno ao Rio, o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE propõe que Coutinho dirija um filme, adaptação de poemas do escritor João Cabral de Mello Neto (1920-1999), mas o poeta desiste do projeto. Coutinho decide então fazer um filme sobre João Pedro Teixeira e, ao longo de 1963, faz pesquisas sobre as ligas camponesas. Com a atuação de Elizabeth e de camponeses locais, as filmagens de Cabra Marcado para Morrer, na Paraíba e em Pernambuco. Em fevereiro de 1964 são interrompidas pelo golpe militar de 31 de março. A equipe se dispersa e seus materiais são apreendidos. A maior parte do negativo filmado se salva, pois já havia sido enviada para o laboratório no Rio de Janeiro.

Nos anos seguintes, Coutinho é copidesque no Jornal do Brasil e faz roteiros de longas de ficção: A Falecida (1965), de Leon Hirszman (1937-1987); Os Condenados (1973), de Zelito Viana (1938); Lição de Amor (1975), de Eduardo Escorel (1945); e Dona Flor e Seus dois Maridos (1976), de Bruno Barreto (1955). Dirige o episódio O Pacto, da série ABC do Amor (1966), além de O Homem que Comprou o Mundo (1968) e Faustão (1971). Em 1975, começa a trabalhar no programa semanal Globo Repórter, da TV Globo. Na virada para a década de 1980, Coutinho retoma o projeto Cabra, agora como documentário: em 1981, filma no Nordeste seu reencontro com os principais atores e exibe-lhes as imagens de 1964. As filmagens são concluídas entre 1982 e 1983, no Rio de Janeiro e em Limeira (São Paulo), com personagens que haviam deixado o Nordeste. O filme é lançado em 1984 e conquista doze prêmios internacionais. A boa acolhida inicial permite sua ampliação de 16mm para 35mm.

De Santa Marta Duas Semanas no Morro (1987), primeiro projeto em que Coutinho usa o vídeo, às entrevistas com adolescentes de escolas públicas cariocas de Últimas conversas (2015), ele dirige dezoito documentários. Em 2003, é homenageado no 7º Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal, com uma retrospectiva de seu trabalho. Em 2004, Peões recebe o prêmio de Melhor Filme no Festival de Brasília. No ano seguinte, O Fim e o Princípio divide com Là-Bas, da cineasta belga Chantal Akerman (1950), o prêmio de Melhor Filme no Festival de Marselha. Em 2007, o conjunto de obra dá a Coutinho o primeiro Kikito de Cristal da história do Festival de Gramado, e Jogo de Cena (2007) é premiado como Melhor Filme no Festival de Granada, na Espanha. As Canções (2011) conquista o prêmio de Melhor Documentário do Festival do Rio. Em 2013, a 37a edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo homenageia-o com uma retrospectiva. Eduardo Coutinho morre em seu apartamento, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2014, vítima de facadas desferidas por seu filho, que sofre de esquizofrenia.

Análise

Eduardo Coutinho é autor de uma obra coerente e em perpétua transformação. Entre as características de seu trabalho estão a atenção a personagens anônimos, das camadas mais pobres da sociedade, a afirmação e o aperfeiçoamento do documentário fundado na entrevista. Como afirma João Moreira Salles (1962)1: “a cada novo filme Coutinho aprofunda as questões de método, sem jamais transformá-las em exercícios de teorização”.

Atenta e respeitosa, a escuta dos entrevistados é prática que surge nas conversas com Elizabeth Teixeira para o primeiro Cabra Marcado para Morrer, afirmando-se em sua experiência na Globo. A montagem de seus filmes preserva momentos de fala com poucos cortes – é emblemático o plano de mais de três minutos em Seis Dias de Ouricuri (1976), documentário sobre a seca nordestina dirigido para o Globo Repórter. Na cena, um sertanejo faz o inventário das raízes e tubérculos que tem de comer – o programa não costumava exibir tomadas longas, por limitações de material e orçamento, já que tudo é rodado em 16mm. Com a versão final de Cabra, Coutinho inaugura um procedimento do qual não se desprende: integrar no corte final as costuras do filme, sem esconder a invenção, por parte do realizador, da equipe e dos personagens. Nesse sentido, ele próprio afirma2, é direta a influência de Jean Rouch (1917), realizador e etnólogo francês, autor de Les maîtres fous (1955).

O cinema de Coutinho define um dispositivo de entrevista, que impõe regras rígidas para entrevistador, entrevistado e equipe, orientando a montagem. Por isso o método é chamado por ele e por seus comentadores de “prisão”: as filmagens se dão em um lugar único (um edifício, uma favela, uma comunidade rural etc.), concentram-se em um tempo determinado e baseiam-se em regras preestabelecidas. Os planos fixos e longos predominam, e abdica-se de imagens de ilustração ou cobertura. Enquanto outros documentaristas posicionam-se ao lado da câmera para não aparecer na imagem, Coutinho mantém-se próximo do entrevistado – ele não acredita na possibilidade de uma conversa verdadeira a mais de 10 metros de distância, como diz no documentário Eduardo Coutinho, 7 de outubro (2014), de Carlos Nader (1964).

Isso já ocorre em Cabra Marcado para Morrer, talvez seu filme mais importante, que funciona como “ponte” – a expressão é do crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (1936) – entre dois momentos da história brasileira separados pela ruptura imposta pelo golpe militar de 1964. A ligação entre passado e presente se dá tanto na esfera pública quanto na privada, posto que o golpe determina a fuga de Elizabeth Teixeira, que passa a viver na clandestinidade, longe de seus filhos.

Esse elo é feito pelas sequências em que as imagens de Cabra, gravadas em 1964, são projetadas para seus principais atores, em 1981. A “ponte” não é apenas retórica: por meio do filme, Elizabeth reassume sua identidade e reencontra a família, deixando claro que o documentário de Coutinho não filma um real preexistente, mas cria novas realidades.

Com Cabra, o cineasta inicia um ciclo de documentários feitos em “locações reais”, de que Edifício Master (2002) é o melhor exemplo. Gravado com os moradores de um prédio de pequenos apartamentos em Copacabana e realizado com uma equipe que permaneceria constante até seus últimos filmes – Jacques Cheuiche na imagem, Valéria Ferro (1964) no som, Jordana Berg na montagem (1963) –, e segundo um processo também fixo. Antes das gravações, os personagens são entrevistados por um time de pesquisadores, para que Coutinho os selecione e conheça suas histórias. Quando ele encontra de fato seus personagens, a fala deles tem o frescor de quem confia em alguém pela primeira vez.

Se Coutinho reduz a distância física que o separa do entrevistado na filmagem, a escolha de temas e personagens passa pelo critério de distância – ou da alteridade: os entrevistados são seus “outros” de classe, sexo e idade. É uma estratégia para “se colocar no lugar do outro em pensamento, sem anular a diferença entre os que estão dos dois lados da câmera”, conforme aponta Consuelo Lins3. Segundo ela, trata-se “de uma relação original, extremamente difícil, entre o seu ponto de vista e o de seus personagens. O diretor não está nem acima nem abaixo deles, mas em intensa negociação narrativa, na qual os personagens também exercem suas próprias forças”4.

Ponto de inflexão no percurso do cineasta, Jogo de Cena (2007) inaugura uma fase reflexiva, em que o realizador passa a filmar em estúdios adaptados em espaços cênicos, como teatros e galpões de ensaio. O filme contém entrevistas com mulheres que respondem a um anúncio de casting publicado nos jornais. Seus depoimentos são montados junto ao de atrizes profissionais, algumas delas conhecidas do grande público, como Fernanda Torres (1966), Marília Pêra (1943-2015) e Andrea Beltrão (1963) – elas tanto podem contar histórias próprias como interpretar as de entrevistadas “anônimas”. Nas palavras de Bernardet5, o filme “solapa todo o cinema de entrevista, inclusive os filmes recentes de Eduardo Coutinho” e “revela uma coragem extraordinária por questionar a obra do próprio cineasta”. A escolha de um palco teatral como cenário das entrevistas de Jogo de Cena indica a consciência da teatralidade presente no documentário, tema que vem sendo abordado pelo crítico de cinema Ismail Xavier (1947), em suas relações com o ensaio e a reflexividade. Sobre o filme, ele afirma que sua “dimensão reflexiva vem aprofundar o debate sobre as relações entre cinema, performance e teatro, notadamente pela sua escolha de um espaço peculiar de filmagem e pelo estilo muito próprio de compor as cenas das entrevistas e sua sucessão, esta pontuada por mudanças de registro, interrupções nas quais o cineasta conversa sobre problemas da representação com três atrizes bem conhecidas”6. Já em filmes anteriores, a ambiguidade entre verdade e atuação está presente em alguns personagens. É o caso da fala de Alessandra, de Edifício Master, que diz ser uma “mentirosa verdadeira”, demonstrando, nas palavras do crítico de cinema Ismail Xavier, uma “notável intuição do que está implicado no efeito-câmera”, evidenciando “a mistura de espontaneidade e de teatro, de autenticidade e de exibicionismo, de um fazer-se imagem e ser verdadeiro”7.

Derradeiro documentário realizado pelo cineasta, concluído por Jordana Berg e João Moreira Salles depois de sua morte, Últimas Conversas, reunião de entrevistas com adolescentes em uma sala de aula, radicaliza esse processo. A possibilidade do fracasso é evocada pelo cineasta durante o filme, como que para reafirmar o princípio de incerteza de seu cinema, conforme escreve João Moreira Salles8 dez anos antes: “O filme pode simplesmente não dar certo, os dispositivos postos em prática podem falhar, os personagens podem falar mal. O cinema de Coutinho é infinitamente maleável e está sob o risco constante de se desmanchar”.

Notas

1 MOREIRA SALLES, João. Prefácio. In: LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 8.
2 BRAGANÇA, Felipe (Org.). Eduardo Coutinho: encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. p. 188.
3 LINS, Consuelo. O cinema de Eduardo Coutinho: entre o personagem fabulador e o espectador-montador. In: OHATA, Milton (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. p. 377.

4 Id. ibid.
5 BERNARDET, Jean-Claude. Jogo de cena. Blog do Jean-Claude, 14 jan. 2008. In: OHATA, Milton (Org.).
Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. p. 627.
6 XAVIER, Ismail. A teatralidade como vetor do ensaio fílmico no documentário brasileiro contemporâneo. Aniki: revista portuguesa da imagem em movimento, v. 1, n. 1, p. 34, 2014. Disponível em:< http://aim.org.pt/ojs/index.php/revista/article/view/52/19 >. 
7 XAVIER, Ismail. “Indagações em torno de Eduardo Coutinho e seu diálogo com a tradição moderna”. In: MIGLIORIN, Cezar (Org.). Ensaios no real. Rio de Janeiro: Azougue, 2010, p. 67.
8 MOREIRA SALLES, João. Op. cit., p. 9.

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Fontes de pesquisa (14)

  • XAVIER, Ismail. Indagações em torno de Eduardo Coutinho e seu diálogo com a tradição moderna. In: MIGLIORIN, Cezar (org.) Ensaios no Real. Rio de Janeiro: Azougue, 2010. p.65-79.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Jogo de cena. Blog do Jean-Claude, 14 jan. 2008. In: OHATA, Milton (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. p. 627-628.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Vitória sobre a lata de lixo da história. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mar. 1985. Folhetim. In: ______. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
  • BRAGANÇA, Felipe (Org.). Eduardo Coutinho: encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008.
  • COUTINHO, Eduardo. O olhar no documentário. Carta-depoimento a Paulo Paranaguá (texto escrito para o Catálogo do festival Cinéma du Réel, em Paris, em 1992). In: BRAGANÇA, Felipe (Org.). Eduardo Coutinho: encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. p. 14-21.
  • COUTINHO, Eduardo. O real sem aspas” Entrevista a BOJUNGA, Claudio; CAMARGO, Aspásia; GALANO, Ana Maria e VENTURA, Zuenir. Filme Cultura, 1984. In: BRAGANÇA, Felipe (Org.). Eduardo Coutinho: encontros. Rio de Janeiro, Beco do Azougue: 2008. p. 24-45.
  • EDUARDO Coutinho, 7 de outubro. Direção: Carlos Nader. Espaço Filmes, 2014. (112 min)
  • LINS, Consuelo. O cinema de Eduardo Coutinho: entre o personagem fabulador e o espectador-montador. In: OHATA, Milton (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. p. 374-388.
  • LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Eduardo Coutinho: o homem que caiu na real. Santa Maria da Feira, Portugal: Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, 2003.
  • MESQUITA, Cláudi; SARAIVA, Leandro. Eduardo Coutinho: cinema do encontro. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2003.
  • OHATA, Milton (Org.). Eduardo Coutinho. São Paulo: Cosac & Naify: Sesc, 2013.
  • SALLES, João Moreira. Prefácio. In: LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 7-10.
  • XAVIER, Ismail. A teatralidade como vetor do ensaio fílmico no documentário brasileiro contemporâneo. Aniki: revista portuguesa da imagem em movimento, v. 1, n. 1, p. 33-48, 2014. Disponível em: < http://aim.org.pt/ojs/index.php/revista/article/view/52/19 >. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EDUARDO Coutinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa204013/eduardo-coutinho>. Acesso em: 17 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7