Artigo da seção pessoas Inezita Barroso

Inezita Barroso

Artigo da seção pessoas
Teatro / música  
Data de nascimento deInezita Barroso: 04-03-1925 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 08-03-2015 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Ignez Magdalena Aranha de Lima (São Paulo, São Paulo, 1925 - idem, 2015). Cantora, atriz, pesquisadora e apresentadora. Aprende tocar violão aos sete anos. Gradua-se em biblioteconomia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1947. Casa-se com Adolfo Cabral Barroso, que apoia sua carreira artística. É leitora das obras sobre folclore escritas por Mário de Andrade (1893-1945) e canta as músicas recolhidas por ele na Rádio Clube de Recife. Mais tarde, em 1955, grava Viola Quebrada, uma modinha do século XIX harmonizada por Mário de Andrade.

Em 1950, ingressa na Rádio Bandeirante e, no ano seguinte, na Record, em São Paulo. Realiza recitais no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), no Cultura Artística e no Colombo. Grava, em 1953, a "Moda da Pinga" [(Marvada Pinga, de Ochelsis Laureano e Raul Torres (1906-1970)] e os sambas "Ronda", de Paulo Vanzolini (1924-2013), e "Estatutos da Gafieira", de Billy Blanco (1924-2011), em 1954.

Atua nos filmes Ângela (1950), O Craque (1953), Destino em Apuros (1953), É Proibido Beijar (1954) e Carnaval em Lá Maior (1955). Recebe o prêmio Saci de melhor atriz por sua atuação em Mulher de Verdade (1953) e o troféu Roquette-Pinto de melhor cantora de música popular brasileira de 1954. Publica o livro Roteiro de um Violão (1956). Grava canções dos poetas Cecília Meireles (1901-1964) - Berceuse da Onda (1956), música de Lorenzo Fernandez (1897-1948) - e Manuel Bandeira (1886-1968), de quem interpreta "Azulão" (1958) e "Modinha" (1959), com Jayme Ovalle (1894-1955). Até o final dos anos 1960 lança alguns de seus maiores sucessos, como o coco "Engenho Novo", adaptado por Hekel Tavares (1896-1969), a valsa "Lampião de Gás", de Zica Bergami (1913-2011); as toadas "Luar do Sertão", de Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) e João Pernambuco (1883-1947); e "Maringá", de Joubert de Carvalho (1900-1977). Em 1962, grava o LP Clássicos da Música Caipira, com o segundo volume lançado em 1972.

Nos anos 1970, dedica-se a viagens de pesquisa, recitais pelo interior e gravação de programas exibidos em Israel, na antiga União Soviética, na América Latina e nos Estados Unidos. Representa o Brasil com um documentário folclórico na Expo-70, no Japão. Em 1975, grava o LP Inezita em Todos Cantos, no qual inclui pontos de candomblé, sambas anônimos recolhidos no Rio de Janeiro e em Niterói e canções folclóricas da Bahia, do Mato Grosso, de Pernambuco e de Minas Gerais. Em 1978 e 1980, grava os dois volumes da coletânea Joia da Música Sertaneja. Em 1980, passa a apresentar o programa Viola, Minha Viola, com Moraes Sarmento (1922-1998), na TV Cultura. Em 1985, grava o LP Inezita Barroso, a Incomparável, com músicas escolhidas pelos fãs.

Viaja pelo Brasil com o Projeto Pixinguinha, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), ao lado de Oswaldinho do Acordeon (1954). De 1988 a 1993 apresenta o programa Mutirão, na Rádio USP. Leciona folclore na Universidade de Mogi das Cruzes e no curso de turismo da Faculdade Capital. Em 1990, apresenta o programa Estrela da Manhã, na Rádio Cultura AM, que fica no ar por nove anos. Em 1993, grava o CD Alma Brasileira. Com o violeiro Roberto Corrêa (1940) grava os CDs Voz e Viola (1996) e Caipira de Fato (1997). Recebe, em 1997, o prêmio Sharp de melhor cantora regional. Participa do CD Feito na Roça (1998), de Bráz da Viola e Sua Orquestra de Viola Caipira, e de discos de Renato Teixeira (1945) e Jair Rodrigues (1939-2014).

Análise

Inezita Barroso toma contato cedo com aqueles que se tornam referência para sua obra. Do compositor Raul Torres, colega de seu pai e frequentador de sua casa na infância, a cantora registra algumas composições, sucessos em sua voz, como "Cabocla Tereza", "Colcha de Retalhos" (gravadas em 1978) e "Saudades de Matão" (1972). Já o escritor e musicólogo Mário de Andrade, vizinho de sua tia no bairro da Barra Funda, a cantora conhece quando criança, mas só mais tarde toma contato com sua obra, que aponta caminhos para sua pesquisa musical. No entanto, sua maior influência são os muitos violeiros anônimos com quem aprende a tocar e apreciar a música caipira em sua infância, em passeios pelas fazendas de seus parentes no interior de São Paulo. Além disso, a capital paulista do início do século XX, onde a cantora cresce, é um cenário no qual se encontram simultaneamente a permanência de elementos do universo rural e a incipiente construção da cultura urbana. A criação e a difusão da música popular estão relacionadas, inicialmente, às festas tradicionais, religiosas e profanas, como a do Divino, de São João, a Folia de Reis e o Carnaval. Em algumas celebrações ainda se escutam a catira e o cururu. Essas manifestações concorrem para a formação da escuta da cantora e seu interesse pelas manifestações da cultura popular.

Nascida em uma família tradicional paulistana, Inezita desafia o preconceito da época. Como convém às jovens de origem similar, recebe aulas de piano na juventude, mas elege a viola e a música caipira como fontes de seu trabalho. Seu repertório, com destaque para a parceria com o compositor Hervê Cordovil (1914-1979), destoa dos gêneros privilegiados pelo rádio e pela indústria fonográfica nos anos 1950, quando a cantora se projeta no meio musical – ainda que os arranjos e as harmonizações de alguns discos incorporem o padrão técnico então vigente das gravadoras. Embora restrito, seu público permanece cativo, como demonstra a longevidade de seu programa na TV Cultura, Viola, Minha Viola.

Quanto à sua extensão vocal, Inezita possui um contralto primoroso, capaz de executar de árias de Carmen a pontos de candomblé – embora só registre em gravações o segundo. A cantora é bastante versátil com relação à escolha de seu repertório, a exemplo de um de seus primeiros discos, cujo acompanhamento do lado A, a moda "Marvada Pinga", é feito por violão e sanfona e, no lado B, o samba Ronda recebe apoio de orquestra. Seu acervo inclui gravações de compositores eruditos, como Guerra Peixe (1914-1993) – com a música "O Canto do Mar", parceria com José Mauro de Vasconcelos, realizada em 1953 –, sambas e a adaptação do folclore de diversas regiões brasileiras, sobretudo no álbum Inezita em Todos os Cantos, de 1975.

Explorando seu timbre grave, a cantora interpreta neste álbum Pontos de Ogum (temas de candomblé, tradicional, s/d), Rosa (música tradicional mato-grossense, s/d), Temas de Cururus (tradicional, recolhido em Piracicaba, s/d) e a canção amazônica Curupira [de Waldemar Henrique (1905-1955). Gêneros musicais diversos, como maracatus, cocos, lundus, valsinhas, toadas, pagodes caipiras e xotes convivem em seu repertório, no qual figuram compositores de diferentes vertentes, como João Pacífico (1990-1998), Teddy Vieira (1922-1965), Angelino de Oliveira (1888-1964), Mário Zan (1920-2006), Tião Carreiro (1934-1993) e Marcelo Tupinambá (1889-1953).

Inezita Barroso aprecia especialmente a música rural de vários estados brasileiros como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso, as modas caipiras, como são conhecidas. Em 1955, no disco Danças Gaúchas, contribui para a fixação de elementos da música tradicional local em temas recolhidos e adaptados pelos pesquisadores Barbara Lessa e Paixão Cortes, como "Pezinho", "Quero Mana" e "Chimarrita Balão". Caracterizadas pela temática geralmente nostálgica e melancólica, acompanhadas de viola ou sanfona, com versos simples, cantados em terça, as modas aparecem em maior volume em sua obra. Respeitando as características do gênero, cuja forma de cantar se aproxima da oralidade habitual do caipira, suas interpretações refletem o esforço em recuperar a cor local da fala nas canções. Na "Moda da Pinga", a cantora reproduz esse dialeto em versos como “côa marvada pinga que eu me atrapaio”. Consolidada como a “língua geral paulista” no século XVII, através do bandeirismo, essa dicção provém da fonética ameríndia ao falar o português, que articula de maneira peculiar certos sons, como “lh” e “r”.

Atuando tanto na vertente de pesquisa como nos meios de comunicação de massa, Inezita é muito consciente de seu papel e não se considera cantora folclórica. Ela entende que essa categoria se aplica aos cantores anônimos, nos quais sua obra se inspira. Um exemplo dado pela cantora é o cateretê, que originalmente consiste numa espécie de fábula narrada, utilizada pelos indígenas para contar histórias aos jesuítas nos seus mínimos detalhes. Com o advento da gravação fonográfica, as músicas são encurtadas, de maneira a caber nas faixas de um disco. Assim, suas características iniciais sofrem algumas alterações.

Apesar disso, a cantora se considera defensora da música caipira tradicional, privilegiando o gênero mesmo quando as gravadoras o julgam fora de moda. Rejeita a música sertaneja estilizada, aos moldes do country norte-americano, com instrumentos alheios ao gênero. Isto é constatado tanto no seu repertório pessoal como no de seus convidados no programa que comanda na televisão. Nele os músicos tocam ao vivo ou são acompanhados pelo regional do Robertinho do Acordeon (1939-2006), dando sempre preferência a compositores que renovam o gênero sem deixar de respeitar sua estrutura e temática. A atuação de Inezita, deste modo, contribui para a vitalidade da música caipira em meio às transformações da indústria fonográfica, ao introduzir novos compositores na cena musical e celebrar a memória dos antigos.

Outras informações de Inezita Barroso:

  • Outros nomes
    • Ignez Magdalena Aranha de Lima
    • Inesita Barroso
  • Habilidades
    • Instrumentista
    • Atriz
    • Cantora/Intérprete

Obras de Inezita Barroso: (81) obras disponíveis:

Todas as obras de Inezita Barroso:

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (7)

  • AGUIAR, Ronaldo Conde. As divas do rádio nacional: as vozes eternas da Era de Ouro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010. 247 p.
  • A MÚSICA brasileira deste século pelos seus autores e intérpretes. Inezita Barroso. V. 4, CD 07. 1 CD de música. São Paulo: Sesc: Fundação Padre Anchieta, 2001.
  • COLEÇÃO revista da música popular. Edição completa em fac-símile, set. 1954-set. 1956. Rio de Janeiro: Funarte: Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006.
  • MORAES, José Geraldo Vinci de. As sonoridades paulistanas: a música popular na cidade de São Paulo – final do século XIX ao início do século XX. Rio de Janeiro: Funarte, 1995. 208 p.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Inezita Barroso: a diva da tradição. Música caipira. Da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 323-335.
  • SANT’ANNA, Romildo. Moda caipira: dicções do cantador. Revista USP, São Paulo, n. 87, Dossiê Música Brasileira, p. 40-55, set.-nov. 2010.
  • VIEIRA, César. Em busca de um teatro popular. Apresentação Celso Frateschi, Antonio Grassi, Augusto Boal, Antonio Candido; texto Luiza Barreto Leite, Luiz Alberto Sanz. 4. ed. atual. São Paulo: Funarte, 2007. 487 p., il.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • INEZITA Barroso. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa202597/inezita-barroso>. Acesso em: 19 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7