Artigo da seção pessoas Eudóxia de Barros

Eudóxia de Barros

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deEudóxia de Barros: 1937

Eudóxia de Campos Barros (São Paulo, São Paulo, 1937). Pianista, professora. Inicia seus estudos de piano aos 6 anos com uma professora de bairro, Mathilde Frediani. Aos 7, realiza seu primeiro concerto. Tem aulas com Karl Heim e Nellie Braga, antes de ingressar no Instituto Musical de São Paulo, onde se diploma com 14 anos. Aos 16, fica em quarto lugar num concurso de solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira, com a qual realiza a primeira execução no Brasil do Concerto n° 1, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), sob a regência de Eleazar de Carvalho (1912-1996).

Entre 1954 e 1957, tem aulas com Magda Tagliaferro (1893-1986). Por seu intermédio, obtém uma bolsa do Ministério da Educação para estudar na França. Ali, além de Tagliaferro, tem aulas com o russo Pierre Kostanoff, os franceses Lazare Lévy (1882-1964), Pierre Sancan (1916-2008) e Cristiane Sénart (1916-2010). De volta ao Brasil em 1959, estuda com Guilherme Fontainha (1887-1970) e tem aulas de harmonia, contraponto, composição, e leciona em conservatórios. Também divulga a música erudita brasileira, dedicando recitais a compositores como Camargo Guarnieri (1907-1993), Lorenzo Fernandez (1897-1948) e Villa-Lobos. Em 1963, por ocasião dos 100 anos de nascimento de Ernesto Nazareth (1863-1934), grava Ouro Sobre Azul, disco só com músicas desse compositor, cuja vendagem lhe rende um disco de ouro.

Em 1965, parte para os Estados Unidos, onde tem aula com Olegna Fuschi (1934) e Howard Aibel e leciona piano na Escola de Artes da Carolina do Norte. No ano seguinte, conquista o primeiro lugar num concurso para solista da Orquestra Sinfônica da Carolina do Norte, com a qual excursiona por várias cidades norte-americanas. Apresenta-se ainda na National Galery of Art (1967), em Washington D.C., no Town Hall (1967) e no Carnegie Hall (1969), ambos em Nova York. 

Entre 1969 e 1970, estuda com Walter Blankenheim (1926-2007), na Alemanha. De volta ao Brasil, leciona em conservatórios, entre eles, o de Tatuí. Em 1976, inicia a prática de concertos didáticos, apresentando a obra e seu compositor antes da execução. Em 1982, casa-se com o compositor Osvaldo Lacerda (1927-2011), que lhe dedica várias peças, entre elas Cromos para piano e orquestra, que ela apresenta várias vezes no Brasil. O casal funda, em 1984, o Centro de Música Brasileira, entidade voltada à divulgação da música erudita brasileira e presidida por Barros desde 2011.

Ao longo da carreira, grava 31 LPs, 14 CDs e 1 DVD e realiza recitais pelo Brasil, América Latina, Estados Unidos e Europa. É autora do livro Técnica Pianística (1979). Em 1989, é eleita para a Academia Brasileira de Música, ocupando a cadeira n° 14, cujo patrono é Elias Álvares Lobo (1834-1901). É premiada por diversas instituições, como a Ordem dos Músicos do Brasil (1982), pelos serviços prestados à música brasileira; Funarte, com o Prêmio Nacional da Música (1995); e Associação Paulista dos Críticos de Arte (Apca) como Melhor Recitalista (1997) e pelo conjunto da carreira (2013).

Análise 

Dona de estilo enérgico, memória impecável (nunca recorre a partituras em seus recitais), notável rigor técnico e velocidade, Eudóxia de Barros é uma das mais reconhecidas pianistas brasileiras. Seu traço distintivo é a dedicação à música brasileira. Procura inclui-la em seus recitais lado a lado com o repertório erudito europeu, opção que a aproxima de pianistas como Clara Sverner (1936) e Arthur Moreira Lima (1940). É dela a ideia de tocar o Concerto n° 1 de Villa-Lobos à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, numa época em que os recitalistas preferem compositores estrangeiros. Entre os brasileiros contemporâneos incluídos em seu repertório, destacam-se Osvaldo Lacerda (de quem é a principal divulgadora) e Camargo Guarnieri (que a considera uma de suas melhores intérpretes1, e de quem grava o Concerto no 2 com a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida pelo compositor).

O interesse pela música brasileira não se restringe aos nomes consagrados, estendendo-se a jovens compositores, especialmente os da escola nacionalista. O primeiro disco por ela gravado, Eudóxia de Barros Apresenta Jovens Compositores Paulistas (1962), é constituído por obras dos alunos de composição de Camargo Guarnieri. Este segue as ideias composicionais de Mário de Andrade (1893-1945), segundo as quais a música erudita brasileira deve adaptar as constâncias da música folclórica (ritmo, melodia, fraseado) à técnica europeia do contraponto. De fato, entre os compositores interpretados por Eudóxia de Barros,não se encontra nenhum de tendência vanguardista, e as composições de Marlos Nobre (1939) e Edino Krieger (1928) que inclui no repertório são da fase nacionalista. Em 1964, ela grava um álbum dedicado à obra do compositor paulista Alexandre Levy (1864-1892), por ocasião do centenário de seu nascimento. Ascendino Theodoro Nogueira (1913-2002), ex-aluno de Guarnieri, conhecido por suas composições para viola brasileira, também é objeto de interesse da pianista, que grava suas 12 valsas-choros num disco de 1973. Procura transferir para o piano certas conotações violonísticas das composições originais, nas passagens em stacatto e nos bordões2, mostrando familiaridade com a linguagem musical seresteira.

A grande contribuição da pianista para a música brasileira é a “redescoberta” de Ernesto Nazareth, em 1963, por ocasião da gravação do LP Ouro Sobre Azul. Até então, a obra de Nazareth é gravada com base em arranjos feitos por terceiros, em interpretações cheias de acréscimos e ornamentos, nada fiéis à escrita e ao estilo interpretativo do compositor. Eudóxia de Barros recupera as partituras originais e interpreta-as com fluidez e segurança rítmica, procurando reproduzir o modo de tocar do compositor – embora alguns afirmem que ele toca num andamento mais lento. Em “Apanhei-te Cavaquinho”, é notável a regularidade da mão esquerda, que imita o acompanhamento do violão nos conjuntos de pau-e-corda3 do início do século XX. Eudóxia grava mais dois volumes dedicados à obra do chorão: Gotas de Ouro (1976), com peças menos conhecidas, como “Dirce”, “Talismã” e “Pinguim”, e Este Brasil que Tanto Amo! (1995), seu primeiro CD. Apesar de criticada por gravar um compositor popular – atitude vista com preconceito pelo meio erudito nos anos 1960 –, Eudóxia de Barros abre caminho para que outros pianistas clássicos incluam Nazareth em seus recitais e gravações, como Roberto Szidon (1941-2011), Arthur Moreira Lima e Clara Sverner. 

O repertório da pianista inclui ainda outros compositores populares. O disco O Despertar da Montanha (1969) é inteiramente dedicado ao compositor carioca Eduardo Souto (1882-1942), autor de sucessos como a marcha carnavalesca “Tatu Subiu no Pau” e o tango de salão que dá título ao disco. Em Brasileiríssimo (1983), a pianista reúne, no lado A, obras de Osvaldo Lacerda, e no B, peças de compositores populares como os já citados Nazareth e Souto, além de Lina Pesce (1913-1995), Waldir Azevedo (1923-1980) e Zequinha de Abreu (1880-1935), a quem ela dedica um CD em 2002. Também grava Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e Marcelo Tupinambá (1889-1953), presentes no CD Lua Branca (1999). Entre 1982 e 1993, ao lado do cantor e pesquisador Sérgio Rovito (1944-1993), faz concertos regulares com repertório variado, que vai de modinhas brasileiras a músicas de café-concerto, apresentando-se em teatros e bares paulistanos. Tudo isso revela a grande versatilidade da pianista, que interpreta do romântico polonês Frédéric Chopin (1810-1849) ao nacionalista húngaro Béla Bartók (1881-1945); do clássico austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) ao neoclassicismo romântico do alemão Johannes Brahms (1833-1897); do popular Nazareth ao erudito Villa-Lobos, passando pelo norte-americano Louis Moreau Gottschalk (1829-1869), cuja “Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro” é êxito em seus concertos e gravada no disco Saudades do Brasil (1979). 

Apesar de concertista no Brasil e exterior, Eudóxia de Barros tem na docência sua principal atividade. Em parte, isso reflete a incipiência do mercado de concertos no Brasil4, onde a pianista decide ficar, em contraste com muitos colegas que se radicam no exterior. Há em sua atividade docente um sincero interesse na formação de novos pianistas. Em 1977, ela publica o livro Técnica Pianística - Apontamentos Sugeridos pela Prática do Magistério e Concertos. Seu entusiasmo pelo ensino do piano aparece ainda numa série de três discos intitulada Evocando a Infância (1988), no qual procura apresentar os princípios do piano para crianças, preenchendo uma lacuna no mercado fonográfico. Em 2006, grava um disco só com composições da advogada paranaense Luna Remer. Trata-se de complemento do livro didático O Brasil pelos Dedinhos, composto por crônicas escritas pela compositora e partituras com crescente grau de dificuldade. 

Notas

1. VERGUEIRO, Carlos. A arte superior de Eudóxia de Barros. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 abr.1971. p. 22.

2. Bordão: fórmula de acompanhamento realizada nas cordas mais graves do violão.

3. Pau-e-corda: conjunto instrumental formado por flauta, violão e cavaquinho que, no final do século XIX, é o principal meio de execução dos tangos, polcas e schottischs que dão origem ao choro. 

4. Em meados dos anos 1990, diante da falta de incentivo governamental, e acusando as Secretarias de Cultura de preferir os grandes espetáculos aos concertos de câmara, Eudóxia de Barros lança o programa “Adote um artista”, apoiado pela Lei Rouanet, que prevê o patrocínio de 50 recitais anuais durante três anos.

Outras informações de Eudóxia de Barros:

  • Outros nomes
    • Eudóxia de Campos Barros
  • Habilidades
    • Pianista
    • Professora

Fontes de pesquisa (4)

  • BARROS, Eudóxia de. Entrevista concedida por Eudóxia de Barros para o site Choro Music. São Paulo, 2007. Disponível em: www.choromusic.com.br/compositores_nazareth_entrevista_eudoxia.htm. Acesso em: 25 jul. 2016.
  • BARROS, Eudóxia de. Palestra concedida por Eudóxia de Barros à Academia Brasileira de Música, 13 maio 2008. Disponível em: www.eudoxiadebarros.com.br/trajetorias_eudoxia_de_barros.pdf. Acesso em: 25 jul. 2016.
  • BARROS, Eudóxia de. Site oficial da artista. Disponível em: www.eudoxiadebarros.com.br.  Acesso em: 25 jul. 2016.
  • PUPO, Rosangela Paciello. Valeu a pena? – Conversando com Eudóxia de Barros. Brasília: Musimed, 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EUDÓXIA de Barros. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa20063/eudoxia-de-barros>. Acesso em: 22 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7