Artigo da seção pessoas Roberto Schwarz

Roberto Schwarz

Artigo da seção pessoas
Teatro / literatura  
Data de nascimento deRoberto Schwarz: 1938

Biografia
Robert Schwarz (Viena, Áustria, 1938). Crítico de literatura e cultura, poeta e dramaturgo. Filho de Käthe e Johann Schwarz, Roberto Schwarz muda-se para o Brasil com a família, de origem judaica, no início de 1939, quando ocorre a anexação de seu país natal pela Alemanha. No Brasil, nos anos 1950, trava contato com o também emigrado Anatol Rosenfeld (1912 - 1973), que desempenha, em sua formação, o papel de mentor literário e filosófico. Entre 1957 e 1960, Schwarz estuda ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP). Nessa instituição, participa, de 1958 a 1964, de um seminário de leitura da obra de Karl Marx que reúne intelectuais como o filósofo José Arthur Giannotti, o historiador Fernando Novais e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Schwarz cursa mestrado em teoria literária na Universidade de Yale, Estados Unidos, de 1961 a 1963. De volta ao Brasil, em 1963, torna-se assistente de Antonio Candido (1918) no Departamento de Teoria Literária da USP. Com a ditadura militar, parte, em 1968, para o exílio em Paris, onde, anos depois, obtém o doutorado em estudos latino-americanos na Sorbonne (Universidade de Paris III) com a tese "Ao vencedor as batatas", sobre a obra de Machado de Assis (1839 - 1908). Quando retorna ao Brasil, em 1978, começa a lecionar literatura e teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pela qual se aposenta, em 1992. Nesse período, sua atuação intelectual é marcada por algumas polêmicas importantes, como a que trava com Augusto de Campos (1931) sobre o legado da poesia concreta. Alguns de seus mais significativos ensaios são publicados em língua inglesa em forma de livro e em importantes periódicos, como a New Left Review. Um dos últimos ensaios do crítico se ocupa, aliás, da repercussão internacional mais recente de Machado de Assis.

Comentário Crítico
O ensaísmo de Roberto Schwarz representa o esforço de produzir uma crítica de filiação marxista adequada à especificidade da realidade brasileira com base no exame das relações dialéticas entre forma literária e processo social. Em seu primeiro livro de ensaios, que recolhe alguns dos trabalhos produzidos durante a estada na Universidade de Yale, Estados Unidos, Schwarz já revela a inclinação para o estudo do romance, abordando um número considerável de obras e temas da tradição europeia e anglo-americana, com um enfoque dialético que deixa entrever sua sólida formação marxista e a intimidade com as concepções dos principais nomes dentro dessa tradição teórico-crítica, como Georg Lukács (1885 - 1971) sobretudo, além de Theodor Adorno (1903 - 1969) e Walter Benjamin (1892 - 1940). Com base nesse quadro de referências teóricas, aborda desde O Pai Goriot, de Honoré de Balzac (1799 - 1850), e A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne (1804 - 1864), até A Metamorfose, de Franz Kafka (1883 - 1924), passando ainda por romances como O Retrato de uma Senhora, de Henry James (1843 - 1916), e Os Demônios e O Sósia, de Fiódor Dostoiévski (1821 - 1881). Ao lado desses, há estudos sobre obras representativas da literatura brasileira, como o que aborda os limites do psicologismo na poética de Mário de Andrade (1893 - 1945) e o que compara Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1908 - 1967), com Doutor Faustus, de Thomas Mann (1875 - 1955), além de ensaios sobre Raul Pompéia (1863 - 1895), Graça Aranha (1868 - 1931) e Clarice Lispector (1925 - 1977).

Inspirado pela lição de Antonio Candido (1918), percebe-se no livro seguinte de Schwarz o direcionamento da abordagem materialista para a especificidade da realidade histórico-social brasileira que vai marcar os estudos machadianos. Em O Pai de Família e Outros Ensaios, segundo nota Paulo Arantes, o jovem Schwarz vai atinar com a particularidade da matéria brasileira, como se observa no ensaio sobre O Amanuense Belmiro, o romance da urbanização de Cyro dos Anjos (1906 - 1994), em que o intérprete evidencia o modo muito particular pelo qual se dá no Brasil a passagem do passado rural para o presente urbano: passagem em que, em vez de conflito e desintegração, há na verdade o prolongamento do tradicional e o convívio com o moderno. Por isso, Schwarz fala de uma estética da acomodação para caracterizar o romance.

A caracterização dessas persistências e atrasos em tensão com o moderno, que marcam a especificidade da realidade brasileira, vai ser o tema central da reflexão de Schwarz, ganhando especial relevância nos estudos dedicados à obra de Machado de Assis (1839 - 1908). O crítico trata de evidenciá-la por meio de uma análise dialética, que mantém em tensão forma literária e processo social. A fundamentação histórico-social que orienta a abordagem da obra machadiana em vários estudos é delineada no primeiro deles, correspondente à sua tese de doutoramento: "Ao vencedor as batatas", dedicado à chamada primeira fase da ficção machadiana, precedida pelo estudo do romance de Joaquim Manuel de Macedo (1820 - 1882) e de José de Alencar (1829 - 1877). No capítulo intitulado "Ideias fora do lugar", Schwarz examina a "vida ideológica" brasileira da segunda metade do XIX, que se organiza em torno da prática do favor, na qual se baseiam as relações de dependência e proteção dos homens livres pobres na ordem escravocrata com a classe dominante ligada ao latifúndio. Em vista dessa ordem de relações paternalistas e clientelistas, as ideias contrárias ao escravismo e ao próprio paternalismo, como o liberalismo (baseado na liberdade individual, incompatível com a dependência direta do agregado em relação ao proprietário), entram em processo de deformação e de incorporação à "vida ideológica" e, sem fundamento na realidade social, acabam se combinando de vários modos com a prática do favor. Talvez mais do que se combinarem, tais ideias liberais permaneçam descompassadas e ociosas, porque descoladas da realidade local. O romance, na medida em que reproduz a ideologia dominante, reflete as posições dos participantes dessa vida ideológica. É o que Schwarz demonstra na análise da ficção alencariana, em particular, no caso do romance Senhora.

O crítico destaca a posição liberal, progressista do escritor ao trazer para o centro de seus romances temas da literatura europeia do século XIX (o casamento por interesse; o problema da autonomia do indivíduo que se sujeita a essa ordem de relação econômica), inspirando-se na "linha forte do realismo de seu tempo". Na análise da composição do livro, mostra, entretanto, as inconsistências de sua estrutura, devido à discrepância que ocorre entre as ideias europeias situadas no centro do romance e os tipos sociais característicos da realidade brasileira que definem a galeria de personagens secundários. A inversão desse plano da composição de Alencar ocorre com Machado de Assis, que traz para o centro da obra a realidade local, desqualificando, nas margens de seus romances, as ideias europeias. É assim que, nos primeiros romances machadianos, Schwarz examina, como problemática central, a racionalização do paternalismo e a ideologia do favor da perspectiva do favorecido ou do dependente. Como explica o crítico, a respeito do romance A Mão e a Luva, "em termos gerais, Machado opõe ao paternalismo autoritário e tradicionalista um paternalismo esclarecido, que aproveita os dons naturais e a iniciativa do beneficiado, em lugar de sacrificá-lo". O crítico demonstra como Machado de Assis transita gradativamente de uma perspectiva "elitista", pela cooptação da personagem Guiomar de A Mão e a Luva, para a defesa intransigente da moral católica e familiar no romance Helena, até que, em Iaiá Garcia (livro de passagem para a segunda fase), se dá a conversão para o ateísmo.

Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, que inaugura a segunda fase da obra machadiana, processa-se uma viravolta completa. É o que Schwarz vai examinar em Um Mestre na Periferia do Capitalismo - Machado de Assis. Primeiramente, o escritor fluminense adota uma perspectiva extremamente crítica em relação ao paternalismo posto em confronto com a ideologia liberal, sabendo tirar o máximo proveito da dissonância entre um e outro. Ocorre, também, uma mudança significativa do foco de abordagem do problema: em vez da perspectiva do dependente, Machado adota agora a perspectiva do proprietário e senhor, justamente para desqualificá-la. Por isso livros como Memórias Póstumas e Dom Casmurro são escritos contra seu pseudoautor ou narrador (representante das elites locais). Além disso, o Machado de Assis maduro mostra pleno domínio do estilo, tom e técnicas narrativas adequados para explorar as contradições entre a realidade local e as ideologias importadas.

No exame da composição de Brás Cubas, Schwarz fala da volubilidade do narrador machadiano como princípio estrutural do livro. Por volubilidade entende-se a mudança constante de posição do narrador, a cada capítulo ou mesmo a cada parágrafo. É uma espécie de desidentificação permanente, que leva, sucessivamente, ao abandono de todas as posições ideológicas importantes do tempo, não só brasileira como da cultura ocidental disponível para um brasileiro culto. Esse processo de desidentificação permanente é a chave do humor machadiano. A volubilidade compreende ainda o andamento ocioso e caprichoso do narrador, que suspende a narração a cada instante com suas constantes digressões, seja para filosofar, para extrair uma lição de moral (não raro cínica, risível e disparatada), para se reportar à tradição literária ou filosófica, comentar o processo narrativo ou interpelar o leitor de maneira (não raras vezes) desrespeitosa.

Todas essas características de composição e de estilo, que Schwarz resume sob o rótulo da volubilidade do narrador machadiano, representam, segundo ele, a estilização de uma conduta de classe, que é de Brás Cubas, membro das elites escravocratas do século XIX. Conduta na qual convivem, contraditoriamente, um liberalismo de fachada, que é conveniente ostentar, e as perversidades do regime escravocrata. Um ambiente em que prevalecem o sadismo, o capricho, a desfaçatez, o favor, o ócio e o tédio, que Machado de Assis trata de transpor para o livro, como seu princípio de composição. Isso que Schwarz evidencia a propósito do estilo e do princípio de composição encontrará sua confirmação e sua maior concretude no enredo e na galeria de tipos sociais que povoam o romance, dando, assim, consistência ao cinismo de classe encarnado pelo narrador.

A mesma estratégia desmistificadora do crítico em relação à estratégia machadiana de criar um narrador não confiável como representante das elites brasileiras da época está presente também na análise dedicada a "A poesia envenenada de D. Casmurro", em Duas Meninas, livro que traz ainda um ensaio sobre uma obra relegada a segundo plano pela historiografia tradicional: Minha Vida de Menina, de Helena Morley (1880 - 1970). A protagonista dessas memórias é aproximada por Schwarz da principal personagem feminina de Dom Casmurro, por isso denominada de a outra Capitu. Outros estudos sobre a obra machadiana vêm a ser publicados em coletânea de ensaios posterior de Schwarz: Que Horas São?. O livro recolhe, ainda, estudos fundamentais sobre Oswald de Andrade (1890 - 1954) e Antonio Candido.

Como poeta, Schwarz é contemporâneo da geração da dita poesia marginal, da qual participam nomes como Cacaso (1944 - 1987) e Francisco Alvim (1938), sobre os quais, aliás, escreve ensaios decisivos. Como notam Iumna Simon e Vinicius Dantas, a poesia de Schwarz, tal como a de Alvim, pratica, no contexto dos anos 1970, "um modo de crônica, pouco enfática e muito irônica, das mazelas da repressão política, do exílio, da vida burocrática e das anedotas de família". Quanto à única peça teatral escrita por Schwarz, ela tem também por horizonte histórico imediato os anos mais duros do regime militar: A Lata de Lixo da História, farsa concebida com base na reescrita paródica do conto machadiano O Alienista. Schwarz é ainda tradutor de Bertolt Brecht (1898 - 1956) e Friedrich Schiller (1759 - 1805).

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Como citar?

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  • ROBERTO Schwarz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1879/roberto-schwarz>. Acesso em: 22 de Jul. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7