Artigo da seção pessoas Gilberto Freyre

Gilberto Freyre

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / literatura  
Data de nascimento deGilberto Freyre: 15-03-1900 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 18-07-1987 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)
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Casa Grande & Senzala , 1933 , Gilberto Freyre
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

Gilberto de Mello Freyre (Recife, Pernambuco, 1900 - Idem, 1987). Sociólogo, ensaísta, desenhista, poeta e romancista. Filho do professor e juiz Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre, estuda, desde o jardim de infância, no Colégio Americano Gilreath, onde enfrenta dificuldades no processo de alfabetização. Tem aulas particulares de pintura, desenvolvendo desde muito cedo a habilidade nessa área. Aos 14 anos, participa da sociedade literária do colégio, atuando como redator-chefe do jornal O Lábaro, editado pelos alunos, no qual publica seus primeiros artigos. Tendo concluído o curso de bacharel em ciências e letras no Gilreath, em 1917, segue, no ano seguinte, para os Estados Unidos. Forma-se bacharel em artes pela Universidade de Baylor e ingressa na pós-graduação da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Colúmbia, em Nova York, obtendo o grau de mestre em 1922. Em viagem pela Europa, convive com artistas brasileiros como Tarsila do Amaral (1886 - 1973) e Victor Brecheret (1894 - 1955). Retorna ao Brasil em 1923, quando passa a colaborar no Diário de Pernambuco. Organiza em 1925 o livro que comemora o centenário da fundação do jornal, Livro do Nordeste, no qual é publicado pela primeira vez o poema Evocação do Recife, composto a seu pedido por Manuel Bandeira (1886 - 1968) - de quem se torna amigo. Nessa mesma época aproxima-se de José Lins do Rego (1901 - 1957), e o incita a escrever romances em vez de artigos políticos. Após trabalhar durante três anos com o governador de Pernambuco, Estácio Coimbra, acompanha-o em seu exílio, conhecendo parte do continente africano e permanecendo em Lisboa. A viagem é decisiva, conforme seu próprio relato, para a redação de Casa-Grande & Senzala, obra publicada em 1933 e que inova na análise da formação da sociedade brasileira. O projeto tem continuidade em dois outros livros, Sobrados e Mucambos, de 1936, e Ordem e Progresso, de 1959. Em 1942, é preso após denunciar, em um artigo, atividades nazistas e racistas no Brasil, e é liberado no dia seguinte. Eleito deputado federal em 1946, participa da Assembleia Constituinte, permanecendo na casa por apenas um mandato. Além de colaborar em diversos periódicos, como O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã e o argentino La Nación, viaja pelo Brasil e pelo exterior proferindo conferências, e é congratulado por instituições diversas, como as universidades Sorbonne, na França; Coimbra, em Portugal, Sussex, na Inglaterra; e Münster, na Alemanha. Escreve ensaios e também poemas, como Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados, publicado em Talvez Poesia, de 1962, considerado por Bandeira como "um dos mais saborosos do ciclo das cidades brasileiras"; e ficção, como Dona Sinhá e o Filho Padre, de 1964. Morre em sua cidade natal, após submeter-se a uma série de cirurgias, em 1987. 

Análise

Tendo como temas centrais de estudo a formação da família patriarcal brasileira durante a colonização e o surgimento de uma nova ordem brasileira a partir da República, Gilberto Freyre integra a geração de ensaístas que, após a Revolução de 1930, se propõe a interpretar o Brasil em análises sociológicas fundamentadas em pesquisas empíricas. Sua obra não apenas inaugura a antropologia histórica no Brasil como exerce também importância fundamental para o Romance de 1930.

Ao lado de Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982) e Caio Prado, Freyre constitui a tríade de estudiosos que se torna marco na sociologia brasileira. De acordo com  Antonio Candido (1918), eles buscam denunciar o preconceito de raça, valorizar o elemento de cor, fazer a crítica dos fundamentos patriarcais e agrários, a partir do discernimento das condições econômicas, e desmistificar leituras naturalistas efetuadas, até então, por intérpretes como Sílvio Romero (1851 - 1914), Euclides da Cunha (1866 - 1909) e Oliveira Viana (1883 - 1951).

Casa-Grande & Senzala (1933) analisa, nas palavras do próprio autor, "uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio - e mais tarde negro - na composição". Trata-se da primeira obra a reconhecer a contribuição decisiva do negro para a formação da sociedade brasileira, tarefa empreendida priorizando-se os fatores econômicos e sociais, em detrimento dos de clima e raça, segundo as influências recebidas do antropólogo Franz Boas no período em que estuda na Universidade de Colúmbia.

A obra busca mostrar como os fatores estruturais se manifestavam no cotidiano ou, em outras palavras, como a coerção patriarcal e religiosa se exercia no âmbito das relações pessoais. Aspectos da vida privada são, assim, incorporados à análise, e a casa-grande se desenha como espaço onde ocorrem os cruzamentos e os encontros culturais. Freyre recorre a gostos alimentares, características arquitetônicas e fatos da vida sexual para demonstrar como a configuração econômica e social é vivenciada no dia a dia da família dos senhores e dos escravos.

A descrição plástica desses elementos, para a qual são convocadas as impressões subjetivas do autor, que frequentemente manifesta seu afeto por processos vivenciados no ambiente patriarcal nordestino, compõe o que se convencionou chamar de a "escrita sensorial" de Gilberto Freyre. Para alguns intérpretes, o traço remontaria não apenas a pesquisas feitas com relatos de viagem da época da colonização brasileira, mas também ao modernismo literário, com o qual o sociólogo convive desde suas viagens à Europa, no início da década de 1920.

Além de ser uma constante nos títulos do autor, o binômio que dá nome ao seu livro assume, na interpretação, uma particular expressão, que é em parte responsável pelas críticas que acusam o conservadorismo de Freyre. Ao apontar certo "equilíbrio de antagonismos", o ensaísta identifica uma sociedade em que não há espaço para transformações revolucionárias, uma sociedade cujos laços afetivos diluem as rupturas do tecido social. Sua leitura faz o elogio de uma civilização que, baseada na interação de culturas, pôde triunfar.

Em Sobrados e Mucambos, o duplo está presente na análise que investiga como a sociedade patriarcal responde à influência europeizante trazida ao Brasil em 1808 pela transferência da corte de dom João VI. O espaço da casa-grande dá lugar, no ambiente urbano, aos sobrados ocupados pelos mais ricos, com os quais contrastam os mucambos dos mais pobres (hoje, favelas).

Nessa obra de 1936, o estudo de fatos literários é decisivo para a compreensão das mudanças sociais e culturais brasileiras. Ao analisar sociologicamente romances como os de José de Alencar (1829 - 1877), Freyre busca demonstrar, conforme afirma Antonio Candido, "o seu caráter adaptativo e o seu papel na expressão, tanto das elites tradicionais quanto - sobretudo com o romantismo - das novas camadas em ascensão".

Esse caráter utilitário, aliás, pauta as incursões de Freyre pela literatura. Tendo jamais se ocupado profissionalmente da tarefa de crítico literário, discute, em sua produção sociológica, obras e autores como meio para se compreender o contexto a que pertencem. Ainda assim, porém, não deixa de buscar a especificidade literária, procurando distinguir, em Ordem e Progresso - o terceiro livro de sua trilogia dedicada à interpretação do Brasil -, o artista que se serve da arte popular como fonte, superando-a, e o que se limita ao mero "folclorismo".

Assim, embora o significado estético derive em parte, de acordo com seu julgamento, do significado social da obra, a densidade humana dos personagens é igualmente relevante. Isso se manifesta como uma predileção de Freyre por romances em que o drama regional se associa à análise introspectiva - o que incentiva e nota principalmente em José Lins do Rego.

Regionalismo e tradição compõem, nesse sentido, outro binômio fundamental para Freyre. Desde uma obra não autoral, como é o caso do Livro do Nordeste, até o Manifesto Regionalista, composto em 1926, mas editado apenas em 1952, o sociólogo propõe que a literatura retrate o homem inserido em seu meio. Com isso, articula relações intensas entre estética e história, lançando as bases para a renovação promovida pelo romance de 30, que procura, de forma madura, retratar a particularidade da cultura brasileira.

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Temas do artigo: Artes visuais  
Data de iníciosp-arte 2010: 29-04-2010  |  Data de término | 02-05-2010
Resumo do artigo sp-arte 2010:

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Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GILBERTO Freyre. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1785/gilberto-freyre>. Acesso em: 14 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7