Artigo da seção pessoas Euclides da Cunha

Euclides da Cunha

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deEuclides da Cunha: 20-01-1866 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Cantagalo) | Data de morte 15-08-1909 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Imagem representativa do artigo

Os Sertões , 1902 , Euclides da Cunha
Brasiliana Itaú / Acervo Banco Itaú Reprodução fotográfica Horst Merkel

Biografia
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (Cantagalo, Rio de Janeiro, 1866 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1909). Escritor, professor, sociólogo, jornalista, engenheiro e militar. Nasce na região serrana do Rio de Janeiro, filho de um contador. Após o falecimento de sua mãe, passa a morar com os tios maternos, em Teresópolis, onde reside até 1871. Seus tios morrem e o autor é obrigado a mudar para São Fidélis, onde estuda no Instituto Colegial Fidelense.

São várias as mudanças em sua vida em decorrência das mortes familiares: entre 1877 e 1879, mora na Bahia, junto com a avó paterna; volta ao Rio de Janeiro em 1879, passando pelos colégios Anglo-Americano e Aquino. Neste último, dá início à sua vida literária, escrevendo os primeiros poemas e publicando seu primeiro artigo em um jornal do colégio. Em 1886, matricula-se no curso de engenharia da Escola Militar, onde continua a dar vazão ao seu talento com a escrita, colaborando para a Revista da Família Acadêmica. Dois anos depois, passa a publicar artigos anti-imperialistas no periódico A Província de São Paulo, posteriormente renomeado como O Estado de S. Paulo.

Casa-se, aos 24 anos, com Ana Emília Ribeiro e, em 1892, forma-se no curso de engenharia, sendo, em seguida, promovido a tenente. Ainda nesse ano, estagia no trecho paulista da Estrada de Ferro Central do Brasil e passa a trabalhar como professor na Escola Militar do Rio de Janeiro. Insatisfeito com o governo do marechal Floriano Peixoto, escreve ácidas invectivas ao regime, que acabam sendo rejeitadas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Como resultado de inúmeras críticas ao governo, em particular acerca do respeito para com os presos políticos da Revolta da Armada,1 acaba sendo transferido para Campanha (Minas Gerais) e, após um período de licença, devido a de problemas de saúde, desvincula-se do exército.

Retorna, então, ao jornalismo e recebe o convite do editor do jornal para cobrir a quarta expedição contra Canudos.2 Realiza a cobertura in loco de toda a batalha, ao mesmo tempo em que faz anotações para aquela que será a sua grande obra: Os Sertões, publicado em 1902. O sucesso do livro faz com que Euclides da Cunha seja aclamado membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1903. Continua dedicando-se, com artigos, aos problemas nacionais e, como resultado de seus escritos, lança Contrastes e Confrontos (1904). Designado pelo Barão do Rio Branco, viaja para a Amazônia como chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, missão que será relatada em um novo livro, publicado em 1906. No ano seguinte, os problemas de fronteiras sul-americanos servem de matéria para o volume Peru Versus Bolívia. Resolve, em 1909, dedicar-se ao ensino de lógica, no Colégio Pedro II, cargo que exerce por pouco tempo, já que morre em duelo contra o amante de sua esposa, em 15 de agosto do mesmo ano.

Análise
Euclides da Cunha deu início à sua vida literária com poemas, compostos ainda em sua juventude. Como a maior parte das obras juvenis, há nesses versos iniciais laivos de um romantismo ainda ingênuo, provavelmente nascido das leituras de poetas como Castro Alves (1847-1871) e Álvares de Azevedo (1831-1852), ou de parnasianos e simbolistas. No entanto, a crítica Walnice Nogueira Galvão aponta, já nessa produção inicial, certa vontade de conhecer o país em profundidade e a presença do sertão em imagens poéticas produzidas ainda com cacoetes românticos ou decadentistas.

Esse mesmo sertão, sobre o qual a obra primordial de Euclides da Cunha se debruça, faz com que o autor tenha uma importância singular tanto no âmbito literário, como também no histórico e sociológico. O crítico Massaud Moisés assinala justamente esse caráter solitário de Os Sertões não só dentro da produção de Cunha, na qual as demais obras funcionariam como satélites em torno de um corpo mais denso, como também no próprio sistema das letras nacionais, tendo em vista a dificuldade em se delimitar o gênero ao qual o livro pertence.

Publicado em 1902, Os Sertões, cujo cerne é a Guerra de Canudos, divide-se em três partes principais: “A terra”, em que o autor aplica sua bagagem histórica, geográfica e geológica para apresentar o local em que a ação transcorre; “O homem”, em que utiliza seus conhecimentos etnológicos e as ideias científicas da época para explicar a gênese do sertanejo; e finalmente “A luta”, na qual narra a batalha entre os soldados do governo e os insurgentes de Canudos, sob a liderança de Antônio Conselheiro (1830-1897). O motivo da insurreição não se resume unicamente à dimensão política: contribuíram para a eclosão do conflito a fome e a miséria em uma região preterida por um litoral economicamente mais rentável, somadas ao misticismo e ao fanatismo religioso de um líder que via a República como “coisa do diabo”.

Na época, Cunha havia sido chamado pelo editor de O Estado de S. Paulo para cobrir a quarta expedição encarregada de pôr fim à contenda. O jornalista aceitou de pronto e acompanhou as tropas comandadas por Artur Oscar de Andrade Guimarães. O livro, portanto, é resultado de um contato in loco com matéria narrada, a partir de anotações realizadas pelo autor. Mas seu conteúdo não se resume a isso: percebe-se a pretensão do escritor não só em documentar os fatos como também em refletir sobre eles, a partir de suas concepções científicas, calcadas no positivismo da época. Segundo Antonio Candido (1918), essa seria a principal fraqueza da obra, “a ciência mal-digerida”, baseada em preconceituosos preceitos naturalistas, pelos quais os condicionamentos geográficos, climáticos e genéticos serviriam para explicar a inferioridade racial do sertanejo diante da superioridade das “raças do litoral”.

No entanto, e nesse aspecto, a obra pode ser considerada inovadora e precursora do romance regionalista de tese da década de 1930. Cunha contamina sua perspectiva científica e documental com um olhar crítico, extrapolando uma percepção determinista e simplória. Os insurrectos também são vítimas de condicionamentos sociais excludentes, e os defensores da República, embora sejam os representantes da vitória da modernidade sobre o atraso, agem com bestialidade, dizimando a população de Canudos, no que se tornaria um dos mais escandalosos genocídios da história brasileira.

Literariamente, esse movimento paradoxal entre o cientificismo determinista e a perspectiva encontra no texto outros modos de expressão por meio da aproximação de elementos contrários. Assim, a relação entre a inferioridade racial e a bravura e força demonstradas pelo sertanejo no prélio, faz com que ele receba o epíteto de Hércules-Quasímodo. Do mesmo modo, como demonstra o ensaísta Augusto Meyer (1902-1970), é possível encontrar outras construções paradoxais, como “sol escuro”, “tumulto sem ruídos”, “profecia retrospectiva”, entre outras. E é justamente a construção literária o outro vetor de força de Os Sertões: na época de seu lançamento, o crítico Araripe Jr. (1848-1911) ressalta a força estilística do texto, assim com a construção de imagens e a condução da ação.

Essas características marcantes comparecem pouco nos outros textos do autor, tendo em vista que eles não receberam o mesmo trabalho estilístico destinado à sua obra-prima. Mesmo assim, muitos dos textos de Peru Versus Bolívia, Relatório sobre o Alto Purus, Contrastes e Confrontos e À Margem da História participam de uma mesma preocupação do autor: a da documentação aliada a uma crítica que denuncia e, ao mesmo tempo, propõe soluções. Nesse sentido, Alfredo Bosi (1936), em uma leitura de Contrastes e Confrontos, chega a aproximar as ideias de Cunha às encontradas no pensamento socialista.

Embora marginais em relação à sua obra capital, estilisticamente menos elaborados, e mesmo quando tratam de fatos circunstancias, como Peru Versus Bolívia – em que aborda problemas em fronteiras sul-americanas – os demais escritos de Cunha enriquecem a percepção acerca do escritor, bem como colaboram para o entendimento de elementos de formação da nossa cultura. A obra de Euclides da Cunha é essencial para a compreensão das fissuras ainda perceptíveis na sociedade brasileira, cujas raízes se encontram em um passado violento, recuperado com a leitura de obras como Os Sertões, ou de artigos como os que se encontram em Contrastes e Confrontos.

Notas
1 Foi deflagrada em 1893 pela marinha do Brasil, devido a interesses políticos divergentes do então presidente.  Foi derrotada em 1894 e Floriano Peixoto fortaleceu-se no poder.
2 Foi um foco de resistência à primeira República, criado no interior da Bahia, tendo como líder Antônio Conselheiro. Pregava-se a o fim da desigualdade social e a volta à monarquia. A comunidade foi arrasada em 1897 por tropas federais.

Outras informações de Euclides da Cunha:

  • Habilidades
    • escritor
    • professor
    • Sociólogo
    • jornalista
    • engenheiro
    • militar

Obras de Euclides da Cunha: (1) obras disponíveis:

Espetáculos (6)

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (9)

  • ARARIPE JR., Tristão de Alencar. Os sertões. Jornal do Comércio, mar. 1903; republicado em FACIOLI, Valentim; NASCIMENTO, José Leonardo do (org.). Juízos críticos. Os sertões e os olhares de sua época. São Paulo: Nankin Editorial: Editora da Unesp, 2003.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 8ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1994.
  • CANDIDO, Antonio. Literatura e cultura de 1900 a 1945. In: ______. Literatura e Sociedade. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000.
  • GALVÃO, Walnice Nogueira. Anseios de amplidão. In: VV. AA. Cadernos de literatura brasileira, n. 13-14, dez. 2002.
  • GINZBURG, Jaime. Euclides da Cunha, Amazônia e a barbárie. Estudos Avançados, n. 69, São Paulo, mai. 2010.
  • HARDMAN, Francisco Foot. A vingança de Hileia: Euclides da Cunha, a Amazônia e a literatura moderna. São Paulo: Editora da Unesp, 2009.
  • MEYER, Augusto. Preto e branco. Rio de Janeiro: INL, 1956.
  • MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. 5.ed. São Paulo: Cultrix, 2001. v.5.
  • Programa do Espetáculo - Os Sertões - A Luta 2

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EUCLIDES da Cunha. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1779/euclides-da-cunha>. Acesso em: 15 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7