Artigo da seção pessoas Luís da Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deLuís da Câmara Cascudo: 30-12-1898 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Norte / Natal) | Data de morte 1986 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Norte / Natal)

Biografia

Luís da Câmara Cascudo (Natal, Rio Grande do Norte, 1898 - idem, 1986). Folclorista, professor, historiador e jornalista. Inicia a carreira jornalística em 1918, assinando a coluna Bric-à-Brac do jornal A Imprensa, administrado por seu pai. Forma-se na Faculdade de Direito do Recife em 1928, e trabalha como professor de história do Colégio Atheneu Norteriograndense. 

Em 1934, torna-se sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e escreve numerosos artigos para as revistas publicadas pelo instituto. Funda a Sociedade Brasileira de Folclore em 1941. Dois anos depois, a convite do poeta Augusto Meyer (1902-1970), diretor do Instituto Nacional do Livro (INL), começa a redigir o Dicionário do Folclore Brasileiro, importante obra de referência, lançada em 1954. Nas décadas de 1950 e 1960, é responsável pela organização de diversas coletâneas de textos históricos, etnográficos e sobre os mitos folclóricos nacionais. Assume o cargo de professor catedrático de direito internacional público da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em 1961. Em viagem pela África, em 1963, visita Angola, Guiné, Congo, São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau, onde coleta informações utilizadas nos livros A Cozinha Africana no Brasil (1964) e História da Alimentação no Brasil, publicado em dois volumes em 1967 e 1968.

Monarquista nas duas primeiras décadas do século XX, Cascudo, como forma de combate à crescente influência marxista no Brasil, adere nos anos 1930 ao movimento integralista brasileiro, tornando-se membro destacado e chefe regional da Ação Integralista Brasileira, mas desencanta-se logo com o movimento nacionalista de extrema direita liderado por Plínio Salgado (1895-1975), demonstrando, durante a Segunda Guerra, sua antipatia por fascistas e nazistas. Fiel ao seu pensamento anticomunista, não se opõe ao golpe militar de 19641, mas protege e ajuda diversos potiguares perseguidos pelos militares. Suas opções ideológicas conservadoras levam alguns de seus intérpretes a ponderar sobre as implicações que essas ideias podem ter sobre conceitos-chave de seu pensamento folclórico e etnográfico, a começar pela sua concepção central de povo. No entanto, como adverte o historiador Marcos Silva, é necessário cuidado para não transformar a ideologia de Câmara Cascudo em chave explicativa de toda sua obra muito nuançada, que também se beneficia, e muito, do diálogo com outros estudiosos da cultura popular de filiações ideológicas muito diversas, como Sílvio Romero (1851-1914), Capistrano de Abreu (1853-1927) e Mário de Andrade (1893-1945)

Análise

É impressionante o conjunto de livros e plaquetes de Câmara Cascudo, ultrapassando um número superior a 170 títulos, descontados os inéditos e as traduções e compreendendo os campos da história, da etnografia, da antropologia, da literatura, da crítica literária, da cultura popular, da religião, da geografia e, principalmente, do folclore. Dentre os títulos mais celebrados, vale destacar Vaqueiros e Cantadores (1939), Cinco Livros do Povo (1953), Geografia dos Mitos Brasileiros (1947) e o Dicionário do Folclore Brasileiro, entre muitos outros que justificam o reconhecimento até mesmo internacional do folclorista e estudioso da cultura popular. 

Vaqueiros e Cantadores estuda os principais motivos da poesia tradicional sertaneja ligados ao ciclo do gado, centrado nas figuras do vaqueiro, do boi e de outros animais do sertão e no cotidiano da vida na fazenda; e ao chamado ciclo social, que se ocupa dos valores e costumes, da religiosidade popular, da condição feminina e da negra na sociedade nordestina, celebrando figuras como Padre Cícero e os cangaceiros, entre outros. Cascudo situa historicamente essa produção poética sertaneja em continuidade com a tradição europeia, principalmente medieval, mas também mais antiga. A dinâmica da oralidade faz transpor diferentes versões de cantigas, romances e gestas, entre outras manifestações, adaptando-as às contigências da realidade e da tradição sertaneja. Cascudo recorre neste livro à explicação feudalizante do passado colonial brasileiro como extensão ou reprodução do medievo europeu, que vigora por um longo período no pensamento social brasileiro.

Cinco Livros do Povo, “introdução ao estudo da novelística no Brasil” emprega o termo novelística num sentido especializado e prolonga, segundo o crítico Wilson Martins (1921-2010), “um interesse cujo fastígio ocorrera vinte anos antes”2, o que se verifica também no caso de outros folcloristas do período. Propõe, na introdução, uma classificação das modalidades populares e/ou tradicionais de literatura e, na sequência do estudo, uma investigação sobre as leituras praticadas durante o Brasil Colônia com base num levantamento feito em documentos do Santo Ofício, que permitem identificar livros censurados ou não no período. Os cinco livros referidos no título correspondem a pequenas novelas populares e continuamente reimpressas: Donzela Teodora, Imperatriz Porcina, Roberto do Diabo, Princesa Malagona e João de Calais, das quais Cascudo aproxima ainda a longa História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França. São histórias exemplares, de origem erudita, pertencentes às novelísticas francesa, italiana, espanhola e portuguesa, e procedentes dos séculos XV ao XVIII.

Em Geografia dos Mitos Brasileiros, Cascudo examina os mitos primitivos indígenas (Jurupari, Curupira, Anhanga, Mboi-tatá, Ipupiaras, entre outros) e europeus, “diversificados pelo elemento colonial brasileiro” (Lobisomem, Mula-sem-Cabeça, Mãe-d’Água, entre outros), em função de fluxos migratórios, áreas próximas de fronteira, concentração de africanos escravizados em dadas regiões e preponderância de contingentes indígenas autônomos ou miscigenados - fatores esses que condicionam a singularidade da dispersão dos mitos através do território nacional.

Publicado quando já se torna folclorista e etnógrafo reconhecido internacionalmente, Tradição, Ciência do Povo é um livro de maturidade (no sentido etário e intelectual) que explora, em seus oito ensaios, conceitos-chave de seu ofício e metodologia de trabalho - como o próprio conceito de tradição do título e a centralidade da noção de convivência, entendida “pelo cumprimento do que entende serem as três fases do trabalho folclórico e etnográfico, ‘colheita, confronto e pesquisa de origem’, ou seja, a escuta atenta dos informantes, o registro rigoroso das diferentes versões e a busca das origens entendidas como linhagem e constância cultural”3.

Notas

1 A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.

2 MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix, s/d.

3 NEVES, Margarida de Souza. Literatura: prelúdio e fuga do real. Disponível em: < http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/cascudo/preludioefuga.pdf>. Acesso em: 18 out. 2014. 

Outras informações de Luís da Câmara Cascudo:

  • Habilidades
    • historiador
    • jornalista
    • professor

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (5)

  • ANDRADE, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Rio de Janeiro: Villa Rica, 1991.
  • MAMEDE, Zila. Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual (1918-1968). Natal: Fundação José Augusto, 1970.
  • MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix: Edusp, 1978.
  • NEVES, Margarida de Souza. Literatura: prelúdio e fuga do real. Disponível em: < http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/cascudo/preludioefuga.pdf >. Acesso em: 18 out. 2014.
  • SILVA, Marcos (org.). Dicionário crítico Câmara Cascudo. São Paulo: Perspectiva, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUÍS da Câmara Cascudo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1772/luis-da-camara-cascudo>. Acesso em: 16 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7