Artigo da seção pessoas Walter Franco

Walter Franco

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deWalter Franco: 06-01-1945 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Walter Rosciano Franco (São Paulo SP 1945). Cantor, compositor, violonista. Aos 16 anos, tem aulas de violão com Elza Nogueira, esposa do violonista Paulinho Nogueira (1929 - 2003). Em meados da década de 1960, na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (EAD/USP), onde cursa artes dramáticas, começa a compor músicas para peças de teatro montadas por seus colegas, como A Caixa de Areia, de Edward Albee, Caminho que Fazem o Darro e o Genil até o Mar, de Renata Palottini, e As Bacantes, de Ésquilo. A partir de 1968, participa de festivais universitários de música popular ao inscrever Não se Queima um Sonho no 1º Festival Universitário da TV Tupi, em São Paulo, defendida por Geraldo Vandré. No ano seguinte, na segunda edição desse festival, conquista o terceiro lugar com Sol de Vidro, interpretada por Eneida. E na terceira edição participa com duas músicas: Animal Sentimental e Pátio de Loucos. Na extinta Rádio Marconi, de São Paulo, apresenta o programa Marcando Bossa, dedicado à música popular e moderna brasileira.

Com No Fundo do Poço como música tema da novela O Hospital, da TV Tupi, lança um compacto simples pela Philips e inicia a carreira como músico profissional, em 1971. Um ano depois, defende sua composição Cabeça no 7º Festival Internacional da Canção, organizado pela TV Globo, e obtém um prêmio especial. Contratado pela gravadora Continental, lança seu primeiro LP, Ou Não, em 1973, com produção e arranjos do maestro Rogério Duprat, e músicas autorais como Mixturação, Água e Sal, No Fundo do Poço, Me Deixe Mudo e Cabeça.

Apresenta o show A Sagrada Desordem do Espírito, no Teatro de Arena, em São Paulo, em 1974, cantando e tocando violão sozinho no palco, na posição da flor de lótus, da ioga, amparado nas mixagens ao vivo de Peninha Schmidt. Em 1975, com sua música Muito Tudo, com arranjo do maestro Júlio Medaglia, conquista o terceiro lugar do Festival Abertura, da Rede Globo. No mesmo ano, lança o disco Revolver (Continental). Pela gravadora CBS, lança os LPs Respire Fundo, 1978, e Vela Aberta, 1980. Nesse segundo disco está a canção Canalha, segundo lugar no Festival 79 de Música Popular, realizado pela Rede Tupi de Televisão. Em novo festival, o MPB Shell, promovido em setembro de 1981 pela Rede Globo, classifica entre as finalistas sua canção Serra do Luar, regravada com sucesso por Leila Pinheiro no disco Outras Caras (Polygram, 1991).

Em 1982 lança o LP Walter Franco, de pouca repercussão, e em 1984, a música Seja Feita a Vontade do Povo é vinculada ao movimento diretas-já. Paralelamente à vida artística, atua como compositor de jingles. Em 2000, participa do Festival da Música Brasileira, da Rede Globo, com a música Zen, assinada com Cristina Villaboim e incluída no álbum Tutano, 2001, em que registra parceria com Arnaldo Antunes (Nasça) e José Carlos Costa Neto (Totem), e composições individuais como Na Ponta da Língua e Quem Puxa aos Seus Não Degenera, todas apresentadas no show Brasil Não Violência, com o qual excursiona pelo país em 1997. O documentário de curta metragem Walter Franco, Muito Tudo, de Bel Bechara e Sandro Serpa, é lançado em 2000.

Faz shows com seu filho, o cantor, compositor e violonista Diogo Franco, e, acompanhado de banda, apresenta o espetáculo Raça Humana, em que reúne obras de sua carreira e composições recentes, como Meu Eu.

 

Comentário Crítico

Filho do primeiro vereador socialista eleito no Estado de São Paulo - o radialista e escritor Cid Franco -, Walter Franco apresenta o programa de rádio vespertino Marconi Marcando Bossa, da Rádio Marconi, de São Paulo, e tem na poesia concreta sua principal influência. Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, idealizadores dessa vanguarda poética que surge em São Paulo nos anos 1950, exaltam a essência e a materialidade da palavra, seu som e sua imagem. Quebram o modelo predominante, baseado em rimas, métricas e versos, e estruturam a poesia com base em sua disposição geométrica.

A música de Walter Franco valoriza a palavra e suas combinações, o som e o silêncio. Ao incorporar a lógica da poesia concreta, sua música foge do modelo vigente, da canção baseada no refrão e em melodias circulares. Como exposto no documentário Walter Franco, Muito Tudo (2000), de Bel Bechara e Sandro Serpa, Franco persegue a melodia que há em um poema, e o poema que há em uma melodia.

Síntese dessa "música concreta", Cabeça projeta o nome de Walter Franco a partir do 7º Festival Internacional da Canção (FIC), 1972, promovido pela TV Globo. Cabeça é espécie de antimúsica: não conta com uma melodia convencional, abusa de vozes sobrepostas e repetições de fragmentos da letra, o que a torna incompreensível. É vaiado pelo público do festival, no entanto, seu experimentalismo conquista o júri presidido por Nara Leão, que se mostra favorável a sua classificação para a fase internacional do evento. Essa tendência antipopular do júri (com os maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat, o poeta Décio Pignatari, e o psiquiatra e escritor Roberto Freire), que prefere premiar Cabeça a Fio Maravilha, de Jorge Benjor, incomoda o governo militar, que exige sua destituição. Fio Maravilha e Diálogo (de Baden Powell e Paulo César Pinheiro) são selecionadas para a fase internacional e Cabeça ganha menção honrosa.

Arranjado pelo maestro Rogério Duprat, Ou Não (1973), primeiro disco de Walter Franco, expõe em sua capa as concepções minimalistas do autor: branca, com apenas uma mosca no centro e, na contracapa, as palavras "Ou não". O resultado da fusão de elementos da música pop e erudita com ritmos nordestinos, letras que beiram o haicai e influenciadas pelo concretismo, faz de Ou Não um disco que muda os conceitos de melodia, de silêncio, ruído. Um projeto sonoro elogiado pela imprensa da época, mas execrado pelo público. É recordista em devoluções nas lojas e ganha uma resposta estética no Araçá Azul, de Caetano Veloso, também fortemente criticado. Um exemplo da inovação desse disco é a música Me Deixe Mudo, originalmente com mais de seis minutos de duração. Para o poeta Augusto de Campos, é "a canção com maior registro de silêncio já feita no Brasil. E com recursos de tratamento da palavra que a aproximam da poesia concreta". A música é regravada por Chico Buarque em seu disco Sinal Fechado, de 1974.

Em 1975, conquista o terceiro lugar no Festival Abertura (TV Globo) com a música Muito Tudo, arranjada pelo maestro Júlio Medaglia (1938). "A música de Walter Franco se negava a ser musical; o meu arranjo se negava a ser arranjo; os componentes da canção se negavam a ser canção, se negavam a ser convencional. Foi vaiada a ponto de não podermos apresentar a nossa música", confessa o maestro, ao documentário Muito Tudo. Por causa desses embates, ganha a pecha de maldito e tem a obra mal disseminada.

Lança Revolver, em 1975, álbum de 14 faixas em diferentes ritmos e texturas - potencializadas por efeitos de estúdio -, e com a mesma economia ou ausência de texto do LP Ou Não. Destacam-se Feito Gente, Cachorro Babucho, Nothing, Cena Maravilhosa e Um Pensamento. A composição Mamãe d'Água é mais um exemplo de seu vínculo com a poesia concreta e tem a letra publicada na revista Poesia em G, da Edições Greve, em 1975.

No disco Respire Fundo (CBS, 1978), expõe nas dez faixas a influência da filosofia e música orientais (Tao Te Ching). Respire Fundo não abandona o discurso minimalista, mas agora com temáticas mais esotéricas e filosóficas, como se vê na faixa-título e em Coração Tranquilo (Tudo é uma questão de manter / A mente quieta / A espinha ereta / E o coração tranquilo). A última faixa do disco, Berceuse dos Elefantes, dedica a Augusto de Campos.

Em 1979, Walter Franco participa do último festival promovido pela TV Tupi. Defende Canalha e, diferentemente do estilo vocal manso à João Gilberto que predomina na maioria de seus registros anteriores, canta com voz grave, culminando num grito com a palavra título da canção. Essa música integra o disco Vela Aberta (1980), que mantém a sonoridade pop e o discurso metafísico, mas foge das letras concretas e econômicas, como canta na faixa-título, sucesso composto com Cid Franco.

Outras informações de Walter Franco:

  • Outros nomes
    • Walter Rosciano Franco
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete
    • Instrumentista

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Fontes de pesquisa (9)

  • DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Site mantido pelo Instituto Cultural Cravo Albin. Rio de Janeiro, s/d. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br>  Acesso em: 15.dez.2009.
  • HOMEM DE MELLO, Zuza. A Era dos Festivais - Uma Parábola. São Paulo: Ed. 34, 2003.
  • STESSUK, Silvio. O Silêncio em Espirais: Walter Franco. 2008. Texto apresentado no XI Congresso Internacional da ABRALIC - Tessituras, Interações, Convergências, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2008.
  • TROPICÁLIA. Site/Projeto de Ana de Oliveira. Disponível em: http://tropicalia.com.br Acesso em: 30.jul.2011.
  • WALTER Franco: Muito Tudo. Documentário em curta-metragem. Direção de Bel Bechara e Sandro Serpa. São Paulo: Macondo Filmes, 2000.
  • ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2002.
  • CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. São Paulo: Ed. 34, 1997. 336 p. (Coleção Todos os Cantos)
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. 912 p.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo II: 85 anos de músicas brasileiras (1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. v. 2 . 367 p. (Ouvido Musical) 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • WALTER Franco. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa16297/walter-franco>. Acesso em: 19 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7