Artigo da seção pessoas Antonio Carlos da Fontoura

Antonio Carlos da Fontoura

Artigo da seção pessoas
Teatro / cinema  
Data de nascimento deAntonio Carlos da Fontoura: 20-11-1939 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Antonio Carlos da Fontoura (São Paulo, São Paulo, 1939). Diretor, escritor, produtor, roteirista. Em 1949, muda-se para o Rio de Janeiro. Antes de completar 14 anos, roda seu primeiro filme: um curta-metragem realizado com uma câmera 8 mm, trazida de Xangai por um colega de infância. Forma-se na primeira turma da Escola Nacional de Geologia, instituição criada em 1958 no Rio de Janeiro1.

Em 1960, assiste à peça A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Vianinha convida Fontoura para escrever peças para o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE). O autor redige a peça Auto dos 99% (1961), obra que lança a música “Canção do Subdesenvolvido”, de Carlos Lyra (1939) e Chico de Assis (1933-2015).

Em 1962, realiza curso sobre técnicas do cinema direto, com o documentarista sueco Arne Sucksdorff (1917-2001). Em 1964, aceita convite de Eduardo Coutinho (1933-2014) para participar, como continuísta, de Cabra Marcado para Morrer. As filmagens são interrompidas no começo de abril, após o golpe de estado que depõe o presidente João Goulart.

Estreia na direção com o documentário sobre o compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966). Em 1967, roda o curta-metragem Ver Ouvir, documentário inspirado no trabalho dos artistas plásticos Rubens Gerchman (1942-2008), Roberto Magalhães (1940) e Antonio Dias (1944). Em 1968, realiza Copacabana me Engana, seu primeiro longa-metragem.

A Rainha Diaba (1973), obra ficcional sobre um criminoso homossexual, recebe vários prêmios no Festival de Brasília: roteiro, fotografia, melhor atriz para Odete Lara (1929-2015) e melhor ator para Milton Gonçalves (1934). Em Cordão de Ouro (1977), aproxima-se das manifestações populares ao centrar a narrativa na capoeira, umbanda e no candomblé. Após hiato de oitos anos, roda Espelho de Carne (1984), duramente criticado pelas cenas de sexo.

A partir do final da década de 1990, realiza filmes para público mais amplo: Uma Aventura do Zico (1998), O Gatão de Meia-Idade (2005); No Meio da Rua (2006). Somos Tão Jovens (2013) é seu último longa para o cinema.

Na TV, Fontoura  dirige episódios de seriados para a Rede Globo, como Ciranda Cirandinha (1978), Carga Pesada (1979) e Você Decide (1992-2000), além de colaborar no roteiro das novelas Vidas Opostas (2006-2007) e Amor e Intrigas (2007-2008), ambas produzidas pela Rede Record.

Análise

Enquanto os realizadores do cinema novo voltam sua atenção para o fracasso dos intelectuais de esquerda diante do golpe civil-militar que estabelece a ditadura no país, Fontoura direciona sua câmera para a classe média alienada em Copacabana me Engana.

A narrativa, que se aproxima do pequeno-burguês carioca, apoia-se no humor ácido que, por vezes, beira o cinismo. Essa característica, no entanto, não é utilizada para apresentar  os personagens de forma positiva. Como observa o crítico José Carlos Avelar (1936-2016), o diretor trabalha com muita propriedade “o sentimento de inutilidade, solidão e impotência, que é o verdadeiro impulso que o filme procura retratar”2.

Por vezes os atores olham diretamente para a câmera, recurso emprestado por Fontoura do cineasta francês Jean-Luc Godard (1930)3. Em um desses momentos, o personagem Marquinhos diz: “Quem gosta de mim sou eu mesmo. O resto é papo de jornal, tudo otário! Mas eu não, eu não!”. Como contraponto aos intelectuais em crise de filmes como Terra em Transe, de Glauber Rocha (1939-1981), e O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni (1933-2012), por exemplo, essa breve sequência de Copacabana me Engana acentua o desejo da classe media de aferrar-se ao sistema. O desejo de transformar o país é substituído pela sedução do mundo do consumo.

A Rainha Diaba tem como personagem principal um negro e homossexual, líder de traficantes de entorpecendes. Se o cinema convencional nos acostuma com a imagem dura e violenta dos marginais, Fontoura apresenta uma figura delicada que lidera com crueldade seu bando.

O submundo do crime retratado pelo filme é marcado pelo exagero, que se reflete nas cores fortes, nas roupas e nos ambientes. Esse excesso, no entanto, é bem elaborado pelo diretor, que escapa do kitsch no modo como ordena esses elementos e graças aos diálogos diretos escritos por Plínio Marcos (1935-1999). Para o crítico de cinema Orlando Fassoni (1943-2010), essas características fazem da película “o filme mais barroco, ousado e delirante realizado no cinema brasileiro depois de Macunaíma”4.

Em Cordão de Ouro, elabora uma narrativa fantástica sobre as aventuras de um escravo que luta pela liberdade. O filme entremeia lutas de capoeira, perseguições de helicóptero e uso de armas modernas, recorrendo ao universo mágico das classes populares – umbanda e candomblé – como meios de resistência utilizados contra os opressores.

Espelho de Carne é o retorno ao pequeno-burguês retratado em Copacabana me Engana. Nesse filme, também se identifica o vazio nos personagens: “No isolamento de um condomínio na Barra, tornam-se mais evidentes os vácuos de afetividade e de uma relação produtiva com a vida”5.

A partir do final da década de 1990, Fontoura realiza um cinema mais popular, pretendendo ampliar o contato com o público. Clonagem e futebol aliam-se em Uma Aventura de Zico, fita protagonizada pelo famoso jogador do Flamengo e da seleção brasileira de futebol. O Gatão de Meia-Idade leva para as telas as agruras do personagem criado pelo cartunista Miguel Paiva (1950). No Meio da Rua narra a história de um menino rico que entra em contato com as favelas cariocas, quando sobe o morro para recuperar seu videogame. Com Somos Tão Jovens, o realizador constrói uma cinebiografia do cantor Renato Russo (1960-1996), líder do conjunto Legião Urbana, uma das principais bandas de rock dos anos 1980.

Notas

1 RAMOS, J. R. de Andrade. Cursos de geologia completam 30 anos (CAGE: 1957). Anuário do Instituto Geociências. v.11, 1987. p. 7-14.

2 MURAT, Rodrigo. Antonio Carlos da Fontoura: espelho da alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. p. 175.

3 MURAT, Rodrigo. Antonio Carlos da Fontoura: espelho da alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. p. 57

4 FASSONI, Orlando L. O fantástico bailado dos marginais. Folha de S.Paulo, São Paulo, 7 set. 1977. Ilustrada p. 29.

5 AZEREDO, Ely. Espelho de carne: mutantes na superfície de cristal. In: MURAT, Rodrigo. Antonio Carlos da Fontoura: espelho da alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. p. 180

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Como citar?

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  • ANTONIO Carlos da Fontoura. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa16273/antonio-carlos-da-fontoura>. Acesso em: 23 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7