Artigo da seção pessoas Sonia dos Humildes

Sonia dos Humildes

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deSonia dos Humildes: 1939 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador) | Data de morte 1980 Local de morte: (Brasil / Bahia / Salvador)

Biografia
Sonia Crispiniana dos Humildes (Salvador, BA, 1939 - Idem, 1980). Atriz, diretora e produtora. Inicia carreira no teatro amador ainda adolescente e, aos 17 anos, ingressa na primeira turma da Escola de Teatro da então Universidade da Bahia, em 1956. Em 1958, atua em Senhorita Julia, de Strindberg (1849-1912), com direção de Martim Gonçalves (1919-1973), montagem que inaugura o Teatro Santo Antonio (atual Martim Gonçalves). Em 1959, conclui o curso e integra o elenco de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams (1911-1983), com direção do americano Charles McGaw.

Durante a década de 1960, se envolve com as atividades da Escola de Teatro e, paralelamente, atua em montagens significativas do período. Estreia no cinema em 1964, a convite de Glauber Rocha (1939-1981), em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Em 1967, faz O Gonzaga, de Castro Alves (1847-1871), adaptado e dirigido por Orlando Senna (1940), no Teatro Castro Alves. Em 1968, cria com atores baianos o Teatro Livre da Bahia e convida João Augusto Azevedo, para dirigir Grrrrr, colagens de alguns textos dramatúrgicos de Jean-Paul Sartre (1905-1980).

Em 1970, João Augusto abriga o grupo Teatro Livre da Bahia no Teatro Vila Velha (TVV) e inicia com a atriz uma estreita parceria, que resulta em muitas montagens, dentre estas Cordel II, III e Quincas Berro d'Água. Com o espetáculo Cordel, de João Augusto, consagra-se internacionalmente no Festival de Teatro de Nancy, França, em 1971, e no Festival Internacional de Caracas. Entre 1973 e 1974, faz suas últimas apresentações como atriz em Salvador nas peças A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca (1898-1936), com direção de José Possi Neto (1947); e As Feras, texto de Vinicius de Moraes (1913-1980) e direção de Álvaro Guimarães.

A partir de 1977, começa um trabalho teatral comunitário em Cocorobó (antiga Canudos), Bahia, com os trabalhadores do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Na televisão, faz adaptações de peças teatrais adultas e infantis e participa de programas na TV Aratu e na TV Itapoã. Em 1989, Sonia dos Humildes é homenageada na primeira edição do Troféu Bahia em Cena, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, devido ao apoio à circulação de espetáculos pelo interior do estado.

Comentário crítico
Reconhecida pelo profissionalismo e talento, Sonia dos Humildes é uma unanimidade no meio teatral baiano. Sua curta trajetória, interrompida pela morte prematura, revela uma artista dedicada de modo intenso e visceral ao teatro, exercendo-o de várias perspectivas, como atriz, diretora, produtora e também professora na Escola de Teatro.

Suas atuações iniciais estão diretamente relacionadas à criação da Escola de Teatro. Depois da inauguração do Teatro Santo Antonio, é dirigida, em 1959, por Charles McGaw, um dos lideres do movimento renovador do teatro americano, que vem a convite de Martim Gonçalves dar aulas de interpretação e direção aos alunos da Etub. A peça é, segundo o cineasta Orlando Senna "um sucesso espantoso, Othon Bastos como Stanley Kowalski, Sonia dos Humildes como Stella". A impressão causada pela atriz faz com que Senna, ao dirigir O Gonzaga, no Teatro Castro Alves, em 1967, a convide para protagonizar o espetáculo. Sua atuação, à época, é observada pelo crítico Alberto D´Aversa, no Diário de São Paulo: "Uma atriz de autêntica vibração dramática, entre as melhores de todo o teatro nacional".

Além do olhar da crítica, a determinação e a dedicação ao trabalho são observadas em diversas circunstâncias pelos que conviveram ou atuaram com Sonia dos Humildes. O ator Bemvindo Siqueira é um dos que presenciaram sua entrega. Ele comenta sobre sua capacidade de aglutinar pessoas, de ser exemplar em situações improváveis, como quando quebra o pé em pleno sertão baiano, sem médicos, e tem de usar uma bota de vaqueiro ou em Quincas Berro d'Água, produção de parcos recursos, quando gruda os cílios postiços com cola de madeira e seus olhos inflamam, e ela resiste em cena nos três dias de apresentação. Ele também comenta como a atriz lida com o câncer: [a doença] "começa em 1972 e [ela] a enfrenta com resignação. O tratamento a faz interromper, mas volta ao trabalho enquanto pode!".1

Para a diretora Hebe Alves, com quem trabalha em A Casa de Bernarda Alba e As Feras, Sonia dos Humildes é uma inspiração devido à forma de pensar o teatro como profissão. Ela "tinha uma aura de mistério, defendia com dignidade a função, era dona de uma ética profissional aguda".2

Mesmo em pequenos papeis sua performance é destacada, como aponta Sábato Magaldi no jornal O Estado de S. Paulo (7.1973), sobre sua presença no papel de Madalena na peça A Casa de Bernarda Alba, dirigida por Possi Neto. Já em As Feras  - que reúne a nata dos artistas e intelectuais baianos -, Sóstrates Gentil, crítico baiano, destaca: "Sonia dos Humildes se mostra correta em tudo que faz, mesmo quando aparece em papéis pequenos, como é o caso de 'As Feras'".

Estes foram seus últimos espetáculos realizados em Salvador. A partir de 77, apesar do agravamento da doença, passa longos períodos em Cocorobó e, junto de integrantes do Dnocs, realiza um projeto de desenvolvimento sociocultural por meio do teatro com trabalhadores do campo. "Eles passavam o texto plantando",3 conta o ator Kearton Bezerra, com quem convive nesta fase.

Em 5 de junho de 1980, os meios de comunicação anunciam a sua morte, aos 40 anos de idade, "depois de iluminar dezenas de espetáculos com o seu talento e fazer crescer a vida teatral citadina, com a sua dignidade".4

Notas
1 Depoimento concedido a Nadja Miranda pelo ator Bemvindo Siqueira, em 23 jan. 2013.

2 Depoimento concedido a Nadja Miranda pela atriz Hebe Alves em 31 mar. 2013. 

3 Depoimento concedido a Nadja Miranda pelo ator Kearton Bezerra em 6 dez. 2012.

4 FRANCO, Aninha. O teatro na Bahia através da imprensa: séc. XX. Salvador: FCJA: Cofic: Fceba, 1994. 407 p.

Outras informações de Sonia dos Humildes:

  • Outros nomes
    • Sonia Crispiniana dos Humildes
    • Sônia dos Humildes
  • Habilidades
    • ator
    • diretor
    • produtor

Espetáculos (2)

Fontes de pesquisa (11)

  • ALVES, Hebe. Depoimento concedido a Nadja Miranda pela atriz em 31 mar. 2013. 
  • BEZERRA, Kearton. Depoimento concedido a Nadja Miranda pelo ator em 6 dez. 2012.
  • FRANCO, Aninha. O teatro na Bahia através da imprensa: séc. XX. Salvador: FCJA: Cofic: Fceba, 1994, 407p.
  • Informações de Margarida dos Humildes (irmã) e Liana dos Humildes (sobrinha).
  • Informações obtidas na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em nov. 2012.
  • Informações obtidas no Espaço Xisto Bahia em dez. 2012.
  • Informações obtidas no Teatro Vila Velha (TVV) em nov. 2012.
  • LEAL, Hermes. O homem da montanha. Coleção Aplauso, cinema brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008. Disponível em: www3.universia.com.br/conteudo/livroscinema/orlandosenna.pdf. Acesso em: 4. abr. 2013.
  • LEÃO, Raimundo Matos de. Transas na cena em transe: teatro e contracultura na Bahia. Salvado: Edufba, 2009. 400 p.
  • SANTANA, Jussilene. Impressões modernas: teatro e jornalismo na Bahia. Salvador: Vento Leste, 2009. 290 p.
  • SIQUEIRA, Bemvindo. Depoimento concedido a Nadja Miranda pelo ator em 23 jan. 2013.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SONIA dos Humildes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa16170/sonia-dos-humildes>. Acesso em: 14 de Ago. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7