Artigo da seção pessoas Fernando Sabino

Fernando Sabino

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / literatura  
Data de nascimento deFernando Sabino: 12-10-1923 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte) | Data de morte 11-10-2004 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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O Encontro Marcado , 1956 , Fernando Sabino
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
Fernando Tavares Sabino (Belo Horizonte MG 1923 - Rio de Janeiro RJ 2004). Cronista, romancista, contista e editor. É matriculado, aos 7 anos, em 1930, no Grupo Escolar Afonso Pena, onde cursa todo o primário e conhece o amigo Hélio Pellegrino (1924 - 1988), com quem, mais tarde, ao lado de Otto Lara Resende (1922 - 1992) e Paulo Mendes Campos (1922 - 1991) - também amigos desde a juventude -, forma uma espécie de quarteto literário. Em 1936, ano de ingresso no curso secundário do Ginásio Mineiro, publica seu primeiro texto, em revista da Secretaria de Segurança de Minas Gerais. Aos 15 anos, torna-se colaborador regular das revistas Alterosa e Belo Horizonte, publicando artigos, crônicas e contos. Nadador do Clube Atlético Mineiro, vence campeonatos em 1939. Ingressa na Faculdade de Direito de Belo Horizonte e no serviço militar em 1941, publica seu primeiro livro, a reunião de contos Os Grilos Não Cantam Mais, e se torna redator da Folha de Minas, por indicação de Murilo Rubião (1916 - 1991). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1944, se transfere para a Faculdade Nacional de Direito e conclui o curso em 1946. Nesse mesmo ano, se muda para Nova York, trabalhando no Escritório Comercial do Brasil e, posteriormente, no consulado brasileiro. Até 1948, quando retorna ao Rio, envia crônicas para Diário Carioca e O Jornal. Seus textos são reproduzidos em diversos veículos do país a partir do ano seguinte, consolidando seu nome como um dos renovadores do gênero, ao lado de Rubem Braga (1913 - 1990)Inicia colaboração diária no Jornal do Brasil em 1960, que mantém até 1976. Com Braga, inaugura, naquele mesmo ano, a Editora do Autor - da qual saem em 1966 e fundam a Editora Sabiá. Em 1971, em parceria com David Neves, começa uma série de documentários cinematográficos sobre escritores brasileiros, que é lançada em 2006 como uma coletânea de curtas em DVD. Vinte e três anos depois de seu primeiro romance, publica o segundo, O Grande Mentecapto, em 1979, retomando a redação iniciada 33 anos antes, em 1946.

Comentário Crítico
Considerado um dos principais cronistas brasileiros ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino publica seu primeiro livro, Os Grilos Não Cantam Mais, em 1941, aos 18 anos, cujo conto inicial coloca os temas que são constantes em toda a sua obra. Joãozinho, o protagonista, com o objetivo de vingar-se da mãe, que num momento de distração e nervosismo havia desejado que ele desaparecesse, decide suicidar-se nadando no lago (embora não entenda como virá a morte; afinal, é o melhor nadador entre todos os meninos). Enquanto nada, o garoto começa a questionar sua até então irredutível decisão, resolvendo finalmente voltar para casa e perdoar a mãe. Tenta a todo custo retornar à margem - as câimbras, contudo, impedem que o faça.

Para Fábio Lucas, o "mergulho fatal, sem regresso" é uma das múltiplas e variadas simbologias associadas à natação, esporte citado diversas vezes na obra do autor, sobretudo no romance O Encontro Marcado, de 1956. O sentido da competição entre atletas é substituído, dando lugar à metáfora do mergulho vertical, a partir do qual o sujeito se lança ao conhecimento de si e do mundo.

Já para Marco Aurélio Matos, em sua apresentação às obras completas de Sabino, a breve trajetória de Joãozinho se relaciona às tendências gerais dos personagens do autor - que são de vida, e não de morte: "Todos querem viver, voltar ao seio da família, recuperar uma harmonia que se desorganizou eventualmente, reintegrar-se ao fluxo do cotidiano para compreendê-lo e amá-lo".

Ambas as considerações se aplicam igualmente a O Encontro Marcado. Definida como romance de formação, a narrativa acompanha Eduardo Marciano desde sua infância até a maturidade - seu desenvolvimento como escritor, suas desilusões, seus relacionamentos pessoais. Também para esse protagonista a natação é prática a partir da qual se busca a si mesmo e, seguindo a tendência mais geral do autor, o jovem sofre diante de uma família cujos valores e entendimentos não correspondem aos seus. As angústias são as típicas da juventude; com Mauro e Hugo, na companhia de quem vive noites de boemia, o personagem integra um grupo de jovens que, nas palavras de Augusto Frederico Schmidt (1906 - 1965), são "tão moços que ainda não viveram sequer as experiências mais sérias, e já estão ensopados de tédio". "A Procura" e "O Encontro", partes em que é dividido o livro, retratam o ritmo ansioso da vida de Eduardo. Para isso, a narração recorre a recursos estilísticos como períodos curtos e diretos, elipses, cortes e ações intercaladas.

O Grande Mentecapto, publicado em 1979, retrata as aventuras de José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva ou Geraldo Boaventura ou Geraldo Viramundo. São narrados também os episódios de sua infância - inclusive o que teria sido responsável por ele se transformar, de criança comum do interior, em menino ensimesmado: com o objetivo de ganhar uma aposta, faz parar o trem que passa por Rio Acima, e assim se torna, aos olhos dos amigos, herói. O ato influencia o pequeno Pingolinha a fazer o mesmo. Este, entretanto, em decorrência de uma contingência (o trem estava sempre atrasado, mas naquele dia foi pontual), acaba morto. Assim, embora apresente traços satíricos, sobretudo por parodiar narrativas como Dom Quixote, o romance não esconde sua face trágica. E a união de ambos é traço fundamental do autor.

Segundo Matos, Sabino explora "o humor recôndito no mecanismo das coisas e dos homens: seu humor poderia receber a qualificação de um desmonte progressivo da realidade". É principalmente por meio do riso que se registram as contradições e os desequilíbrios da condição humana. É nesse recurso que o autor "se apoia para desvendar os mistérios do mundo que mais o atormentam". As crônicas de A Cidade Vazia, coletânea de textos escritos a partir de sua vivência nos Estados Unidos, país onde mora por dois anos, ilustram esse movimento. Nas narrativas A Vingança das Portas e Eficiência É o Nosso Lema, por exemplo, Sabino retrata equívocos bem-humorados decorrentes de uma sociedade altamente especializada, e, no entanto, incapaz de prestar serviços básicos como o conserto de uma porta de chuveiro ou ineficaz em dar ao cliente simples informações como o valor de uma dívida em uma transação feita a prestações.

O desencanto surge em chave trágica em Oito Milhões de Solitários (A Cidade Vazia). Em Nova York, cidade populosa, onde os habitantes guardam uns dos outros "menos de 1 metro de distância", todos se tornam cegos a uma mulher que é ameaçada publicamente por seu marido ou a um homem jogado à sarjeta após ter sido atropelado por um caminhão. Este os passantes julgam ser um bêbado. E o narrador pondera: "A bebida é a desculpa imediata de que a solidão se socorre para justificar a fragilidade da alma aprisionada em seus tentáculos. Todo corpo caído é um bêbado, toda mão que se estende é um desejo de beber".

Outras informações de Fernando Sabino:

  • Outros nomes
    • Fernando Tavares Sabino
  • Habilidades
    • escritor
    • romancista
    • contista
    • documentarista
    • editor de livros

Obras de Fernando Sabino: (1) obras disponíveis:

Espetáculos (4)

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Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FERNANDO Sabino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1617/fernando-sabino>. Acesso em: 23 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7