Artigo da seção pessoas Gabriel Bolaffi

Gabriel Bolaffi

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deGabriel Bolaffi: 1934 Local de nascimento: (Itália / Piemonte / Turim) | Data de morte 2011 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Gabriel Bolaffi (Turim, Itália, 1934 - São Paulo, São Paulo, 2011). Sociólogo e professor. Migra para São Paulo aos cinco anos de idade, fugindo com a família da perseguição nazista aos judeus. Em 1956, ingressa no curso de ciências sociais da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP). Inicia a carreira docente, em 1960, na mesma universidade. Dois anos depois, é convidado a integrar o núcleo de Fundamentos Sociais e Econômicos da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), parte do bloco de disciplinas Estudos Sócio-Econômicos, criado pela reforma de ensino de 1962. O sentido e a importância dessas disciplinas para a formação dos arquitetos são discutidos na comunicação "As disciplinas sócio-econômicas no quadro dos principais problemas do ensino da arquitetura no Brasil", apresentada no 1º Encontro de Professores de História da Arquitetura e Teorização (1975), ocorrido em Salvador. Faz o doutorado na Universidade de Washington de 1965 a 1968, apresentando na FAU/USP a tese Aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de Habitação (1972), orientada por Juarez Brandão Lopes (1925-2011).

É professor visitante na Universidade de Sussex, Inglaterra (1976-1977), e na Universidade de Nova York (1988), aposentando-se na FAU/USP, onde desenvolve pesquisas sobre habitação e a produção da cidade. É autor dos livros A casa das ilusões perdidas: aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de Habitação (1977), versão revista de sua tese de doutorado; A Saga da Comida (2000), livro de receitas e história e O Legado de Renata, romance autobiográfico. Publica artigos que se tornam clássicos na área de arquitetura, tais como: "Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema" (1979), escrito originalmente para o Simpósio de Habitação da 27ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) (1975), e "Para uma nova política habitacional e urbana" (1980), além de textos no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo e Mais da Folha de S. Paulo. Ao lado da atividade acadêmica, trabalha na Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) e na Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab).

Análise

Gabriel Bolaffi se destaca entre aqueles que desde a década de 1970 se dedicam a formular uma teoria capaz de explicar o intenso e desigual processo de modernização e urbanização brasileiro. Formado em sociologia, integra, em 1962, o quadro de professores da FAU/USP, onde desenvolve sua tese de doutorado Aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de Habitação (1972), cuja análise é retomada no artigo "Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema" (1979). Tomando o contexto de criação do Plano Nacional de Habitação Popular, nos anos 1960, e os resultados dessa iniciativa, que se revela desastrosa e insuficiente em menos de dez anos, Bolaffi afirma que "a necessidade de melhorar as condições habitacionais das populações urbanas de baixa renda, é formulada" como um falso problema, motivo pelo qual o Banco Nacional de Habitação (BNH), "não só jamais tomou qualquer medida eficiente no sentido de organizar a indústria da construção civil e aumentar a produtividade, como na realidade desempenhou funções totalmente alheias aos seus objetivos manifestos". Do seu ponto de vista, "ao transferir para a iniciativa privada todas as decisões sobre a localização e a construção das habitações que financia" o BNH gera "uma cadeia de negociatas inescrupulosas" que "se inicia com a utilização de terrenos inadequados e mal localizados, prossegue na construção de edificações imprestáveis e se conclui com a venda da casa a quem não pode pagá-la, por preços freqüentemente superiores ao valor de mercado".1 Por isso, o verdadeiro objetivo do BNH seria drenar para o setor privado os recursos públicos recolhidos com o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), com o intuito de "alimentar o mecanismo de acumulação e concentração de renda" no país.

Sua ineficiência não é, portanto, resultado de limitações técnicas, muito menos orçamentárias, mas sim fruto dessa orientação político-econômica que, do ponto de vista urbano, leva o BNH a aprofundar o padrão de crescimento periférico das cidades brasileiras. Caracterizado pela expansão descontínua, de baixa densidade e desprovida de infraestrutura - água, esgoto, luz, transporte e equipamentos urbanos -, esse padrão promoveria um acelerado processo de favelização. Para Bolaffi, a ação desvirtuada no BNH pode ser explicada por um conjunto de fatores, da inflação continuada à ausência de um mercado de capitais consistente e estável onde investir, passando, sobretudo, pela falta de impostos sobre o solo urbano, que teria transformado a propriedade imobiliária no único meio efetivo de constituição e preservação de um patrimônio.

A propriedade privada transforma-se num tipo de investimento que se reproduz pela criação de um estoque contínuo de terrenos. Devolvidos ao mercado só depois do investimento do Estado em infraestrutura, esses terrenos têm seu valor multiplicado, garantindo a desejada concentração de renda aos proprietários-investidores e transferindo para a maior parte da população as irracionalidade desse modelo periférico de crescimento urbano. A cidade, portanto, "cresce consumindo-se num movimento perene de demolições e de autodestruição", que só poderia ser freado com uma política fundiária que permitisse efetiva taxação e controle do uso do solo, de modo a promover uma redução do preço da terra e, com isso, estabelecer um padrão de urbanização mais homogêneo e democrático. O programa de reforma urbana ensaiado por Bolaffi nos anos 1970 será posto em prática, ainda que de forma muito limitada, anos depois com a redemocratização. Ecos de sua proposta estão presentes no Estatuto da Cidade (2001), lei que regulamenta o capítulo de política urbana da Constituição Federal de 1988 e, sobretudo, no IPTU progressivo no tempo, instrumento previsto do referido estatuto.

Nota

1 BOLAFFI, Gabriel. Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema. Comunicação apresentada para o Simpósio de Habitação da 27ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Salvador: S.N., p. 1-34, 1975.

Outras informações de Gabriel Bolaffi:

  • Habilidades
    • Sociólogo
    • professor universitário

Fontes de pesquisa (13)

  • ARANTES, Pedro Fiori. Marxistas e a cidade de São Paulo nos anos de 1970. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 83, p. 103-127, mar. 2009.
  • BERTONI, Estêvão. Gabriel Bolaffi (1934-2011) - A saga do sociólogo e da comida. Folha de S. Paulo, São Paulo, dez. 2011. Seção Cotidiano. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/942674-gabriel-bolaffi-1934-2011---a-saga-do-sociologo-e-da-comida.shtml>. Acesso em: dez. 2011.
  • BOLAFFI, Gabriel. A casa das ilusões perdidas: aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de Habitação. São Paulo: Brasiliense: Cebrap, 1977.
  • ROLNIK, Raquel; CYMBALISTA, Renato e NAKANO, Kazuo. Solo urbano e habitação de interesse social: a questão fundiária na política habitacional e urbana do país. Blog da Raquel Rolnik, jun. 2008. Disponível em: <http://www.usp.br/srhousing/rr/docs/solo_urbano_e_habitacao_de_interesse_social.pdf>. Acesso em: dez. 2011.
  • ______. A saga da comida. São Paulo: Record, 2000. 714 p.
  • ______. Aspectos sócio-econômicos do Plano Nacional de Habitação. 1972. 163 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1972.
  • ______. O legado de Renata. São Paulo: Perspectiva, 2006. 304 p.
  • ______. Papel da renda fundiária nos processos de concentração de renda urbana. São Paulo: Fundap, 1978.
  • ______. Arquitetura do poder e o poder da arquitetura. , 1985. p.144-7. Projeto, São Paulo, n.81, p.144-7, nov. 1985.
  • ______. Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema. Comunicação apresentada para o Simpósio de Habitação da XXVII Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Salvador: S.N., p. 1-34, 1975.
  • ______. Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema. In: MARICATO, Ermínia (Org.). A Produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1979. 166 p
  • ______. Mitos sobre o problema de habitação. Espaço e Debates, São Paulo, n.17, p.24-32, 1986.
  • ______. Para uma nova política habitacional e urbana. In: VALLADARES, Licia do Prado (Org.). Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. 196 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GABRIEL Bolaffi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa14574/gabriel-bolaffi>. Acesso em: 16 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7