Artigo da seção pessoas Andrea Tonacci

Andrea Tonacci

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Cinema  
Data de nascimento deAndrea Tonacci: 01-09-1944 Local de nascimento: (Itália / Lazio / Roma) | Data de morte 16-12-2016 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
Andrea Tonacci (Roma, Itália, 1944 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor de cinema, produtor e fotógrafo. Destaca-se como pioneiro na introdução do vídeo portátil no Brasil. Muda-se com a família para São Paulo, em 1953. Cidade onde inicia o curso de arquitetura e de engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas abandona para se dedicar ao cinema.

Seus primeiros filmes contribuem para a discussão sobre a estética do Cinema Marginal, como o curta-metragem Olho por Olho (1965), o média - metragem Blá, Blá, Blá (1968), melhor filme da categoria, no Festival de Brasília do mesmo ano, e o longa Bang Bang (1970), considerado uma obra importante do movimento.

Apesar de sua trajetória ter início nos filmes de ficção, a maior parte de sua obra é composta de documentários, gênero no qual se estabelece a partir de meados dos anos 1970. Em 1972, realiza ao lado do diretor Júlio Bressane (1946) uma viagem ao Extremo Oriente e faz o registro fotográfico da viagem. Neste ano, iniciam-se suas experiências precursoras em vídeo. Em 1975, faz dois documentários sobre o artista plástico José Roberto Aguilar (1941), Do Tabu ao Totem e Roberto Aguilar em Nova York, ambos realizados em vídeo.

No mesmo ano, Tonacci dirige seu segundo longa metragem, Interprete Mais, Ganhe Mais, que registra em vídeo preto-e-branco a montagem da peça Os Autos Sacramentais, do dramaturgo espanhol Calderón de La Barca (1600-1681), o filme é finalizado apenas em 1995. Entre 1977 e 1984, realiza ampla documentação das culturas indígenas das Américas. Seu primeiro filme a respeito do tema é Conversas no Maranhão (1977), que se torna um dos pontos fundamentais do documentário brasileiro.

Andrea Tonacci inicia o projeto A Visão dos Vencidos, que se estende até 1983, com o apoio da Fundação Guggenheim, cujo o objetivo é aprofundar os trabalhos iniciados em Conversas no Maranhão. Viaja aos Estados Unidos, México, Peru, Bolívia, em 1978, quando realiza diversos documentários. No mesmo ano, Tonacci também se dedica à realização do documentário Hermeto, Macalé e Novos Baianos, em que grava, em 16mm, show dos artistas. Em 1979, produz documentários para os sindicatos operários do ABC, como 1º de Maio em São Bernardo do Campo e 13 de Maio em São Bernardo do Campo.

Em 1980, inicia outro documentário sobre a questão indígena chamado Os Arara. Dividido em três partes, gravado entre 1980 e 1983, respectivamente, o vídeo não tem uma edição final, pois apenas as duas primeiras partes foram finalizadas. Em 1994, faz um documentário em vídeo, para a Fundação Bienal, chamado Bienal Brasil século XX. No mesmo ano, dirige Óculos Para Ver Pensamentos, um vídeo de curta-metragem para o evento Arte/Cidade, em São Paulo. Em 1998, faz para a TVE do Rio de Janeiro, o documentário sobre direitos humanos Idade não é Documento.

Depois de três décadas, o diretor volta a produzir um longa-metragem, Serras da Desordem (2006). Tanto o filme quanto seu diretor são premiados como os melhores das suas categorias no Festival de Cinema de Gramado, em 2006.

Análise
Identificado historicamente com o chamado Cinema Marginal e com documentários ligados a questões indígenas, Andrea Tonacci, constrói sua obra baseada na experimentação de diversas ferramentas cinematográficas.

Blá blá blá  e Bang Bang, são exemplos disso, e colaboram para a compreensão do Brasil no auge da Ditadura Militar. Segundo o crítico Ismail Xavier (1947), em Bang Bang, “Tonacci monta uma estrutura de tema e variações em torno da situação clássica de perseguição no cinema; enreda figuras grotescas de bandidos numa ação sem continuidade que se torna pretexto para jogos de composição espacial onde tudo sempre recomeça, o cineasta dando prioridade ao processo, não ao produto final, e ironizando a narrativa clássica [...].”1

Andrea Tonacci recusa a narrativa clássica, construindo seu filme através de longos planos, que surpreendem pelo inesperado, pelo humor e pela construção rigorosa. A influência de Jean-Luc Godard pode ser vista de todas as formas, pela citação direta ou pela incorporação de elementos estilísticos. Para o crítico Alcino Leite Neto (1959), “Tonacci é completa vontade de potência cinematográfica. E, afinal, Bang Bang é um filme policial, em tom de sátira, cujos fundamentos provêm tanto das histórias em quadrinhos quanto do cinema burlesco […] Importa ao diretor extrair do personagem a sua identidade visual e reduzir as cenas à condição do puro acontecimento cinematográfico, ou seja, de ilusionismo e catástrofe. Por isso, esse filme, sempre deliciosamente juvenil, amadurece como um dos documentos por excelência de sua época”.2

A partir de 1970, sua obra se torna símbolo da irreverência e da liberdade, e ao lado, dos cineastas Rogério Sganzerla (1946-2004), João Callegaro (1945) e Carlos Reichenbach (1945-2012) que formam o tripé do cinema paulista produzido pelo Cinema Marginal.

Depois de Bang Bang Tonacci dirige alguns curtas-metragens até começar a utilizar o vídeo portátil em suas filmagens, tornando-se pioneiro desta técnica no Brasil em 1972 e que influencia seus próximos trabalhos. Um exemplo disso é o longa-metragem Interprete Mais, Ganhe Mais, gravado tanto em vídeo branco-e-preto quanto em 35mm e 16mm.

Ao partir de uma proposta registro ligada encenação de peça da companhia da atriz Ruth Escobar (1936), dirigida pelo argentino Victor Garcia (1934-1982), Tonacci, com sua câmera, interage com as oscilações de humor do elenco, da direção e da produção. O que deveria ser um filme institucional ganha ares de registro documental das contradições internas dos discursos do grupo. O uso da improvisação e da experimentação, uma constante na obra do diretor, é claramente perceptível neste trabalho que, por conta de divergências da produtora, é finalizado somente em 1995.

Em 1977, começa uma série de pesquisas sobre comunidades indígenas de diversos países. Como desdobramento desse trabalho realiza um estudo sobre índios do Maranhão que resulta nos documentários, Conversas no Maranhão e Os Arara que questionam a vivência do homem branco em relação às comunidades tribais, tema que acaba ganhando mais força pela linha estilística que inclui espontaneidade e improviso nas filmagens do dia-a-dia dos índios.

Mas é em Serra da Desordem, seu último longa-metragem que Andrea Tonacci experimenta com rigor a linguagem cinematográfica, salvo algumas cenas que precisaram ser recriadas. O filme conta a história de Carapiru, um índio que escapa de um massacre da sua aldeia e percorre sozinho o interior do Brasil, de 1977 a 1988, até ser encontrado por fazendeiros e localizado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que o leva de volta à tribo, na Bahia.

O crítico Luís Alberto Rocha Melo resume que “há momentos em que se busca [nas imagens de arquivo] a complementaridade, o fio narrativo linear, a harmonia na sucessão dos planos; em outros trechos, verifica-se o predomínio do choque, o desequilíbrio proposital na relação entre os universos ficcionais e documentais, tornando-se mais evidente o artifício da montagem.”

Andrea Tonacci consegue mostrar um novo olhar ao espectador, que o leva a refletir sobre o mundo e as várias formas de apreensão e construção da realidade, através do uso de diferentes ferramentas  de registro, que permitem mesclá-la com a ficção . O retrato do real,  é alçando reconstruindo-o através da encenação e da improvisação, permitindo novos olhares sobre o que já existe.

Notas
1 XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. p.21
2 LEITE NETO, Alcino. Bang Bang. In: PUPPO, Eugênio (org.). Cinema Marginal Brasileiro e suas Fronteiras. 2ª ed. Rio de Janeiro, Heco Produções, 2002, p.91.

Outras informações de Andrea Tonacci:

  • Habilidades
    • diretor de cinema
    • produtor
    • fotógrafo

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Artigo sobre Rumos Itaú Cultural Cinema e Vídeo. Bastidores. Júlio Bressane, Walter Silveira e Andrea Tonacci (1998 : São Paulo, SP)

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Data de inícioRumos Itaú Cultural Cinema e Vídeo. Bastidores. Júlio Bressane, Walter Silveira e Andrea Tonacci (1998 : São Paulo, SP): 16-09-1998  |  Data de término | 14-10-1998
Resumo do artigo Rumos Itaú Cultural Cinema e Vídeo. Bastidores. Júlio Bressane, Walter Silveira e Andrea Tonacci (1998 : São Paulo, SP):

Fontes de pesquisa (9)

  • ANDREA Tonacci. Quem é Quem no Cinema. FILME B. Disponível em: < http://www.filmeb.com.br/quem-e-quem/diretor/andrea-tonacci >. Acesso em: 11 jul. 2011.
  • BRASILIDADE. Site oficial do Ministério da Cultura. Disponível em: < http://www.cultura.gov.br/brasilidade/agraciados-2010/andrea-tonacci/ >. Acesso em: 11 jul. 2011.
  • GARDNIER, Ruy. Tonacci, o Eros e o Zero. CONTRACAMPO Revista de Cinema. Disponível em:  < http://www.contracampo.com.br/79/arttonaccigeral.htm >. Acesso em: 12 jul. 2011.
  • GENESTRETI, Guilherme; MEIRELES, Maurício. Diretor do cinema marginal, Andrea Tonacci morre aos 72 em São Paulo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 dez. 2016. Disponivel em: < http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/12/1842230-diretor-do-cinema-marginal-andrea-tonacci-morre-em-sao-paulo.shtml >. Acesso em: 16 dez. 2016.
  • MECCHI, Leonardo. Serras da Desordem, de Andrea Tonacci (Brasil, 2006).  Cinética. Disponível em:  < http://www.revistacinetica.com.br/serrasdadesordem.htm >. Acesso em: 12 jul. 2011.
  • MELO, Luís Alberto Rocha. O lugar das Imagens. In: CAETANO, Daniel (org.). Serras da Desordem. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2008, p.35.
  • PUPPO, Eugênio (org.). Cinema Marginal Brasileiro e suas Fronteiras. 2. ed. Rio de Janeiro, Heco Produções, 2002.
  • RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia de cinema brasileiro. São Paulo: Editora SENAC, 2ª Edição, 2004.
  • XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ANDREA Tonacci. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa14062/andrea-tonacci>. Acesso em: 24 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7