Artigo da seção pessoas Carlos Diegues

Carlos Diegues

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Cinema  
Data de nascimento deCarlos Diegues: 19-05-1940 Local de nascimento: (Brasil / Alagoas / Maceió)

Biografia

Carlos José Fontes Diegues (Maceió, Alagoas, 1940). Diretor de cinema, ensaísta, roteirista e produtor. Filho do antropólogo Manuel Diégues Júnior (1912-1991), muda-se em 1946 para o Rio de Janeiro, onde estuda em colégios de orientação jesuíta. Entre 1959 e 1960, nos quadros da política estudantil da Pontifícia Universidade Católica (PUC/Rio), funda um cineclube e assume a redação do jornal O Metropolitano. Este periódico, órgão oficial da União Metropolitana de Estudantes (UME), e o grupo da universidade constituem um dos núcleos de origem do cinema novo. Junta-se, em 1961 ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), para o qual realiza no ano seguinte Escola de Samba Alegria de Viver, um dos episódios de Cinco Vezes Favela.

Com a realização dos longas-metragens Ganga Zumba(1964) e A Grande Cidade (1966), a produção de Terra em Transe (1967) e a roteirização de Adorável Trapalhão (1967) e Pobre Príncipe Encantado (1969) firma a sua carreira cinematográfica, em meio à movimentação política e cultural que resiste ao regime militar, cuja censura interdita a exibição de Os Herdeiros (1969). O acirramento da ditadura o leva ao exílio, entre 1969 e 1971; filma para a televisão francesa o média-metragem Un Séjour (1970). De volta ao Brasil, realiza Quando o Carnaval Chegar (1972) e Joanna Francesa (1973), este com Jeanne Moreau (1928) no papel principal. Roteiriza A Estrela Sobe (1974) e, com financiamento da Embrafilme, realiza Xica da Silva (1976), sucesso de público e crítica.

Chuvas de Verão (1978) e Bye Bye Brasil (1980) também obtêm êxito. Em 1984, Quilombo é coproduzido pela produtora francesa Gaumont e retoma a temática da escravidão e resistência. Realiza, em 1987, Um Trem para as Estrela, que dialoga com a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes (1913-1980), musicada por Tom Jobim (1927-1994). Dias Melhores Virão (1989), num momento de crise do cinema brasileiro, é lançado primeiro na televisão e aponta para uma parceria que Veja esta Canção (1994), coproduzido pela TV Cultura, propõe. Coproduzido pela Globo Filmes, Diegues realiza Tieta do Agreste (1996), Orfeu (1999) e Deus É Brasileiro(2002). Dirige O Maior Amor do Mundo e Nenhum Motivo Explica a Guerra (codireção de Rafael Dragaud), ambos de 2006, e produz Cinco Vezes Favela - Agora por Nós Mesmos (2010), Bróder (2010) e Não se Pode Viver sem Amor (2011). Em 2012, inicia as filmagens de O Grande Circo Místico. Também compõem sua obra comerciais e videoclipes, os curtas-metragens Fuga (1959), Brasília (1960), Domingo (1961), A Oitava Bienal (1965), Oito Universitários (1967), Cinema Íris (1974) e críticas, ensaios e manifestos.

Análise

Grande teórico, polemista por excelência e um dos mais atuantes cineastas brasileiros, Cacá Diegues é um dos criadores do cinema novo, no início dos anos 1960, e ao mesmo tempo aquele que declara, ao término da década seguinte, a morte definitiva do projeto revolucionário, político e cinematográfico de sua geração. Para ele, em 1978, as profundas transformações sociais e culturais advindas da modernização econômica do país fazem com que o cinema seja encarado como um produto de mercado e exigem o abandono da camisa de força ideológica, financeira e artística que as "patrulhas ideológicas" impõem aos realizadores nacionais.

A afirmação radical de que se deve mudar quando as coisas mudam parece constituir não apenas uma prática profissional, mas uma consistente visão de mundo que Diegues articula com regularidade na composição temática e estilística da maior parte de seus filmes. Em sua extensa filmografia, constituem paradigmas a mudança, o deslocamento e a passagem (que as viagens fisicamente efetivam), bem como o enfrentamento, a reformulação de comportamentos e a ação em nome da liberdade e da felicidade, mesmo com a presença intimidadora da morte e da violência.

Esses princípios são trabalhados em seus filmes por meio de grandes temáticas, tais como a escravidão, a marginalização econômica, a dominação e o colonialismo, as condições terríveis das favelas e dos grandes centros urbanos, a chegada da velhice e a presença da morte. Essas temáticas acolhem diversas formas de tratamento de gênero, como o realismo, a comédia musical, a tragédia, a alegoria e o humor em meio ao drama, dentro das quais se entrelaçam a música, a história e o universo popular da criação artística.

Seus primeiros filmes, intimamente ligados ao cinema novo, já são territórios de exploração de temáticas e estilos. O drama histórico Ganga Zumba expõe didaticamente a violência da escravidão nos engenhos do século XVII e o sonho de liberdade que representa para os negros o quilombo de Palmares. A Grande Cidade, filme urbano que mistura literatura de cordel e samba, registra, de maneira lírica e também violenta, o acuamento de um casal de migrantes nordestinos fora de seu espaço, deslocado entre a rica zona sul e as favelas do Rio de Janeiro. Já Os Herdeiros demarcam a trajetória entre 1930 e 1964 das sucessivas traições de um homem que, antifascista na juventude, adota na maturidade o reacionarismo político. O experimentalismo da linguagem, mitigado pela emoção nos primeiros filmes, aqui se exacerba pelas marcações teatrais e pela entonação solene dos diálogos, numa postura de distanciamento em que sobressai a própria linguagem. Esses dois gestos - um épico e historicista e outro lírico e íntimo - , se unem na busca por uma fabulação atraente e acolhedora, de mais acesso à apreciação de um grande público.

Quando o Carnaval Chegar atualiza a chanchada e registra, com humor e música, a resistência a um poder autoritário e opressivo. Joanna Francesa, ao trabalhar com os elementos metafóricos do fogo (destruição) e da água (permanência da vida), fundamenta o elogio fúnebre de uma parte da aristocracia canavieira dos anos 1930 que sucumbe diante da industrialização. Xica da Silva mescla o humor popular, assimilado das chanchadas eróticas da época, o inventário de costumes do século XVIII e uma visão carnavalesca, não oficial, da história, para mostrar como uma escrava, que fracassa na sua tentativa de libertação individual, é vitoriosa na força de sua cultura. As críticas sobre a representação do negro não abalam o sucesso espetacular do filme, compensando o fracasso de bilheteria dos dois anteriores.

Chuvas de Verão, ao retratar alegrias, dores e perversões da classe média baixa de um subúrbio carioca, confirma o amor como forma de superação das limitações sociais que conspiram contra a felicidade, promovendo uma espécie de deslocamento puramente emocional, de transformação interior, na figura de um solitário funcionário público recém-aposentado. Bye Bye Brasil, por outro lado, percorre o Norte, o Nordeste e o Distrito Federal para mostrar como um grupo de artistas mambembes, diante do poder da televisão em escala nacional e da mudança profunda das relações sociais, comportamentais e econômicas, se moderniza para sobreviver. É uma espécie de afirmação ficcional de confronto às posições dos "patrulhadores ideológicos".

A partir dos anos 1980, produções de conteúdos menos polêmicos, condizentes com os desafios de uma diversa estrutura de mercado e financiamento, que inclui a televisão, se alternam com a recuperação de temáticas anteriores, a que Diegues acrescenta novos contextos dramáticos e recursos técnicos, que vão incorporar posteriormente o digital. Quilombo retoma as décadas de resistência de Palmares e as lutas internas entre seus grandes líderes, Ganga Zumba e Zumbi. Um Trem para as Estrelas e Orfeu adentram o universo violento dos grandes centros urbanos, como em A Grande Cidade. Deus É Brasileiro, numa estrutura de road movie à maneira de Bye Bye Brasil, panoramiza a beleza natural do Nordeste em contraste com os desacertos sociais.

Se no início de sua carreira em 1962, com o episódio de Cinco Vezes Favela, Diegues preconiza a doutrinação do outro - o povo alienado de uma escola de samba que o mantém distanciado de sua realidade, em 2010, Cinco Vezes Favela - Agora por Nós Mesmos, produzido por ele e dirigido por jovens cineastas moradores de uma comunidade, afirma a restituição da voz ao favelado, invertendo o movimento dos jovens intelectuais que fizeram o filme em 1962. Uma outra forma de prolongar a ficção de O Maior Amor do Mundo, na qual insere o mergulho interior de um astrofísico renomado, em estado terminal, num contexto de violência e sordidez de uma favela carioca dominada pelo tráfico e pelas milícias, para que nesse encontro tenso se efetue o verdadeiro conhecimento do outro.

Outras informações de Carlos Diegues:

  • Outros nomes
    • Carlos José Fontes Diegues
    • Cacá Diegues
  • Habilidades
    • ensaísta
    • Roteirista
    • Produtor
    • diretor de cinema
  • Relações de Carlos Diegues com outros artigos da enciclopédia:

Midias (2)

Carlos Diegues - Série Cinema - Jogo de Ideias (2012) - Parte 1/2
Produção Itaú Cultural

Carlos Diegues - Série Cinema - Jogo de Ideias (2012) - Parte 2/2
Produção Itaú Cultural

Exposições (2)

Eventos relacionados (7)

Artigo sobre Pré-Lançamento do Filme 5x Favela - Agora por Nós Mesmos e Debate com Cacá Diegues e Atores do Filme (2010 : São Paulo, SP)

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Data de inícioPré-Lançamento do Filme 5x Favela - Agora por Nós Mesmos e Debate com Cacá Diegues e Atores do Filme (2010 : São Paulo, SP): 05-06-2010  |  Data de término | 05-06-2010
Resumo do artigo Pré-Lançamento do Filme 5x Favela - Agora por Nós Mesmos e Debate com Cacá Diegues e Atores do Filme (2010 : São Paulo, SP):

Itaú Cultural

Fontes de pesquisa (14)

  • BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempos de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • CAIXA CULTURAL. Cacá Diegues: cineasta do Brasil. Rio de Janeiro, abr. 2012.
  • CARLOS DIEGUES: um olhar de alta ficção. Depoimento a Geraldo Sarno e José Carlos Avellar. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 35, jul.-set. 2003, p. 48-79.
  • DIEGUES, Carlos. Chuvas de verão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • DIEGUES, Carlos. Cinema brasileiro: ideias e imagens. Porto Alegre: Ed. da Universidade (UFRGS), 1988.
  • DIEGUES, Carlos. O diário de Deus é Brasileiro: notas, ideias, imagens e memórias da fabricação de um filme. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
  • DIEGUES, Carlos. O que é ser um diretor de cinema: memórias profissionais de Carlos Diegues. Depoimento colhido por Maria Silvia Camargo. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2004.
  • DIEGUES, Carlos. Site oficial. Disponível em: . Acesso em: 1 julho 2012.
  • DIEGUES, Carlos. Site oficial. Disponível em: http://www.carlosdiegues.com.br/. Acesso em: 1 julho 2012.
  • JOHNSON, Randal. Cinema novo x 5: masters of contemporary brazilian film. Austin: University of Texas Press, 1984.
  • NADOTTI, Nelson; DIEGUES, Carlos. Quilombo: roteiro do filme e crônica das filmagens. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.
  • OROZ, Silvia. Carlos Diegues: os filmes que não filmei. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
  • RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema, estado e lutas culturais (anos 50/60/70). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
  • VIANY, Alex. O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.

Como citar?

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  • CARLOS Diegues. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa14014/carlos-diegues>. Acesso em: 27 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7