Artigo da seção pessoas Caetano Veloso

Caetano Veloso

Artigo da seção pessoas
Música / teatro / literatura  
Data de nascimento deCaetano Veloso: 07-08-1942 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Santo Amaro)
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Caetano Veloso , 2004 , Camille Kachani
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Biografia
Caetano Emanuel Viana Teles Veloso (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 1942). Cantor, compositor, produtor, escritor. Passa a infância em sua cidade natal e, em 1960, muda-se para Salvador, onde aprende a tocar violão. Entre 1960 e 1962, assina críticas de cinema para o Diário de Notícias e faz apresentações musicais com a irmã, Maria Bethânia (1946), em bares da cidade. No ano seguinte, estreia no teatro com a trilha sonora para a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues (1912-1980), em montagem do diretor baiano Álvaro Guimarães. Em seguida, com montagem do mesmo diretor, compõe outra trilha para A Exceção e a Regra, do alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Em 1965, acompanha Maria Bethânia ao Rio de Janeiro, chamada para substituir a cantora Nara Leão (1942-1989) no show Opinião. O sucesso da irmã impulsiona a gravação de seu primeiro disco compacto.

O primeiro LP, Domingo (1967), sai em parceria com Gal Costa (1945). No mesmo ano, Caetano provoca polêmica no 3o Festival da Música Popular Brasileira da TV Record ao interpretar a marcha “Alegria, Alegria”, acompanhado pelas guitarras elétricas do conjunto argentino Beat Boys. Essa apresentação é um marco do movimento tropicalista, que ele promove na música brasileira ao lado de nomes como Gilberto Gil (1942), Gal Costa, Tom Zé (1936), Torquato Neto (1944-1972), do maestro Rogério Duprat (1932-2006) e do conjunto Os Mutantes. No ano seguinte, esses parceiros o acompanham no 3o Festival Internacional da Canção da TV Globo, quando defende a música “É Proibido Proibir”. Debaixo de vaias, Caetano faz um discurso contra o conformismo estético da juventude de seu tempo, o que se torna um verdadeiro manifesto. Em 1968, participa do disco manifesto do movimento tropicalista, Tropicália ou Panis et Circensis.

No mesmo ano, é preso sob a acusação de desrespeito ao hino e à bandeira nacionais. Depois dois meses no cárcere, vai a Salvador, onde grava o segundo disco homônimo. Em meados de 1969, parte em exílio para Londres. Lá, em 1970, registra mais um álbum homônimo e compõe o LP Transa, lançado em sua volta definitiva ao Brasil no início de 1972. A atividade artística de Caetano é intensa no decorrer dos anos 1970. Seu trabalho mais representativo nesse período é Araçá Azul (1973), um disco mais vanguardista.

Nos anos de 1980, dirige o longa-metragem experimental Cinema Falado (1986). Em 1992, sai Circuladô, que se desdobra no álbum duplo Circuladô Vivo: ao Vivo. Em 1993, Caetano e Gilberto Gil comemoram 25 anos do tropicalismo com novas composições no disco Tropicália 2. A atuação como intérprete ganha exclusividade em Fina estampa (1994), com repertório em castelhano. Em 1997, publica o livro autobiográfico Verdade Tropical. Dois anos mais tarde, experimenta seu maior êxito comercial com o disco ao vivo Prenda Minha, graças ao sucesso de “Sozinho”, composição de Peninha (1953), alcançada em novela da Rede Globo.

Mantendo-se conectado com os rumos da música brasileira, inicia o milênio com o disco Noites do Norte (2001). Três anos depois, interpreta músicas do cancioneiro americano em A Foreign Sound. A trilogia composta pelos álbuns (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012), traz uma roupagem de rock eletrônico. Em 2011, produz e compõe todas as canções de Recanto, de Gal Costa.

Análise
Caetano Veloso é um dos artistas brasileiros mais controversos e influentes. Tem atuação intensa no meio musical como ideólogo, compositor, intérprete e performer desde meados dos anos 1960. É agitador e debatedor cultural por excelência, sofisticado artesão de canções e artista de presença marcante no palco. Outra característica de seu trabalho é empreender releituras provocativas e afetivas de gêneros musicais brasileiros tradicionais, adicionando-lhes informações de outros contextos.

Acompanhado de músicos como Gilberto Gil e Tom Zé, das cantoras Gal Costa e Nara Leão, dos arranjadores Rogério Duprat e Julio Medaglia (1938), dos poetas Torquato Neto e Capinan (1941) e do conjunto de rock Os Mutantes, Caetano causa impacto no cenário musical do país. Retoma o programa modernista antropofágico de Oswald de Andrade (1890-1954) e atualiza-o, em 1968, lançando o disco manifesto Tropicália ou Panis et Circenses. Mais democrático do que o preconizado por Oswald, o projeto procura superar as ideologias das chamadas “tradições nacionais puras”. Adiciona aos diversos estilos da música brasileira1, sem o receio de descaracterizá-los, signos provenientes de dicções estrangeiras e novidades do momento no Brasil e no mundo, veiculadas pelos meios de comunicação de massa e circuitos de vanguarda. O movimento tem duração curta, pouco mais de um ano, mas sua influência estende-se até os dias de hoje. É percebida nos trabalhos de Caetano e de diversos artistas sob uma atitude que elimina as barreiras da criação artística, ao propor sincretismos do tipo “rural” e “urbano”, “nacional” e “estrangeiro”, “autêntico” e “enlatado”, “engajado” e “desbundado”, “popular” e “erudito”, “mau gosto” e “bom gosto”.

Em seus trabalhos tropicalistas propriamente ditos – o disco coletivo Tropicália ou Panis et Circenses e o primeiro LP solo, Caetano Veloso –, Caetano busca captar a complexa realidade de seu tempo em seus contrastes e nuanças. Opta por fundir polaridades do erudito ao pastiche e à paródia. Em forma de colagem poética, os refrãos evocam elementos díspares da cultura brasileira – exóticos, sofisticados, cosmopolitas e grotescos – em roupagem carnavalesca. Enquanto o arranjo de Júlio Medaglia justapõe ritmos nacionais com orquestração sinfônica, o eu-lírico explora os contrastes do país. Em uma das estrofes, por exemplo, ele homenageia uma de nossas manifestações artísticas bem-acabada e moderna, a bossa nova – enaltecida em todo o mundo –, para, em seguida, “louvar” um de nossos elementos mais pitorescos e arcaicos – as palhoças, habitações pobres do interior: “Viva a bossa, sa, sa/ viva a palhoça, ça, ça, ça, ça”. Diversas canções destes discos apresentam fragmentos sobrepostos do imaginário brasileiro, com a arte de vanguarda e signos da cultura pop. “Bat macumba”, composta em parceria com Gilberto Gil, envereda pela poesia concretista dos irmãos Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos (1931) e alude tanto à batida dos ritos de religiões afro-brasileiras quanto ao famoso super-herói norte-americano Batman. Em “Alegria, Alegria”, a ebulição política dos anos 1960 surge entrelaçada com signos eróticos do circuito pop:

Em caras de presidente
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot.

A aparente banalidade que alguns trechos das letras deixam entrever está a serviço de uma subjetividade jovem, que busca fruir, sem complexos, o cotidiano de seu tempo. Exemplos disso são: “Você precisa tomar um sorvete/ Na lanchonete [...] /Ouvir aquela canção do Roberto”, de “Baby”, ou “Eu tomo uma coca-cola/ Ela pensa em casamento/ E uma canção me consola”, de “Alegria, Alegria”.

Em quase cinco décadas, Caetano Veloso é uma das personalidades mais marcantes da música brasileira. Transita por diversos gêneros musicais e temáticas, materializando o espírito tropicalista em trabalhos multifacetados que permitem a fruição em diversos níveis. Realoca informações de diferentes registros sob uma referencialidade particular em suas canções com uma voz inconfundível. Entre as composições, podemos destacar: “Atrás do Trio Elétrico”, “London, London”, “O Leãozinho”, “Terra”, “Sampa”, “Força Estranha”, “Lua de São Jorge”, “Beleza Pura”, “Cajuína”, “Outras palavras”, “Queixa”, “Você é Linda”, “O Quereres”, “Vaca Profana”, “Circuladô” de “Fulô”. As recriações de Caetano abrangem o trabalho de artistas variados – desde brasileiros díspares como Noel Rosa (1910-1937), Vicente Celestino (1894-1968), Luiz Gonzaga (1912-1989) e Cazuza (1958-1990), a standards do jazz, do rock anglo-americano dos Beatles ao Nirvana, passando pelo pop de Michael Jackson(1958-2009), por boleros, rumbas e guarânias como os de Fina Estampa

Nota
1 Alguns deles resgatados pelos tropicalistas de um ostracismo de quase uma década, como o samba-canção.

 

Outras informações de Caetano Veloso:

  • Outros nomes
    • Caetano Emanuel Viana Teles Veloso
    • Caetano Velloso
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete
    • diretor musical
    • arranjador
    • escritor
    • produtor
  • Relações de Caetano Veloso com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Caetano Veloso: (1) obras disponíveis:

Representação (2)

Espetáculos (23)

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Exposições (5)

Eventos relacionados (10)

Fontes de pesquisa (15)

  • RIBEIRO, Julio Naves. Lugar nenhum ou Bora Bora?: narrativas do "rock brasileiros anos 80". São Paulo, Annablume, 2009.
  • A Descoberta do Luxo, do Som e do Lixo. Palco e Platéia, São Paulo, ano III, no. 14, p. 6, março de 1972. Não catalogado
  • CAETANO Veloso. In: CALADO, Carlos. Tropicalismo. Cliquemusic. Disponível em: < http://cliquemusic.uol.com.br/generos/ver/tropicalismo >. Acesso em: 27 ago. 2012.
  • CAETANO Veloso. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: < http://www.dicionariompb.com.br/caetano-veloso/dados-artisticos>. Acesso em: 20 ago. 2012.
  • CAETANO Veloso. In: e-biografias-biografia de Caetano Veloso. Disponível em: < http://www.e-biografias.net/caetano_veloso/ >. Acesso em: 22 ago. 2012.
  • COELHO. Frederico. Eu brasileiro confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil das décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculos / shows: O Percevejo (Klop) - 1981; Alta Vigilância - 1987; Circulandô - 1994;Fina Estampa - 1995; Livro Vivo - 1998; A Foreign Sound - 2004; Milton e Caetano - 2005; Cê - 2006; Zii e Zie - 2009. Não catalogado
  • FAVARETTO, Celso F. Nos rastros da tropicália. In: Arte em Revista, nº 7, p. 31-37, ago. 1973.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. 912 p. R780.981 M321e 2.ed.
  • NAVES, Santuza Cambraia. Objeto não identificado: a trajetória de Caetano Veloso. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, 1988. 
  • NAVES, Santuza Cambraia. Velô de Caetano Veloso. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.
  • NAVES, Santuza Cambraia. Da bossa nova à tropicália. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - Arena Conta Tiradentes - 1967 Não catalogado
  • VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CAETANO Veloso. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13935/caetano-veloso>. Acesso em: 28 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7