Artigo da seção pessoas Gal Costa

Gal Costa

Artigo da seção pessoas
Música / teatro  
Data de nascimento deGal Costa: 26-09-1945

Biografia

Maria da Graça Costa Penna Burgos (Salvador, Bahia, 1945). Cantora e atriz. Antes dos 15 anos, canta e toca violão em festas escolares. Na adolescência, trabalha em uma loja de discos e conhece a bossa nova de João Gilberto (1931). Em 1963, é apresentada a Caetano Veloso (1942) pela mulher dele, Dedé Gadelha (1948). No ano seguinte, estreia como cantora em Nós, Por Exemplo, show de inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. Apresenta-se o lado de Caetano, Gilberto Gil (1942), Tom Zé (1936) e Maria Bethânia (1946), que a convida para participar da faixa "Sol Negro", do disco Maria Bethânia (1965). 

Em 1965, o grupo viaja a São Paulo e apresenta os espetáculos Arena Canta Bahia e Em Tempo de Guerra, ambos dirigidos por Augusto Boal (1931-2009). No mesmo ano, ainda com o nome Maria da Graça, grava um compacto com as faixas "Eu Vim da Bahia" (Gil) e "Sim, Foi Você" (Caetano). Seu primeiro LP, Domingo, em parceria com Caetano Veloso, é lançado em 1967. No ano seguinte, grava duas músicas dele no álbum Tropicália ou Panis et Circencis: "Mamãe, Coragem" [Caetano e Torquato Neto (1944-1972)] e "Baby" (Caetano), seu primeiro sucesso. Participa do 4o Festival de Música Popular Brasileira na TV Record e fica em terceiro lugar ao defender a canção "Divino Maravilhoso" (Gil e Caetano). Em 1969, lança dois álbuns: Gal Costa e Gal.

Em 1970, a cantora viaja a Londres para visitar Caetano e Gil, exilados pela ditadura militar. De volta ao Brasil, lança LeGal, com duas faixas compostas por Caetano – "Deixa Sangrar" e "London, London" –  e capa assinada pelo artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980). Em 1971, estreia o show e o álbum duplo Fa-tal – Gal a Todo Vapor, com direção de Waly Salomão (1943-2003). O repertório inclui "Pérola Negra" [Luiz Melodia (1951)] e "Sua Estupidez" [Roberto Carlos (1941) e Erasmo Carlos (1941)]. O disco Índia sai em 1973. Cantar, produzido por Caetano e com arranjos de João Donato (1934), é lançado em 1974. Em 1975, a cantora grava o repertório de Dorival Caymmi (1914-2008), incluindo "Modinha para Gabriela". Gal Canta Caymmi é lançado no ano seguinte, quando Gal, Gil, Caetano e Bethânia se reúnem para o espetáculo Os Doces Bárbaros, que dá origem ao disco homônimo. 

Em Aquarela do Brasil (1980), a cantora revisita a obra de Ary Barroso (1903-1964). Fantasia, do ano seguinte, alcança sucesso nas rádios com "Festa no Interior" [Moraes Moreira (1947) e Abel Silva (1945)]. Em 1988, recebe o Prêmio Sharp de melhor cantora.

Plural (1990), retoma a parceria com Waly Salomão. Em 1993, a cantora lança O Sorriso do Gato de Alice, com show dirigido por Gerald Thomas (1954). O disco Mina D’água do Meu Canto, dedicado à obra de Caetano Veloso e Chico Buarque (1944), é gravado em 1995. Em 1997, revisita o repertório no álbum Acústico e, em 1999, um disco com canções de Tom Jobim (1927-1994).

Recanto, lançado em dezembro de 2011, com produção de Caetano Veloso, autor de todas as canções incluídas no repertório, reúne músicos da nova geração, como Pedro Sá (1972), Kassin (1974), Donatinho, Domenico Lancellotti (1972) e Moreno Veloso (1972).

Análise

No início da carreira, Gal Costa mostra que sua voz se acomoda a diversos gêneros musicais. No primeiro disco, Domingo (1967), que divide com Caetano Veloso, revela-se discípula fiel de João Gilberto. A sonoridade bossa-novista do repertório remete a Chega de Saudade (1959), LP de estreia do cantor e violonista, conhecido como o criador da bossa nova. O canto contido de Gal, presente em faixas como "Coração Vagabundo", é resultado da influência direta do músico, responsável por ela “reaprender” a cantar, ao estudar emissão vocal enquanto ouve as canções dele.

Os álbuns gravados em seguida, principalmente entre 1969 e 1971, enfatizam a versatilidade vocal de Gal Costa. Eles mostram a facilidade da cantora para ir da atitude contida à estridência do rock, influenciada pela estadunidense Janis Joplin (1943-1970). Nos discos Gal Costa e Gal, ambos de 1969, ela grava canções de Roberto e Erasmo Carlos, ícones da jovem guarda. Na voz da cantora, as composições de apelo pop da dupla ganham interpretação enérgica, a exemplo de "Vou Recomeçar" e "Meu Nome É Gal".

Característica marcante da cantora é a capacidade de se reinventar. Sua carreira é pontuada por rupturas. A primeira delas acontece em 1968: com colar de espelhos, penteado black power e o canto agudo e provocador, Gal defende a canção "Divino Maravilhoso" no 4o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. 

Nos quatro primeiros discos, mescla o canto contido característico da bossa nova com a estridência tropicalista, ampliando o campo de significação da obra. Mesmo em momentos aparentemente menos radicais, como em "Falsa Baiana" – composição de Geraldo Pereira (1918-1955) incluída no repertório do disco Fa-tal – Gal a Todo Vapor –, a cantora reduz o andamento e abre espaço para um improviso não previsto na versão original do autor.

Nessa época, a cantora torna-se representante do tropicalismo durante o exílio de Caetano e Gil. Quando os dois músicos são presos, em dezembro de 1968, e depois passam a morar em Londres, de julho de 1969 a janeiro de 1972, ela carrega o estandarte do movimento, em seu posto de diva marginal. Gal grava canções de Caetano que refletem sobre o exílio, como "London London" (LeGal) e "Maria Bethânia" (Fa-tal – Gal a Todo Vapor).

O show Fatal transforma-se em símbolo do período. A primeira parte, acústica (com voz e violão), valoriza o canto e traz composições de sambistas tradicionais, como Ismael Silva (1905-1978) ("Antonico") e Geraldo Pereira ("Falsa Baiana"). Na segunda parte, elétrica (com guitarra, baixo, bateria e sonoridade influenciada pelo rock), os gritos de Gal evocam a revolta com o cenário político da época. O repertório contempla nomes emergentes na cena musical brasileira, como Novos Baianos ("Dê um Rolê"), Luiz Melodia ("Pérola Negra") e Jards Macalé (1943) ("Vapor Barato", "Mal Secreto" e "Hotel das Estrelas").

Em 1973, o disco Índia potencializa a sensualidade da cantora. A capa do álbum traz um close da virilha da cantora, vestida com um pequeno biquíni; na contracapa, ela aparece de seios nus, como uma índia. O LP é vendido nas lojas dentro de um plástico escuro por causa da censura.

Com o disco Cantar, ela se reaproxima da MPB, interpretando João Donato e Carlos Lyra (1939), e muda a postura vocal, amenizando a agressividade e priorizando a voz límpida, um retorno à referência de João Gilberto. Se, por um lado, a artista perde o caráter experimental, por outro ganha em público: os discos seguintes – Gal Canta Caymmi (1975), Caras e Bocas (1977) e Água Viva (1978) – revelam o caminho do estrelato.

Em 1975, Gal Costa interpreta "Modinha para Gabriela", de Dorival Caymmi, tema de abertura da novela Gabriela, adaptada do romance homônimo de Jorge Amado (1912-2001). A cantora consolida a performance cênica, apoiada nas imagens de feminilidade e sensualidade arraigadas em nossa cultura, associadas à figura da protagonista da novela, Sônia Braga (1950). 

Nesse auge de sedução e feminilidade, surge a Gal Tropical (1979), de timbre claro e definido, tessitura aguda, batom nos lábios e flor nos cabelos, emitindo a voz sem esforço em "Samba Rasgado", "Noites Cariocas" e na marchinha "Balancê". A interpretação calorosa também está presente no frevo "Festa do Interior" (Moraes Moreira e Abel Silva), incluído no álbum Fantasia.

No fim de 2011, depois de seis anos longe dos estúdios e das canções inéditas, Gal Costa se reinventa novamente com o disco Recanto. Composto e produzido por Caetano Veloso, o repertório dialoga com a música eletrônica e o funk carioca. A faixa "Neguinho" [Zeca Veloso (1992)], impulsionada por timbres digitais, é o oposto de tudo o que Gal faz nas décadas anteriores, como as releituras de Tom Jobim e de outros standards da MPB. A turnê de Recanto mostra ao público uma sutil transformação do timbre de Gal, que mantém os agudos do início da carreira e ganha um grave até então desconhecido em sua voz. Esse elemento novo fica claro na interpretação de "Dia de Domingo" [Michael Sullivan (1950) e Paulo Massadas], em que a cantora imita a voz grave de Tim Maia (1942-1998).

Ao lado de Elis Regina (1945-1982) e Maria Bethânia, Gal Costa é considerada uma das principais referências vocais femininas de sua geração e influência para cantoras posteriores, como Marisa Monte (1967), Tulipa Ruiz (1978) e Roberta Sá (1980). Em comparação às cantoras de sua geração, Gal diferencia-se por trazer o grito do rock para o canto popular – Bethânia destaca uma interpretação mais teatralizada para seu timbre grave e Elis faz uso de todos recursos vocais para potencializar a expressividade passional.

Outras informações de Gal Costa:

Espetáculos (3)

Eventos relacionados (3)

Fontes de pesquisa (9)

  • COSTA, Gal. In: DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin, 2002. Disponível em: < http://www.dicionariompb.com.br/gal-costa/dados-artisticos >. Acesso em: 19 dez. 2012.
  • COSTA, GAL. Site oficial da artista. Disponível em: < http://www.galcosta.com.br >. Acesso em: 19 dez. 2012.
  • EVANGELISTA, Ronaldo. João Gilberto 80 anos: Chico, Gal, Caetano, Gil e Roberto Carlos falam sobre a primeira vez que ouviram o músico. UOL, São Paulo, 7 jun. 2011. Disponível em: < https://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2011/06/07/joao-gilberto-80-anos-chico-gal-caetano-gil-e-roberto-carlos-falam-sobre-a-primeira-vez-que-ouviram-o-musico.htm >. Acesso em: 23 jul. 2017.
  • GAVIN, Charles (org.), SOUZA, Tárik de; CALADO, Carlos; DAPIEVE, Arthur. 300 Discos Importantes da Música Brasileira, 1ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.
  • MACHADO, Regina. Da intenção ao gesto interpretativo: análise semiótica do canto popular brasileiro. Tese (Doutorado em Semiótica e Lingüística Geral) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • MELLO, Zuza Homem de. Ciclos de uma só essência. Valor Econômico, São Paulo, 22 out. 2010. Disponível em: < http://www.valor.com.br/arquivo/853447/ciclos-de-uma-so-essencia >. Acesso em: 23 jul. 2017.
  • PRETO, Marcus. Gal Costa é mera vocalista de seu novo CD, composto por Caetano. Folha de S.Paulo, São Paulo, 29 nov. 2011. Ilustrada. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1013516-gal-costa-e-mera-vocalista-de-seu-novo-cd-composto-por-caetano.shtml?newwindow=true >. Acesso em: 23 jul. 2017.
  • RADIOLA Urbana 56. Podcast sobre Gal Costa (1969-1972). Disponível em: < http://www.soundcloud.com/radiola-urbana/radiola56b >. Acesso em: 19 dez. 2012.
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 2: 1958-1985. São Paulo: Editora 34, 1998. (Ouvido Musical).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GAL Costa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13934/gal-costa>. Acesso em: 20 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7