Artigo da seção pessoas Carlos Reichenbach

Carlos Reichenbach

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deCarlos Reichenbach: 14-06-1945 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre) | Data de morte 14-06-2012 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
Carlos Oscar Reichenbach Filho (Porto Alegre, RS, 1945 - São Paulo, SP, 2012). Cineasta, roteirista, fotógrafo e músico. Filho de importante editor e industrial gráfico, cresce em meio a livros e a intelectuais. Encanta-se pelo cinema ao ouvir, ainda criança, o cineasta Oswaldo Sampaio (1912-1996) ler o roteiro nunca filmado de Jovita. Cinéfilo, frequenta diversos cinemas de bairro, inclusive os japoneses da Liberdade e as sessões da Sociedade Amigos da Cinemateca, em São Paulo. Cursa a Escola Superior de Cinema (ESC), das Faculdades São Luís, entre 1966 e 1967. Incentivado pelo então professor, o cineasta Luís Sérgio Person (1936-1976), dirige seu primeiro curta Esta Rua Tão Augusta (1966-1969).

Funda a Xanadu Produções Cinematográficas, com o cineasta João Callegaro (1945) e com o crítico de cinema Antonio Lima. Através dela, realiza os longas As Libertinas (1968), no qual dirige o episódio Alice, e Audácia - A Fúria dos Desejos (1969), dirigindo o Prólogo e o episódio A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo, filmes que o colocam no escopo do chamado cinema marginal. A partir de 1969, fotografa mais de 25 filmes na boca do lixo1, como Orgia ou o Homem que Deu Cria (1970), de João Silvério Trevisan (1944), e A Força dos Sentidos (1979), de Jean Garret (1946-1996). Dirige a aventura juvenil Corrida em Busca do Amor (1971). Dedica-se à publicidade, como sócio na Jota Filmes, trabalhando em mais de 150 comerciais. Em 1974, faz de forma independente o longa Lilian M. - Relatório Confidencial (lançado como Confissões Amorosas), exibido em 1984 no Festival de Rotterdam. Em 1977, dirige o único filme que não roteiriza, por encomenda, Sede de Amar (Capuzes Negros) (1978), filme que renega. O produtor Antonio Polo Galante (1934) o convida a dirigir um longa de apelo erótico. Realiza assim A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978), grande sucesso de bilheteria na América Latina. Faz, em seguida, na boca do lixo, O Império do Desejo (1980), Amor, Palavra Prostituta (1981), O Paraíso Proibido (1981), o episódio A Rainha do Fliper, do longa As Safadas (1982) e Extremos do Prazer (1983).

Com a ascensão do cinema de sexo explícito, busca financiamento na Embrafilme para realizar aquele que considera seu trabalho mais pessoal, Filme Demência (1985). Com produção de Galante, faz o drama Anjos do Arrabalde - As Professoras (1987), vencedor do 15º Festival de Gramado. Faz ainda o episódio Desordem em Progresso, para o longa internacional City Life (1989), capitaneado pelo criador do Festival de Rotterdam Hubert Bals (1937-1988). Com o fim da Embrafilme, dedica-se à música digital. Em 1993, realiza Alma Corsária, vencedor do prêmio de melhor filme no 26º Festival de Brasília e no 30º Festival de Pesaro. Dirige os longas Dois Córregos - Verdades Submersas no Tempo (1999), Garotas do ABC (2003), Bens Confiscados (2005) e Falsa Loura (2007). Já estava com o roteiro de Um Anjo Desarticulado quase pronto quando morre no dia em que completa 67 anos.

Análise de trajetória
Carlos Reichenbach se guia pelo princípio do cinema de autor, buscando extrair o máximo em termos de encenação das mínimas condições orçamentárias. Uma de suas ferramentas, em termos dramatúrgicos, para tal, é o uso paradoxo. Não é de se estranhar então que seu cinema, mesmo sendo erudito, tenha cunho popular. Reichenbach busca falar com o público C, D e E. Para isso, trabalha com gêneros consagrados, subvertendo-os. Sobre isso Inácio Araújo (1948), crítico de cinema, corroteirista e montador de vários filmes de Reichenbach escreve: "Seu cinema parecia fácil, simples. Mas era a decantação de seu enorme conhecimento, de cinema, de música também, de literatura também."2 A priori, o cinema de Reichenbach pode ser dividido em três fases, ainda que filmes de fases distintas possam ter muitos elementos em comum - é a marca da autoria defendida pelo diretor.

A primeira fase está ligada ao chamado cinema marginal e mostra um cineasta em formação, que, a cada trabalho, aprimora aspectos dramatúrgicos e técnicos. Acredita na feitura de filmes péssimos, de acordo com os preceitos da época: "Filmar a partir da impossibilidade de filmar",3 como diz o crítico de cinema Jairo Ferreira (1945-2003). Alice e A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo se baseiam nisso. Em Alice, por exemplo, há o deboche do que seriam as férias burguesas: no litoral, um homem se apaixona por Alice sem saber que está sendo feito de adúltero. Essa fase dura até Lilian M., que aponta um amadurecimento do diretor, organizando a linha narrativa a partir de gêneros consagrados de maneira episódica e anárquica (filme caipira, drama, comédia, suspense, comercial de TV etc.) para retratar uma mulher que abandona a família no campo para se encontrar, utilizando também forte crítica sociopolítica. Exemplo disso é o episódio em que Lilian se relaciona com um industrial alemão que financia a tortura, inspirado no empresário dinamarquês Henning Boilensen (1916-1971).

O caráter caótico e anárquico da primeira fase é a principal herança para a segunda. Entre A Ilha dos Prazeres Proibidos e Extremos do Prazer, o cineasta trabalha dentro da estrutura da boca do lixo, realizando longas calcados no mercado dos filmes de cunho erótico, em que nudez e insinuação sexual são prerrogativas para o sucesso de público e continuidade da arte. Mesmo entregando o necessário para seus filmes terem sessões lotadas, Reichenbach não abre mão de conceber tramas com elementos incomuns e deslocados, e de diálogos eruditos. Em O Império do Desejo, uma viúva herda uma casa na praia, cujo vizinho é um lunático anarquista que cita filósofos diversos - como o dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) e o francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) - e tem como convidados dois hippies que pregam a liberdade sexual.

Nos filmes dessa fase, nota-se o rebuscamento dos diálogos em relação ao que parece um filme rápido e erótico, o tom declamatório das falas - aproximando-se da ideia de atores encenando -, a tipificação de personagens buscando o conflito dramático, a condenação de pensamentos planificados, a ojeriza pelo discurso machista e direitista, o sexo e a nudez como instrumento político, entre outros. Em Extremos do Prazer, o cineasta coloca num mesmo ambiente um professor universitário esquerdista, um tecnocrata machista, um casal burguês, uma intelectual e um casal libertário, extraindo daí os embates - o tecnocrata, por exemplo, acha que as mulheres devem admirá-lo e que intelectuais são fracassados.

Com Amor, Palavra Prostituta, um melodrama sobre dois casais, um professor desempregado e uma operária têxtil, e um técnico em computação e sua jovem namorada, Reichenbach passa a se guiar pelo cinema de alma, como define, em que as personagens buscam um sentido existencial às vidas, sendo reflexos diretos de suas condições sociopolíticas. No longa, o técnico insiste em que sua namorada faça um aborto, enquanto a operária, desiludida com a desmotivação do professor, encontra refúgio nos braços do chefe.

A terceira fase do cinema de Reichenbach começa com Filme Demência e dura até seu último filme, Falsa Loura. Perseguindo o cinema de alma, trabalha com dramas existenciais, vários em tom autobiográfico. Filme Demência, por exemplo, é uma forma de expurgo da relação com sua estirpe, numa livre adaptação da lenda de Fausto, carregada de citações. Neste road movie, um empresário falido parte em direção a Mira-Celi, seu paraíso imaginário, percorrendo toda a noite paulistana. Reichenbach, um apaixonado pela cidade de São Paulo, a homenageia em diversos de seus filmes.

Assim como em Filme Demência, o diretor revisita sua história nos dois longas dos anos 1990. Em Dois Córregos, um tio refugiado na cidade-título dá vazão ao amadurecimento da sobrinha em meio à truculência do regime militar. O filme é muito influenciado pelo cinema do italiano Valerio Zurlini (1926-1982), assim como todos seus melodramas. Outros diretores muito influentes em sua obra são o americano Samuel Fuller (1912-1997), o alemão Fritz Lang (1890-1976) e o suíço Jean-Luc Godard (1930). Já em Alma Corsária, Reichenbach opta pelo tom mais anárquico ao retratar a vida de dois amigos poetas, da adolescência no bairro do Jabaquara até o lançamento do livro Sentimento Ocidental, escrito por ambos. O filme mostra o aperfeiçoamento do cinema do diretor, especialmente no domínio da transição entre gêneros, artifício predominante em sua obra. Ele trafega entre a comédia e o drama, o musical e o experimental dentro da mesma cena.

Em Anjos do Arrabalde, desenvolve uma crônica social melodramática sobre as professoras do ensino público de São Paulo, muito baseada nas experiências de sua esposa dentista. O filme acentua a vontade de retratar a difícil vida da mulher comum, como fizera anteriormente em Lilian M. e em Amor, Palavra Prostituta, e faria novamente em Garotas do ABC e em Falsa Loura. Tais filmes lhe dão o renome de cineasta da alma feminina. O último plano de Falsa Louraé sintomático nesse aspecto: o rosto de Silmara desiludida, voltando à fábrica onde trabalha como operária, após perceber que foi usada pelos músicos que admirava e ter seus sonhos destruídos.

Notas
1 Região central de São Paulo que abriga um polo cinematográfico, entre as décadas de 1960 e 1970, voltado à produção de pornochanchadas realizadas com baixo orçamento.

2 ARAÚJO, Inácio. O silêncio do cinema por Carlos Reichenbach. Cinema de boca em boca. São Paulo: 15 jun. 2012. Disponível em: . Acesso em: 15 jun. 2012.

3 FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000, p. 64.

 

Outras informações de Carlos Reichenbach:

  • Outros nomes
    • Carlos Oscar Reichenbach Filho
    • Carlos Hauck Reichenbach
  • Habilidades
    • cineasta

Obras de Carlos Reichenbach: (1) obras disponíveis:

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Como citar?

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  • CARLOS Reichenbach. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13913/carlos-reichenbach>. Acesso em: 25 de Jul. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7