Artigo da seção pessoas Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deCassiano Ricardo: 26-07-1895 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São José dos Campos) | Data de morte 15-01-1974 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Martim Cererê , 1927 , Cassiano Ricardo
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos SP 1895 - Rio de Janeiro RJ 1974). Poeta, ensaísta e jornalista. Passa a infância na pequena propriedade rural da família, realizando os estudos primários em sua cidade natal, e o ginásio, em Jacareí, São Paulo. Por influência da mãe, escreve seus primeiros versos ainda na escola. Passa a viver na capital paulista em 1915, quando ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas conclui o curso de direito no Rio de Janeiro. Estreia em livro em 1915, com os poemas de Dentro da Noite, e, em 1917, lança A Frauta de Pã. Este recebe elogios dos parnasianos Olavo Bilac (1865 - 1918) e Alberto de Oliveira (1857 - 1937). Atua como advogado inicialmente em São Paulo, e depois no Rio Grande do Sul, de 1920 a 1923. De volta à capital paulista, integra o grupo dissidente da Semana de Arte Moderna, organizando os grupos Anta e Verde-Amarelo, com os escritores Menotti del Picchia (1892 - 1988), Plínio Salgado (1895 - 1975) e Raul Bopp (1898 - 1984). O nacionalismo dessa fase tem seu ápice nos poemas de Martim Cererê (1928). Ricardo abandona a advocacia e entra para o funcionalismo público, ocupando cargos diversos: inicialmente o de censor, e, em 1932, o de secretário do interventor paulista Pedro de Toledo, sendo preso por dois meses por apoiar a Revolução Constitucionalista. É eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1937. Dirige, de 1940 a 1945, o órgão oficial A Manhã, em que cria o suplemento Autores e Livros e partir do qual se torna um dos principais ideólogos do Estado Novo. Conforme o ensaio Marcha para o Oeste, de 1940, suas ideias ultranacionalistas apostam na figura do bandeirante como introdutora do sentimento nacional e representante da possibilidade de ascensão social. Em 1943, após 12 anos de silêncio poético, lança O Sangue das Horas, considerado o início de sua terceira fase, metafísica. De 1953 a 1955, permanece na Europa, como diretor do Escritório Comercial brasileiro em Paris. Publica, em 1964, Jeremias Sem-Chorar e, em 1971, Os Sobreviventes, incorporando procedimentos da vanguarda concretista.

Comentário Crítico
A longa e produtiva carreira poética de Cassiano Ricardo - 19 títulos inéditos entre 1915 e 1971 - reflete a história da literatura de seu tempo: tendo se lançado com versos de fundo parnasiano, cultiva o modernismo verde-amarelo, a partir de 1926, passando a um lirismo reflexivo, no fim dos anos 1940, e à proximidade com as experiências de vanguarda, na década de 1960. Entretanto, a despeito do que possa sugerir a identificação de fases em sua trajetória, essa obra apresenta intensa unidade, no que diz respeito tanto aos temas aos quais se dedica o poeta quanto à ideologia que define o posicionamento do autor.

A comparação entre três poemas de temática semelhante ilustra a evolução sem rupturas de Cassiano Ricardo. O soneto Marcha Fúnebre, de Dentro da Noite (1915), livro de estreia, retrata um eu lírico que, ao ouvir a melodia lúgubre, passa a se questionar a respeito da passagem do tempo. A interrogação surge, conforme narrado, na segunda quadra: "A saudade, a amargura, a dúvida, a agonia / irrompem dentro em mim, num brusco desenlace, / e entre a dor que me fere e o som que me extasia / uma ideia, em meu ser contraditório, nasce", e leva o sujeito a concluir, no verso final: "Lá vou eu conduzindo o enterro de mim mesmo". O trecho evidencia a proximidade com a dicção parnasiana, com base em elementos como a sintaxe rigorosa, o vocabulário culto, a nomeação dos quatro sentimentos no primeiro verso e a autonomia conferida a uma "ideia" que "nasce" no "ser".

Já em Percurso, de Jeremias Sem-Chorar (1964), o poeta retoma a mesma preocupação, mas com significativas diferenças estéticas: "Mas o tempo / ponte que cresceu / entre mim e eu. / E por onde vim. // No enterro / de cada minuto, / pergunto: / quem morreu / em mim?". A metáfora do enterro que encerra o soneto de 1915 torna-se mais concisa, intensificando a tópica da passagem do tempo. Os versos dodecassílabos dão lugar aos livres, de ritmo leve e ligeiro. Já não há, ademais, o encerramento do conflito em uma metáfora, permanecendo a suspensão.

Entre um e outro, há também os versos longos, porém livres, deste poema de João Torto e a Fábula (1956): "Um dia conversarei com os meus mortos / E todos os que morri (os muitos eus que fui) / reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu rosto na mão / me contarão (sua) a minha história". No excerto, o retrato da fragmentação do eu traz ainda a elevação conferida à problemática existencial.

O recurso adotado no soneto Marcha Fúnebre, de 1915, retorna em Café Expresso, um dos mais conhecidos poemas de Martim Cererê (1928), livro considerado o ápice da fase modernista de Ricardo. Também aqui um elemento sensitivo desperta o insight no sujeito poético: "A minha xícara de café / é o resumo de todas as coisas que vi na fazendo e me vêm à memória apagada". Neste caso, porém, trata-se de um produto nacional - o café -, e o foco não está apenas na passagem do tempo, mas no contraponto entre o homem adulto, habitante de uma São Paulo acelerada e industrializada, e o menino crescido no campo.

De acordo com Luiza Franco Moreira, a relação entre presente urbano e passado rural está no centro da estrutura do livro de 1928, compondo o "emparelhamento contraditório de menino e adulto" que exprime a tese política do autor. Pois o mito da identidade brasileira criado em Martim Cererê conjuga episódios históricos e elementos do folclore em uma construção que, equiparando as expedições bandeirantes ao ciclo de exploração do café, coloca a metrópole paulista como o destino da nação - de maneira a subordinar toda a população à pequena parcela privilegiada da cidade. O menino Martim Cererê, saci oferecido como alegoria do Brasil, revela, nesse sentido, a inclinação paternalista e autoritária da obra: o país, como menino ao mesmo tempo encantador e imaturo, mereceria afeto e careceria de orientação.

A mesma tese, embora em chave não literária, é o fundamento do ensaio Marcha para o Oeste (1940), em que a visão positiva sobre a miscigenação se soma à crença no pioneirismo das bandeiras, resultando na "concepção do estado forte como fruto de nossa evolução histórica", conforme afirma Antonio Candido (1918). A preocupação com um programa essencialmente nacional é patente também nos ensaios sobre literatura escritos por Cassiano Ricardo. A defesa de uma postura participativa por parte do intelectual formula-se, nesses textos, como uma busca pelo que há de propriamente brasileiro.

Não à toa, Martim Cererê é adotado em escolas, e Cassiano Ricardo aproxima-se do Estado Novo, servindo ao projeto de Getúlio Vargas. Por essa razão e a despeito das composições em que demonstra perfeita consciência dos recursos poéticos, "para o [seu] público contemporâneo, Cassiano é o poeta de Martim Cererê; para os críticos, um escritor modernista de importância histórica, e para os historiadores, um ideólogo estado-novista", segundo resume Moreira.

Outras informações de Cassiano Ricardo:

  • Outros nomes
    • Cassiano Ricardo Leite
  • Habilidades
    • poeta
    • advogado
    • jornalista
    • ensaísta

Obras de Cassiano Ricardo: (2) obras disponíveis:

Espetáculos (1)

Exposições (3)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CASSIANO Ricardo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13627/cassiano-ricardo>. Acesso em: 26 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7