Artigo da seção pessoas Cao Hamburger

Cao Hamburger

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deCao Hamburger: 13-02-1962 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Carlos Império Hamburger (São Paulo, São Paulo, 1962). Diretor, produtor, roteirista. Filho de Ernst e Amélia Império Hamburger, professores de física da Universidade de São Paulo. É sobrinho de Flávio Império (1935-1985), um dos mais importantes cenógrafos e diretores de arte do Brasil.

Começa a carreira cinematográfica realizando curtas de animação com Frankenstein Punk (1986), dividindo a direção com Eliana Fonseca (1962), e A Garota das Telas (1988). Em 1994, dirige Castelo Rá-Tim-Bum para a TV Cultura de São Paulo. A série transforma-se em um dos maiores sucessos da televisão pública paulista, com cerca de 90 episódios, premiada, em 1994, com a Medalha de Prata – categoria infantil – no festival de Nova York.

Cao estreia no cinema de longa-metragem com o filme Castelo Rá-Tim-Bum (1999), baseado na série televisiva. A fita recebe, em 2000, o prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema Infantil de Chicago.

Em 2006, cria e dirige, para o canal HBO, a primeira temporada da série Filhos do Carnaval, que tem como tema a luta pelo poder no interior da família Gebara, comandada pelo patriarca e bicheiro Anésio. Em 2009, apresenta a segunda temporada da série.

O retorno ao cinema ocorre com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006). O filme revê o Brasil da ditadura militar da década de 1970 pelo olhar do protagonista Mauro, um garoto de 12 anos. Em 2011, dirige Xingu, obra que conta a trajetória dos irmãos indianistas Cláudio (1916-1998), Orlando (1914-2002) e Leonardo Villas Bôas (1918-1961) e a viagem para o interior do Brasil que resulta na criação do Parque Indígena do Xingu (PIX). O PIX é a primeira reserva indígena criada no Brasil, localizado na região nordeste do Estado de Mato Grosso, porção sul da Amazônia brasileira.

Cria com o diretor Teodoro Poppovic, as séries Pedro e Bianca, que marca sua volta à TV Cultura, em 2012. A série conta, por meio das experiências dos irmãos gêmeos, os desafios da adolescência e ganha o Internacional Emmy Kids Awards (2014) como melhor série de 2013.

Análise

Ao transpor o Castelo Rá-Tim-Bum para o cinema, em 1999, Cao Hamburger vence o desafio de repetir na tela grande o sucesso da atração infantil na TV Cultura. A primeira imagem que o filme oferece é a da tela escura, sobre a qual lemos os créditos iniciais, que é tomada de repente por uma visão do alto da acinzentada cidade de São Paulo, com seus edifícios dominando a paisagem. Uma música vibrante contrasta com a visão da metrópole e acompanha o movimento de uma pipa de cores vivas que rompe com a monotonia do cenário de concreto. Este “convívio” de mundos diferentes constitui uma das características do filme.

Segundo Luiz Zanin Oricchio, a magia refinada da obra de Cao Hamburger está na aproximação de elementos díspares como física dos planetas e poderes místicos, o mundo atemporal do Castelo do cotidiano brasileiro tomado pela especulação imobiliária e corrupção no serviço público1.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias retoma o tempo da ditadura militar (1964-1985) em sua fase mais violenta, sob a presidência do General Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), entre outubro de 1969 e março de 1974 pelo olhar do garoto Mauro.

Os pais de Mauro, militantes de esquerda, entraram na clandestinidade e são obrigados a sair de Minas Gerais às pressas em direção a São Paulo, onde deixam o filho na casa de seu avô. No mesmo dia em que ele chega, o avô morre e o menino fica sob os cuidados de Shlomo, um velho judeu do bairro do Bom Retiro. Mauro é obrigado a se adaptar ao novo bairro paulistano e aos efeitos da violência política brasileira do período, que interfe em seu espaço familiar. Tudo isso em meio à Copa do Mundo de Futebol, realizada no México em 1970, que Mauro acompanha apaixonadamente.

O futebol é um importante elemento do filme. Logo na primeira cena, o menino brinca com um jogo de botões enquanto o ouvimos dizer, em voz off, que os goleiros passam a vida sozinhos, esperando o pior acontecer. Mauro vê a história se desenrolar a sua frente e pode contar somente com a ajuda daqueles que estão ao seu lado para evitar que a bola entre. Quando o atacante adversário está diante dele, sem ninguém para defendê-lo, ele conta apenas consigo para continuar “vivo” na partida. Para Augusto Sarmento-Pantoja, “o estado de prontidão é o que aproxima o goleiro de um exilado. É o que Mauro é, mas não sabe. É o que Mauro será, mas não imagina. Não pode falhar! Ficar Isolado!”2.

Com Xingu, Hamburger lança o olhar sobre um Brasil distante, geográfica e culturalmente, da maior parte dos brasileiros. Por meio da epopeia dos irmãos Villas Bôas, o cineasta relata o contato aberto e generoso, sem o desejo de espoliação, de indivíduos com os índios.

Numa entrevista, o cineasta afirma que os Villas Bôas são personagens deslocados, pois não se sentem à vontade na cidade, nem integrados ao universo dos índios3. Todavia, eles não realizam a travessia visando explorar os nativos e as riquezas da região, e sim, compreender e tentar preservar uma cultura ameaçada pela civilização.

Embora tenha se destacado na televisão com os olhos voltados para o público infantil, a produção cinematográfica de Cao Hamburguer traz diversidade e engajamento. Passa por sucessos como Castelo Rá-Tim-Bum, sem deixar de lado a crítica, ao referir-se à especulação imobiliária que ameaça o castelo em meio a cidade de São Paulo. Lida com temas que envolvem a história cultural e política do país desde a expedição dos irmãos Villas Bôas, até a ditadura militar e sua repressão aos opositores. O diretor antecipa o trânsito entre televisão e cinema, natural entre os profissionais da área.

Notas

1 ORICCHIO, Luiz Zanin. Ver ‘Castelo’ no cinema é programa obrigatório. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 dez. 1999. Caderno 2, p. D-3.

2 SARMENTO-PANTOJA, Augusto. O jogo como estratégia de defesa, sedução e erotismo no cinema latino americano. Anais do SILEL. Volume 2, n. 2. Uberlândia, EDUFU, 2011, p. 3.

3 MERTEN, Luiz Carlos. Irmãos no exílio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 abr. 2012. Caderno 2, p. D-7.

 

Outras informações de Cao Hamburger:

  • Outros nomes
    • Carlos Império Hamburger
  • Habilidades
    • teatro
    • Produtor
    • Cineasta
    • Roteirista
  • Relações de Cao Hamburger com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Cao Hamburger: (1) obras disponíveis:

Midias (1)

Depoimento - Cao Guimarães
Produção Documenta Brasil e Itaú Cultural

Eventos relacionados (7)

Fontes de pesquisa (5)

  • NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. Coordenação editorial Maria Helena Arrigucci; prefácio Davi Arrigucci Junior. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. 216 p., il. p&b. ISBN 85-7503-557-6. 
  • NAGIB, Lúcia. O Cinema da Retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003
  • CAETANO, Daniel (org). Cinema brasileiro: 1995-2005: revisão de uma década. Textos de Luís Alberto Rocha Melo e outros. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005. 351 p.
  • MIRANDA, Luiz Felipe: RAMOS, Fernão. Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CAO Hamburger. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13436/cao-hamburger>. Acesso em: 26 de Mar. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7