Artigo da seção pessoas Joaquim Pedro de Andrade

Joaquim Pedro de Andrade

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deJoaquim Pedro de Andrade: 25-05-1932 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 10-09-1988 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Garrincha, Alegria do Povo [obra] , ca. 1962 , Joaquim Pedro de Andrade
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Biografia

Joaquim Pedro de Andrade (Rio de Janeiro, RJ, 1932 - idem, 1988). Cineasta e roteirista. Quando estudante de física pela Faculdade Nacional de Filosofia, em que se gradua em 1956, reativa o cineclube da escola e convive com Plínio Sussekind Rocha (s.d.-1972), Paulo César Saraceni (1933-2012), Marcos Farias (1935-1985) e Leon Hirszman (1937-1987), entre outros. Considera-se como sua primeira obra O Mendigo e a Pintura (1953), filme amador desse período, interpretado por Saulo Pereira de Mello.

Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), acompanha o pai, em 1957, na restauração de obras de Aleijadinho (1738-1814) em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Essa experiência se desdobra em momentos diversos de sua carreira, que tem início ao trabalhar como assistente de direção em Rebelião em Vila Rica (1958), dos irmãos Geraldo e José Renato Santos Pereira. Em 1959, já sócio da Saga Filmes, realiza os curtas-metragens O Mestre de Apipucos e O Poeta do Castelo. Entre 1961 e 1962, dedica-se aos estudos de cinema. Bolsista do governo francês, faz estágio no Institute des Hautes Études Cinématographiques de Paris (Idhec) e na Cinemateca Francesa. Trabalha para o produtor Sacha Gordine (1910-1968), que viabiliza a finalização do curta Couro de Gato, filmado no Rio de Janeiro. Graças a uma bolsa da Fundação Rockfeller, estuda em Londres com Thorold Dickinson (1903-1984) na Slade School of Arts e, em Nova York, tem aulas de técnicas de cinema direto com os irmãos Albert (1926) e David Maysles (1931-1987). 

De volta ao Brasil participa do projeto Cinco Vezes Favela, produzido em 1962 pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), com a inclusão de Couro de Gato entre os episódios. Integra um dos núcleos fundadores do cinema novo ao lado do grupo da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do cineasta Cacá Diegues (1940). Dirige o documentário Garrincha, Alegria do Povo (1963), seu primeiro longa-metragem. Morre durante os preparativos de filmagem de Casa-Grande, Senzala & Cia, cujo roteiro é publicado em 2003. Também postumamente, sai impresso, em 1990, o roteiro de O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador (escrito em 1986).

Análise

Dentre os cineastas do cinema novo, Joaquim Pedro de Andrade é o que mais demonstra a afinidade do grupo no diálogo com a literatura brasileira. Seus primeiros filmes, O Mestre de Apipucos e O Poeta do Castelo são documentários com forte impulso ficcional, que registram o cotidiano do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) e do poeta Manuel Bandeira (1886-1978), respectivamente. Semelhantes nos elegantes movimentos de câmera e na narração verbal com a voz dos retratados, os curtas acabam por compor dois estilos distintos da vida intelectual do país. Freyre se apresenta como um senhor da casa-grande, dentro de uma propriedade reduzida ao jardim rústico, em ações que insinuam uma persistente situação patriarcal. Bandeira é o homem urbano, de uma cidade que reflete a sua própria solidão, resgatado por uma arte própria que o transporta para o território de sua invenção - Pasárgada1.

Em Couro de Gato, observação social e convicção lírica se unem à vertente política de um embrionário cinema novo. Coincidente com os objetivos da produção cepecista, realizado antes da idealização do longa Cinco Vezes Favela, o episódio de Joaquim Pedro retrata as peripécias de um grupo de garotos do morro que, durante o Carnaval, consegue dinheiro com a venda de gatos roubados, que têm o seu couro utilizado na fabricação de pandeiros. Um dos garotos rouba um lindo gato de uma madame, situação que opõe a rica zona sul do Rio de Janeiro à pobreza dos moradores das favelas. Apesar do apego ao gato, inclusive dividindo com ele parte de seu modesto lanche, troca-o, enfim, por dinheiro: com a responsabilidade precoce de sobreviver às próprias custas, resta a ele enxugar as lágrimas enquanto a câmera o focaliza de costas, em plano geral, descendo a favela, possivelmente para um novo assalto.

Garrincha, Alegria do Povo descreve a biografia do jogador, apresentando lances e dribles que o deixaram famoso e, na sua parte final, abandona o mito do jogador e se dedica à paixão do torcedor. Seu primeiro longa de ficção, O Padre e a Moça, é criado devido à sugestão de um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Diálogos ambíguos explicitam aos poucos os relacionamentos escusos que tanto o espectador quanto o novo padre, que chega a um lugarejo decadente de Minas Gerais, conseguem captar nas sombras e nos cantos das casas e da igreja. A protagonista luta para ter uma vontade própria, mas, subjugada pelos homens do local, busca ajuda no titubeante padre o auxílio para escapar à opressão. Esta é uma forma sutil de mostrar um Brasil preso a formas socioeconômicas arcaicas, em que predominam a repressão e o patriarcalismo.

Desde então, cineasta realiza diversas adaptações literárias. Nelas se veem não apenas o encontro do realizador com o tema desenvolvido pelo escritor (o chamado respeito e fidelidade ao original), mas um embate reflexivo e crítico com as próprias obras literárias, procurando extrair uma ponte entre a criação escritural e o compromisso do cineasta com a época de realização dos filmes e com sua visão pessoal da cultura brasileira.

Macunaíma, seu primeiro filme colorido, promove uma "radicalização ideológica" no romance de Mário de Andrade (1893-1945), propondo uma reflexão voltada tanto para a questão do mito da identidade nacional e da fundamentação ética de um herói brasileiro quanto para a constatação de um processo antropofágico institucionalizado, segundo o qual o Brasil devora os brasileiros pela miséria e pelo subdesenvolvimento em estado perpétuo.

Coproduzido pela Rádio e Televisão Italiana (RAI), em plena ditadura militar e no ano dedicado à comemoração dos 150 anos da Independência do Brasil, realiza Os Inconfidentes. Em uma perspectiva distante da oficial, traz ao presente a discussão proposta pela história e rompe com uma série de dispositivos clássicos dos chamados filmes históricos, como nos momentos em que os personagens se dirigem diretamente ao público, olhando para a câmera e virando pelo avesso as oficialidades. A força dos diálogos - extraídos dos autos da Devassa, de poesias dos inconfidentes e do poema Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles (1901-1964) - questiona a ação de um grupo de intelectuais conspiradores que, juntamente com Tiradentes (1746-1792), único membro que não pertence à elite local, idealizam os efeitos prováveis de uma revolução, sem considerar nesta luta a presença do povo. A conjuntura política do período está presente no questionamento dos sonhos de sua própria geração, já que o diretor faz um paralelo entre a ação da luta armada e a abjuração dos ideais mostrados no filme e a ação da luta armada e o aparato repressivo do regime militar.

A capacidade de Joaquim Pedro em inverter os valores de um sistema de produção dominante reitera-se em Guerra Conjugal. Travestido em pornochanchada, o filme procura trazê-la para um plano mais subversivo, no qual a violência, presente nas relações amorosas quase canibalescas, sai das prisões da ditadura e se instala diretamente no cotidiano. São reunidos vários personagens de contos de Dalton Trevisan (1925), em que se alternam o inferno matrimonial de um casal de velhos, o assédio pegajoso de um advogado familiar e suas clientes e os desejos pervertidos de um jovem amante. Vereda Tropical, episódio do longa Contos Eróticos, ainda em diálogo crítico com a pornochanchada, descreve o relacionamento íntimo e pessoal de seu personagem com as melancias, substitutas perfeitas do amor de uma mulher. Joaquim Pedro sugere que a sexualidade é uma questão de imaginação particular e privada a que não cabem preconceitos, rótulos ou normas.

Em O Homem do Pau-Brasil, sob o pretexto de criar uma espécie de biografia de Oswald de Andrade (1890-1954), transforma o escritor em um Macunaíma2 de carne e osso, homem e mulher a um só tempo, irreverente e zombeteiro, que retira dos discursos freudiano e marxista o que contêm de libertários, para compreender as virtudes e as mazelas nacionais. Ao final, sob o peso do estrato social burguês ao qual pertence, o Oswald homem é engolido antropofagicamente por seu lado mulher, numa utópica revolução matriarcal.

A adaptação não concretizada do livro Casa-Grande e Senzala investiga as origens da civilização brasileira: o patriarcado português, a contribuição indígena e negra, as lutas de afirmação nas quais é sedimentada a cultura do país. Mas Joaquim Pedro, em virtude de sua morte, não consegue fechar o ciclo que teve início com Gilberto Freyre. Fica apenas o roteiro publicado postumamente, numa igual sorte a de O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador, em que, nas palavras de Carlos Augusto Calil (1951), "novela e roteiro cinematográfico [...] convivem num texto que exibe mérito literário evidente",3 cumprindo involuntariamente o cineasta a sua vocação inicial de escritor.

Notas

1 Referência ao poema Vou-me Embora pra Pasárgada, em que Bandeira faz alusão a um lugar em que todos seus desejos são realizados.

2 Personagem do romance homônimo escrito por Mário de Andrade.

3 Prefácio do livro de Joaquim Pedro, p. 8.

Outras informações de Joaquim Pedro de Andrade:

  • Outros nomes
    • Joaquim Pedro Melo Franco de Andrade
  • Habilidades
    • cineasta
    • compositor
    • roteirista
  • Relações de Joaquim Pedro de Andrade com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Joaquim Pedro de Andrade: (6) obras disponíveis:

Exposições (3)

Eventos relacionados (14)

Fontes de pesquisa (15)

  • BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982.
  • XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993. 281 p.
  • ANDRADE, Joaquim Pedro de. Casa-grande, senzala & cia: roteiro e diário. Rio de Janeiro: Aeroplano: Editora UFRJ, 2003.
  • ANDRADE, Joaquim Pedro de. O imponderável Bento contra o crioulo voador. São Paulo: Marco Zero: Cinemateca Brasileira, 1990.
  • ARAUJO, Luciana Sá Leitão Corrêa de. Joaquim Pedro de Andrade: primeiros tempos. Tese de doutorado. São Paulo, 1999.
  • BENTES, Ivana. Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
  • ESCOREL, Eduardo. Adivinhadores de água: pensando no cinema brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 85-94.
  • FILMES DO SERRO. Site de Joaquim Pedro de Andrade. Disponível em: http://www.filmesdoserro.com.br/jpa.asp. Acessado em: 18 ago. 2012.
  • FILMES DO SERRO; PETROBRAS. Vida em movimento: Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro, 2006.
  • HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Macunaíma: da literatura ao cinema. Apresentação Leandro Tocantins. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
  • JOHNSON, Randal. Cinema novo x 5: masters of contemporary Brazilian film. Austin: University of Texas, 1984. p. 13-51.
  • MINISTÉRIO DA CULTURA. Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro, 2000.
  • RAMOS, Alcides Freire. Canibalismo dos fracos: cinema e história do Brasil. Apresentação de Ismael Xavier. Bauru: Edusc, 2001. 362 p.
  • RAMOS, Fernão (org.); MIRANDA, Luiz Felipe (org.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. p.23/25 p. 23-25.
  • VIANY, Alex. O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.

Como citar?

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  • JOAQUIM Pedro de Andrade. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13097/joaquim-pedro-de-andrade>. Acesso em: 25 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7