Artigo da seção pessoas Jacob do Bandolim

Jacob do Bandolim

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Música  
Data de nascimento deJacob do Bandolim: 14-02-1918 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 13-08-1969 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Jacob Pick Bittencourt (Rio de Janeiro RJ 1918 - idem 1969). Compositor, bandolinista, pesquisador. Quando criança, aprende a tocar gaita de boca. Aos 12 anos começa a tocar violino, mas não se adapta ao instrumento, substituindo-o pelo bandolim. Autodidata, dedica-se ao choro, influenciado pelo clarinetista Luís Americano.

Estreia no programa de rádio Hora do Amador Untissal, em 1933, com o Grupo do Sereno, executando o choro Aguenta a Calunga, de Attilio Grany. Em 1934, se apresenta tocando violão no Horas Luso-Brasileiras, da Rádio Educadora, e faz audição de fados no Clube Ginástico Português. Inscreve-se no Programa dos Novos Artistas, da Rádio Guanabara, e recebe a nota máxima do júri, formado por Orestes Barbosa, Francisco Alves, Cristóvão de Alencar e Benedito Lacerda, sendo então contratado para tocar no programa.

Paralelamente à carreira de músico, trabalha como vendedor, corretor de seguros, dono de farmácia e, nomeado por concurso público, escrevente juramentado da Justiça do Estado da Guanabara.

Em 1941, Jacob do Bandolim participa da gravação de Leva Meu Samba, de Ataulfo Alves, e Ai que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Um ano depois, na Rádio Ipanema, toca com César Faria (pai de Paulinho da Viola), Claudionor Cruz (violões), Leo Cardoso (afoxé) e Candinho (bateria). Pesquisa a obra de importantes músicos brasileiros, como Anacleto de Medeiros, João Pernambuco, Sátiro Bilhar e Zequinha de Abreu.

Grava seu primeiro disco em 1947, pela Continental, com o choro de sua autoria Treme-Treme e a valsa Glória, de Bonfiglio de Oliveira. No ano seguinte lança sua valsa Salões Imperiais e o choro Flamengo, de Bonfiglio de Oliveira. O sucesso desse disco faz ressurgir seu interesse pelo bandolim. Ainda em 1948 grava o choro Remeleixo e a valsa Feia, ambos de sua autoria. Em 1949, lança seu choro Cabuloso e a valsa Flor Amorosa, de Joaquim da Silva Callado.
Trabalha na Rádio Nacional de 1955 a 1959.Seu destaque nessa emissora, contudo, é como produtor e apresentador do programa Jacob e Seus Discos de Ouro, no qual mostra aos ouvintes discos raros de seu próprio acervo. O maestro da emissora, Radamés Gnattali, compõe para Jacob a suíte Retratos, para bandolim e orquestra, em 1956, cujos movimentos homenageiam os músicos Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Anacleto de Medeiros.

A partir de 1957,Jacob do Bandolim grava pela Victor, destacando os discos Choros Evocativos (1957), Chorinhos e Chorões (1961), Assanhado (1966), Era de Ouro (1967) e Vibrações (1967). Em 1968, faz show com Zimbo Trio, Época de Ouro e Elizeth Cardoso, no Teatro João Caetano, promovido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ), com direção artística de Hermínio Bello de Carvalho, lançado pelo MIS em dois LPs. Em 1969, participa do disco Eterno Seresteiro, de Orlando Silva.

Análise

Jacob do Bandolim é um dos responsáveis pela presença mais constante do bandolim no cenário musical brasileiro. Por suas mãos o instrumento passa da posição de mero acompanhamento para a categoria de solista. Ele cria uma maneira própria de tocar o bandolim, desde o manuseio da palheta, depois usada pela maioria dos bandolinistas que o seguem, até o estilo de composição e interpretação. Segundo o músico e escritor Henrique Cazes, essa maneira de tocar decorre da influência dos solistas da primeira metade dos anos 1930 (como Luís Americano, Benedito Lacerda), do contato com músicos portugueses e da admiração pelo bandolinista Cincinato do Bandolim, que integra nos anos 1940 um dos conjuntos formados por Pixinguinha e funda uma escola cujo maior discípulo é o bandolinista Joel Nascimento.

Certamente a geração de Pixinguinha é uma grande inspiração para Jacob do Bandolim. Ela é responsável pela sistematização do choro e por transformá-lo de uma maneira de interpretar as danças europeias, como a polca e a valsa, em gênero musical, dotado de linguagem própria. Fixa também a formação desses conjuntos, compostos de violão e cavaquinho na base rítmico-harmônica e solos de flauta ou clarinete. Por ter crescido no bairro da Lapa, se favorece do contato com essa cena musical, que é a base de seus estudos.

Seu repertório é constituído sobretudo por choros, que correspondem a 57 de suas 103 composições, nas quais se incluem valsas, sambas e polcas. Na frase melódica de suas músicas, substitui a flauta pelo bandolim, em diálogos harmônicos que favorecem o contracanto do violão. Sua habilidade para a improvisação evidencia o domínio que tem sobre o gênero - tal como o faz Pixinguinha na flauta.

É possível notar que sua trajetória estabelece um diálogo entre a música de gerações e as tendências musicais de seu tempo. Curiosamente, leva um modo de vida semelhante ao dos chorões do fim do século XIX, músicos diletantes, que, em sua maioria, são funcionários públicos ou militares. Jacob incorpora alguns aspectos do know-how moderno das rádios, as quais estão sujeitas a regras de produção. Concilia isso com a atividade intensa de pesquisador: seu desejo de preservar a memória da música da virada do século XIX para o XX é tão forte que chega a microfilmar milhares de partituras, que mais tarde integram o acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ).

Embora não viva da música profissionalmente, a absoluta disciplina é o que mais aparece nos registros dos que convivem com o compositor. Sua obra, assim, documenta as mudanças em torno da produção musical no Brasil, trazendo contribuição importante para avaliá-la, tanto pelos aspectos estéticos como pelos seus circuitos na sociedade.

O intenso exercício de criação somado à busca pela perfeição é perceptível em sua performance, antecipada por inúmeros ensaios. Esse cuidado demonstra o intuito de que sua obra possa ser apreciada com o mesmo rigor que a música de concerto. Em suas apresentações, exige silêncio absoluto da plateia, pois considera que faz música para se ouvir e não para animar o ambiente. Repudia o termo "regional", que as rádios empregam para designar os conjuntos de músicos utilizados para preencher a grade da programação entre uma atração e outra. Inspira-se, entretanto, no maestro, flautista e compositor Benedito Lacerda, membro do "regional" Gente do Morro. Cabe ressaltar que os regionais, termo que tem por origem os grupos nordestinos, como Turunas da Mauricéa e Voz do Sertão, por sua capacidade de improvisação, são indispensáveis para as emissoras. Essa característica se faz presente na obra de Jacob do Bandolim.

Nos anos 1920, os chorões integram orquestras de cinemas e teatros, o que faz com que o gênero perdure e dê origem a uma produção valiosa. Com Jacob, o choro recebe novo alento, num momento em que o samba é elevado ao status de música nacional, ocupa grande parte da programação radiofônica e torna-se o alvo principal das gravadoras. Seu diagnóstico, anos mais tarde, no entanto, é apocalíptico: "Não se compreende o choro sem um quintal, e os quintais estão rareando dia a dia". Essa declaração, dada em entrevista concedida ao MIS em 1967, aponta as mudanças ocorridas na música popular em menos de 30 anos, em que o choro, assim como o samba e outros gêneros que alcançam sucesso na primeira metade do século XX, perde espaço para a bossa nova. Ao observar esse cenário, o compositor considera as inflexões jazzísticas inadmissíveis e acusa os modernos de assimilar o que há de pior na música estrangeira. Ele não pretende com isso desqualificar o jazz, posto que o gênero está há muito tempo presente na música brasileira, sobretudo no choro. O próprio Pixinguinha troca sua flauta pelo sax tenor - instrumento central do jazz. Sua crítica é em relação à maneira como se dá a apropriação do jazz pelos jovens músicos brasileiros. Por outro lado, consegue fazer escola com o conjunto Época de Ouro e os saraus que organiza em sua casa, influenciando jovens bandolinistas, como Déo Rian.

Embora seja um virtuose, Jacob do Bandolim desenvolve composições que primam pela simplicidade. Suas improvisações seguem sempre a linha melódica da música. Devido a essa "organicidade", muitos dos arranjos feitos por ele de obras de músicos como Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Benedito Lacerda acabam sendo incorporados às composições originais. Considera que suas criações se situam dentro da tessitura do bandolim, não recorrendo a harmonias forçadas e intricadas. Mais que a complexidade, se destaca pela maneira de frasear, que valoriza linhas melódicas fluentes. Dá importância à perfeição da técnica, numa estrutura musical que ele julga simples, o que é possível graças ao seu domínio sobre o gênero e sobre o instrumento no momento de compor.

Outras informações de Jacob do Bandolim:

  • Outros nomes
    • Jacó Pick Bittencourt
    • Jacó do Bandolim
  • Habilidades
    • Instrumentista
    • Compositor
  • Relações de Jacob do Bandolim com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (8)

  • HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. 5ª Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
  • PAZ, Ermelinda A. Jacob do Bandolim. Rio de Janeiro: Funarte, 1997.
  • TINHORÃO, José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: Ed. 34, 1998.
  • JACOB DO BANDOLIM. Depoimento prestado por Jacob do Bandolim ao Museu da Imagem e do Som - MIS-RJ, para os entrevistadores Sérgio Cabral, Sérgio Bittencourt e Ricardo Cravo Albin, em 24 fev. 1967. Site oficial do artista. Disponível em: http://www.jacobdobandolim.com.br/jacob/index.html. Acesso em: 28 jul. 2010.
  • BESSA, Virginia de Almeida. Um bocadinho de cada coisa. Trajetória e obra de Pixinguinha. 2006. 262p. Dissertação (Mestrado em História Social) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2006.
  • CASCUDO, Câmara. Choro. In: DICIONÁRIO do folclore brasileiro. 10ª Edição. São Paulo : Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. Coleção Terra Brasilis.
  • CAZES, Henrique. Choro: do quintal ao Municipal. São Paulo: Editora 34, 1998. Coleção Ouvido Musical.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. p.391.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JACOB do Bandolim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13011/jacob-do-bandolim>. Acesso em: 26 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7