Artigo da seção pessoas Tim Rescala

Tim Rescala

Artigo da seção pessoas
Teatro / música / artes visuais  
Data de nascimento deTim Rescala: 21-11-1961 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Luiz Augusto Rescala, (Rio de Janeiro, RJ 1961). Compositor, pianista, arranjador e dramaturgo e ator. Filho de músicos, estuda piano com Maria Y. Cadah na Escola de Música da UFRJ (1976‑1978), contraponto, arranjo e composição com H‑J. Koellreutter na Escola de Música Villa-Lobos (1979-1983) e licencia‑se em música pela UNI-RIO (1983). Recebe, nesse período, o prêmio de Composição da Escola de Música Villa-Lobos e Colégio da OSB (1979) e torna‑se um dos fundadores do Estúdio da Glória1 (1981). Trabalha como arranjador e pianista popular até 1979. A partir de 1980 envolve-se com o teatro. Desde então, participa de mais de 50 espetáculos como instrumentista, escritor, compositor, diretor artístico e ator e recebe inúmeros prêmios, entre os quais o Mambembe (1983, 1993, 1997), o Sated (1993), o Golfinho de Ouro (1997) e o Shell (1999, 2001, 2009). No início da década de 1990 inicia um trabalho direcionado ao público infantil e à educação musical, destacando-se Pianíssimo (1993), primeira peça infantil a ser apresentada na Comédie Française de Paris, além de apresentar os Concertos para a Juventude (1997-2000), criar e dirigir a série de concertos didáticos Multimúsica (2005) e publicar o livro Pequena História (não autorizada) da Música (1996). Como compositor, participa de diversos festivais, entre eles, o Sonidos de las Américas-Brasil no Carnegie Hall (1996). Trabalha igualmente com televisão, dança, cinema, rádio e vídeo. Para a televisão, torna-se produtor musical da TV Globo (1988-1997); para a dança, cria o roteiro e a música de espetáculos da Orquestra Brasileira de Sapateado; para o cinema, atua como compositor e ator, criando a trilha de filmes como Histórias da Unha do Dedão do Pé do Fim do Mundo (2007), sobre poemas de Manoel de Barros; Para a rádio, cria e escreve o roteiro e apresenta o programa de música clássica para crianças Blim‑blem‑blom (2011) na Rádio MEC; na área de vídeo, destaca-se sua colaboração com o diretor Eduardo Coutinho, que rende filmes como O Fio da Memória (1991) e Boca de Lixo (1992). Recebe inúmeras encomendas, entre as quais a Bolsa Rio-Arte para realizar a ópera A Orquestra dos Sonhos (1995), a Vitae para a obra Brincando de Orquestra (1999), do SESC para a ópera A Redenção pelo Sonho (1999) e da Funarte para a obra de câmara Sete vezes (2011). Em 1995 cria o selo Pianíssimo, editando CDs próprios como Romance Policial (2002, com obras de teatro musical) e Contos, cantos e acalantos (2002, Prêmio TIM de melhor CD infantil). Apresenta-se como comediante no programa Chico Total, de Chico Anysio, na TV Globo, em 1996. Faz a trilha musical das sérier Hoje é dia de Maria I e II, dirigidas por Luís Fernando Carvalho, na TV Globo. Em 2002, ao lado de Arrigo Barnabé e Guto Lacaz, escreve e encena a ópera 22 Antes Depois no Sesc Ipiranga, em comemoração dos 80 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. Em 2005 torna-se diretor da Sala Baden Powell (RJ).

 

Comentário crítico

Três fases circunscrevem a carreira de Rescala. À composição de música pura de sua juventude sobrepõe-se, na década de 80, um trabalho com o teatro, onde descobre sua vocação humorística. Posteriormente, a experiência com a música incidental de cena, no final dessa década, leva à emergência dessa como elemento principal de suas peças e a integração da narração como seu fio condutor, conduzindo-o à criação de teatros musicais. Esse percurso rende‑lhe a reputação de um artista polifônico, eclético, que concebe a música como um veículo de interpretação da sociedade e de suas práticas político-sociais2, sobretudo através do humor. Seu caráter polifônico é atestado pela capacidade de executar várias atividades em um só trabalho, tal como em O Homem que Sabia Português, no qual assina o libreto, a composição, além de ter sido o diretor musical e o pianista em sua estreia. Seu ecletismo é manifesto tanto na natureza das artes com as quais trabalha como na palheta de estilos que adota e que respondem às exigências que vão desde vinhetas comerciais, passando pela música incidental até a composição de música pura. O humor mostra-se como um elemento imanente que catalisa uma abordagem crítica através da exposição de situações banais que evidenciam as contradições dessa estimulando a reflexão3. Nesse contexto, a exploração de estruturas simbólicas do cotidiano torna-se indispensável à desmistificação de modelos a qual se propõe, tornando-se um elemento estratégico tanto no seu trabalho de compositor quanto de educador. Quase sempre, tais estruturas aparecem em sua obra de maneira metalinguística, sendo um bom exemplo disso o início da opereta mencionada acima, cujo preâmbulo, O que é uma opereta, cumpre a função de explicar a história do gênero. Igualmente, em Clichê Music I, para música de câmara e eletrônica, "vários clichês da música contemporânea de concerto" são explorados "através de uma sátira do ambiente da música de vanguarda [...]. não só como uma crítica, mas também como uma autocrítica"4. Assim, Rescala desloca os códigos de seu contexto natural, desvirtuando-os a fim de provocar, ao mesmo tempo, o riso e a reflexão. Essa estratégia permite-lhe a criação de peças que são verdadeiras personagens. Seu Concerto para pandeiros, por exemplo, leva em consideração a utilização histórica do instrumento e mimetiza o chorinho em sua trama. Ao mesmo tempo, a problemática ligada ao fato de que a compreensão desse procedimento de composição depende da formação musical do ouvinte na medida em que só se pode "fazer uma piada em contraponto bachiano para quem os conhece"5, o que impõe limites estilísticos, conduz a uma priorização da utilização de textos literários em suas peças. É o emprego de textos facilmente apreensíveis, como demonstra sua ópera A Orquestra dos Sonhos, que lhe permite utilizar uma linguagem musical mais elaborada (como o atonalismo, o dodecafonismo, o minimalismo6) em suas personagens. De fato, o estilo musical escolhido para cada uma delas segue o perfil e desenvolvimento dramático dessas na obra. Maria, por exemplo, a faxineira, a quem é reservada a expressão de sentimentos, possui um caráter tonal romântico; Zeca, o copista-compositor frustrado, é marcada pelo minimalismo. Para o compositor, essa dualidade da complexidade entre texto e música "contribui para que o resultado seja ao mesmo tempo instigante e compreensível"7 e permite às crianças "um contato direto e profundo com esse universo, sem as barreiras e os pré-conceitos do formalismo e da tradição que normalmente caracterizam o gênero"8. Essa concepção norteia igualmente sua atividade didática com o público leigo, onde tenta levar informação sobre música clássica sem que ela carregue o peso elitista e excludente da dita alta cultura.

 

Notas:

1 Cooperativa de compositores destinada à produção de música eletroacústica.

2 Andrade, Débora. A orquestra dos Sonhos, p. 104.

3 Martins, Pedro. "o artista tem que respeitar a capacidade da criança apreender estruturas musicais complexas", [s.p.].

4 Rescala Tim, Saadi, Fátima. "Tim Rescala: O homem dos sete instrumentos", p. 86.

5 Débora Andrade. op. cit., p. 66.

6 Técnicas de escrita empregadas na música erudita contemporânea.

7 Martins, Pedro. op. cit., [s.p.]

8 Rescala, Tim. Encarte do CD de A orquestra dos sonhos.

Outras informações de Tim Rescala:

  • Outros nomes
    • Luis Augusto Rescala
  • Habilidades
    • diretor de teatro
    • Compositor
    • professor
    • diretor musical

Espetáculos (86)

Todos os espetáculos

Fontes de pesquisa (18)

  • ALBUQUERQUE, Johana. Tim Rescala. (ficha curricular) In: _________. ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para a Fundação VITAE. São Paulo, 2000.
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  • HORTA, Luiz Paulo. "Fim e ciclo: A música contemporânea começa a encontrar os caminhos para sair de sua solidão e comunicar-se com o público". Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 mai. 1987. Caderno B/ Especial, p.9.
  • HORTA, Luiz Paulo. "Tim, o indefinível". Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 set. 1989. Roteiro.
  • Lobo, Júlio César de Freixo. "Tim Rescala e a orquestra rebelde que faz sonhar". Inverta, Rio de Janeiro, 23 a 29 jul. 1997. Caderno Cultura, p. B-1B.
  • Martins, Pedro. "O artista tem que respeitar a capacidade da criança apreender estruturas musicais complexas". Projeto Guri Santa Marcelina. Série Horizontes Musicais. São Paulo: Faculdade Santa Marcelina, 2012. Disponível em:   <<http://www.gurisantamarcelina.org.br/secao.aspx?categoria=1&id=998>> Acesso em 10/12/2012.
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  • RESCALA, Tim. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Personalidades Artes Cênicas.
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  • TIM Rescala. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12940/tim-rescala>. Acesso em: 12 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7