Artigo da seção pessoas João Gilberto

João Gilberto

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deJoão Gilberto: 10-06-1931 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Juazeiro)

Biografia
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (Juazeiro, Bahia, 1931). Compositor, cantor e violonista. Filho de pai comerciante e músico amador de Juazeiro, João Gilberto é enviado para um colégio interno de Aracaju, onde inicia o estudo do violão, como autodidata, aos 14 anos. Após concluir os estudos secundários, atua como cantor em estações de rádio de Salvador até ser convidado a integrar o conjunto vocal carioca Os Garotos da Lua, e muda-se para o Rio de Janeiro em 1949. Depois de um ano é expulso do conjunto em razão dos constantes atrasos e faltas aos ensaios.

Influenciado pela voz de Orlando Silva, João Gilberto adota um estilo que explora sua potência vocal. Grava o primeiro disco solo, em 78 rpm, em 1952, com as canções Quando Ela Sai (Alberto Jesus e Roberto Penteado) e Meia Luz (Hianto de Almeida e João Luiz). Integra esporadicamente outros grupos, como o Quitandinha Serenaders e Anjos do Inferno, entre 1953 e 1954.

Em 1953, João Gilberto tem a composição Você Esteve com o Meu Bem (parceria com Russo do Pandeiro) gravada por Marisa Gata Mansa, cantora que ele namora. Nesse período, circula pelo ambiente musical carioca e entra em contato com artistas considerados precursores da bossa nova, como Newton Mendonça, Tom Jobim, Billy Blanco, Lúcio Alves, Dick Farney, Dolores Duran, Sylvia Telles e Maysa. Interessa-se especialmente pela música dos pianistas Johnny Alf e João Donato e do violonista Luiz Bonfá, cuja forma de execução do samba em seus respectivos instrumentos influencia João Gilberto na construção do estilo singular de interpretação que desenvolve entre 1955 e 1957, época em que reside em Porto Alegre e na cidade mineira de Diamantina.

De volta ao Rio de Janeiro, participa em 1958 da gravação do LP Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, em que mostra pela primeira vez uma batida de violão que se torna característica da bossa nova. No mesmo ano, lança um disco em 78 rpm, com o baião Bim Bom, de sua autoria, e Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que dá nome ao seu primeiro LP, de 1959, considerado um dos marcos da fundação da bossa nova.

Depois de lançar os LPs O Amor, o Sorriso e a Flor, 1960, e João Gilberto, 1961, apresenta-se, em 1962, ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e o grupo vocal Os Cariocas no histórico show Encontro, produzido por Aloysio de Oliveira. Ainda em 1962, realiza show no Carnegie Hall, em Nova York, com Tom Jobim, Roberto Menescal e Carlos Lyra.

Em seguida João Gilberto muda-se para os Estados Unidos e grava com o saxofonista Stan Getz o LP Getz/ Gilberto, em 1964, com o piano de Tom Jobim, voz de Astrud Gilberto (esposa de João Gilberto), na faixa Garota de Ipanema, e o baixo de Tião Neto. A bateria é executada por Milton Banana, instrumentista convidado por João Gilberto para fazer, como na gravação de Bim Bom, de 1958, a transposição da batida da bossa nova, tarefa que dificilmente algum baterista norte-americano pode realizar nessa época.

Durante quase 20 anos vivendo fora do Brasil, lança os LPs João Gilberto, em 1973, e Amoroso, em 1977. Retorna ao país no início dos anos 1980, e produz os álbuns Brasil - João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, este coma participação de sua filha Bebel Gilberto e de Rita Lee. Desde então se apresenta no Brasil e no exterior e lança discos como o Live at Montreaux, 1986, e João, Voz e Violão, 2003, produzido por Caetano Veloso. Em 2008 realiza uma turnê pelo Brasil e Nova York em comemoração dos 50 anos da bossa nova. Prepara-se para gravar três canções para o filme O Gerente, de Paulo César Saraceni, em 2010.

Como compositor, João Gilberto tem canções interpretadas por dezenas de artistas: Minha Saudade, por Alaíde Costa, João Donato, Rosinha de Valença e Lula Galvão; Bim Bom, por Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso e Bebel; Hô-Bá-Lá-Lá, por Sylvia Telles, João Donato, Jorge Bem e Baden Powell; Um Abraço no Bonfá, por Pepeu Gomes e Marco Pereira; e Valsa (Como São Lindos os Youguis/ Bebel), pelos Novos Baianos. Em 2009, Itamara Koorax e Juarez Moreira gravam um CD com toda a obra autoral de João Gilberto.

Análise
Ao longo de 61 anos de carreira, João Gilberto compõe pouco mais de dez músicas. No entanto, nesse pequeno conjunto encontram-se importantes obras do cancioneiro brasileiro do século XX. Entre elas, destaca-se Bim Bom, composta em meados dos anos 1950, lançada inicialmente em 78 rpm, em 1958, e depois no LP Chega de Saudade, em 1959. Dotada de melodia e letra simples, a canção divide-se em um refrão que repete "Bim bom bim bim bom..." e uma estrofe curta: "É só isso o meu baião/E não tem mais nada não/ O meu coração pediu assim". Contudo, por trás dessa aparente simplicidade esconde-se uma interpretação musical que se torna referência para os artistas da bossa nova como Tom Jobim, Roberto Menescal e Carlos Lyra, e músicos mais jovens como Caetano Veloso, Gal Costa e os membros do grupo Novos Baianos.

Em Bim Bom, o violão tocado por João Gilberto traz uma batida de mão direita que sintetiza a batucada do samba. O polegar realiza um ritmo regular, cumprindo a função do surdo. Tocando em bloco, os dedos indicador, médio e anelar efetuam um ritmo irregular semelhante ao do tamborim, anteriormente desenvolvido pelo compositor, acordeonista e pianista João Donato. O resultado dessa combinação é um contraste entre regularidade e irregularidade que produz um rico efeito de polirritmia. Enquanto isso, a mão esquerda adianta e atrasa a entrada de acordes dissonantes no violão, produzindo uma descontinuidade que, por sua vez, é acentuada por uma sucessão de deslocamentos no ritmo da voz.

A voz de João Gilberto apresenta uma intensidade muito baixa para os padrões dos anos 1950, em que predomina a potência vocal dos cantores do rádio. Muitos críticos supõem que essa característica resulte de uma deficiência vocal de João Gilberto, versão desmentida pela voz potente que ele deixa gravada nos sambas-canções Quando Ela Sai e Meia Luz, de 1952, quando imita seu ídolo Orlando Silva.

Seguindo cantores como o trompetista norte-americano Chet Baker e o brasileiro Mário Reis, conhecidos por se aproveitarem da sensibilidade dos microfones elétricos para cantar com baixa intensidade, João Gilberto desenvolve um estilo que lhe permite explorar variados timbres. Além disso, a opção pela "voz pequena" é motivada pela necessidade de igualá-la ao nível pouco potente do violão que deixa de ser mero acompanhante. O instrumento funde-se com o canto em uma relação de complementariedade e interdependência.

Nas gravações de João Gilberto essa relação se estende à instrumentação e aos arranjos. Em Hô-Bá-Lá-Lá, 1958, por exemplo, ele procura alcançar a máxima coerência entre os diversos elementos que integram a canção. A bateria desempenha um papel complementar ao ritmo quebrado do violão, mantendo um som constante e regular, semelhante ao do ganzá, o chocalho utilizado no samba. Produzidos por artistas como Tom Jobim, em colaboração com João Gilberto, os arranjos costumam incluir piano, cordas e flauta. Esses instrumentos são utilizados de maneira econômica, geralmente para preencher os espaços vazios deixados pela voz.

A contenção dos arranjos nas obras de João Gilberto é parte de um movimento desse compositor e intérprete contra a estética do excesso, característico dos sambas-canções abolerados que predominam nas rádios brasileiras dos anos 1950. Essa estética envolve uma interpretação dramática de cantores dotados de voz potente, acompanhados por orquestras grandiosas. O tom da interpretação corresponde aos temas trágicos das letras dessas canções, que normalmente fazem uso de um vocabulário pouco comum na linguagem coloquial.

Em direção oposta, João Gilberto interpreta e compõe canções como Bim Bom, cuja letra se resume a cerca de dez versos. Esse tema poético difere muito daqueles explorados pelos compositores da fase anterior, interessados em expressar emoções particulares, em descrever personagens ou narrar experiências. Em Bim Bom e Hô-Bá-Lá-Lá, estilização do baião e do bolero, ritmos em voga nesse momento, os textos referem-se à própria canção, seguindo uma tendência recorrente na bossa nova, a exemplo de Desafinado e Samba de uma Nota Só, compostas por Tom Jobim em parceria com Newton Mendonça.

Autorreferencial, Bim Bom se apresenta como uma espécie de manifesto antiexcesso cuja dimensão lembra um haicai, poema de origem japonesa dotado de três pequenos versos. A economia nas letras pode ser um sinal de que, como compositor, João Gilberto se interessa mais pela música, embora seja compositor dos versos de Minha Saudade, uma das primeiras obras da bossa nova, gravada em versão instrumental em 1955 por Luiz Bonfá e João Donato, autor da melodia. De fato, a maior parte de suas obras é instrumental: em Um Abraço no Bonfá e João Marcel, ele sola ao violão; em Acapulco, Undiú e Valsa (Como São Lindos os Youguis/ Bebel), utiliza a própria voz como instrumento em um procedimento conhecido como vocalise. Mesmo em peças com letra, João Gilberto usa esse recurso como parte dos arranjos instrumentais, demonstrando grande habilidade, provavelmente adquirida com o conjunto vocal Os Garotos da Lua na fase pré-bossa nova.

Em sua discografia, João Gilberto dedica-se à interpretação de canções de outros compositores, promovendo verdadeiras recriações de obras do repertório antigo, como Morena Boca de Ouro e Aquarela do Brasil (Ary Barroso), Rosa Morena e Samba da Minha Terra (Dorival Caymmi), Bolinha de Papel e Falsa Baiana (Geraldo Pereira), Izaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti), Preconceito (Wilson Batista e Marino Pinto), Me Chama (Lobão). O mesmo acontece com obras internacionais, como a norte-americana 'S Wonderful (George e Ira Gershwin) e a italiana Estate (Bruno Martino e Bruno Brighetti), que canta sem se preocupar com o sotaque. Suas interpretações sempre trazem a marca do estilo bossa-novista, ou seja, samba-canção, baião, e jazz vão sempre ter uma releitura marcada pela "voz pequena" e sua batida de violão.

O cuidado com a elaboração de suas obras produz uma qualidade de acabamento que as aproxima da música erudita, geralmente composta para ser admirada em silêncio. Esse é o motivo pelo qual frequentemente ele se indispõe com o público de seus espetáculos. Seu nível de exigência também provoca eventuais cancelamentos de shows, em razão de sua insatisfação com o sistema de amplificação e com a acústica das salas de concerto.

Outras informações de João Gilberto:

  • Outros nomes
    • João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • Violonista
    • compositor

Fontes de pesquisa (13)

  • GALVÃO, Vinícius Queiroz. João Gilberto volta com 4 shows em SP, Rio e BA. Folha de São Paulo, São Paulo, 16 abril. 2008. Ilustrada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1604200816.htm>. Acesso em: 3 jan. 2011.
  • GAVA, José Estevam. A linguagem harmônica da Bossa Nova. 2 ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2008.
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  • TORRES, Sérgio. João Gilberto grava novas canções para filme "O Gerente". Folha de São Paulo, São Paulo, 15 mar. 2010. Ilustrada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u706913.shtml>. Acesso em: 19 set. 2010.
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  • MELLO, Zuza Homem de. João Gilberto. 1. ed. São Paulo: Publifolha, 2001. (Folha Explica).
  • NAVES, Santuza C. Da Bossa Nova à Tropicália. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOÃO Gilberto. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12770/joao-gilberto>. Acesso em: 23 de Jun. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7