Artigo da seção pessoas Cazuza

Cazuza

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Música  
Data de nascimento deCazuza: 04-04-1958 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 07-07-1990 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Agenor de Miranda Araújo Neto, Cazuza (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1958 - idem 1990). Letrista, cantor. Criado no Rio de Janeiro, em Ipanema, Cazuza - apelido que significa "moleque" no Nordeste - abandona a faculdade de comunicação e inicia a vida profissional na gravadora Som Livre, presidida pelo pai, João Araújo. Insatisfeito, ruma a São Francisco, Estados Unidos, para estudar fotografia e artes plásticas. Sete meses depois está de volta ao Brasil sem a formação no curso, mas a experiência lhe vale um emprego de fotógrafo na gravadora RGE. Em 1981 matricula-se no curso de teatro ministrado por Perfeito Fortuna e a trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone no Circo Voador, no Arpoador. Encena duas peças, sendo que em uma delas interpreta Odara, de Caetano Veloso, feito que o incentiva a se tornar cantor. Não demora muito e, por intermédio do amigo roqueiro Léo Jaime, Cazuza entra para uma banda em formação, o Barão Vermelho - com ele nos vocais, Roberto Frejat (1962), na guitarra, Dé (19, no baixo, Maurício Barros (1964), nos teclados, e Guto Goffi (1962), na bateria.

O Barão Vermelho trilha o circuito underground carioca e estreia para o grande público no verão de 1982, no efervescente Circo Voador. Uma fita demo da banda logo chega às mãos de Ezequiel Neves, crítico de música e produtor da Som Livre - com quem Cazuza havia trabalhado -, que, empolgado com as letras de Cazuza e com o som despojado do conjunto, convence Araújo a contratar a banda do filho.

O primeiro álbum, Barão Vermelho (1982), recebe elogios da mídia, mas tem vendagem modesta. Barão Vermelho 2 (1983) chama atenção após Ney Matogrosso gravar Pro Dia Nascer Feliz, canção que logo faz sucesso na versão original da banda. O Barão Vermelho alcança enfim projeção nacional ao participar da trama e da trilha sonora do filme  Bete Balanço (1984), de Lael Rodrigues (1951-19890: a música tema do filme, homônima, ganha as rádios e cai nas graças do público. No mesmo ano sai o disco Maior Abandonado, que conquista prestígio e consolida a parceria Cazuza/Frejat como uma das mais profícuas do rock brasileiro. No verão de 1985, o Barão Vermelho apresenta-se com destaque no megafestival Rock in Rio. No auge da fama até então, Cazuza resolve se desligar do grupo e seguir carreira solo, decisão que coincide com a manifestação de seus primeiros sintomas da aids.

O primeiro álbum de Cazuza, Exagerado (1985), mantém a sonoridade roqueira, emplaca um punhado de canções com parceiros diferentes nas rádios e faz sua carreira solo decolar. O segundo é Só se For a Dois (1987), calcado em canções românticas. Já com o diagnóstico de portador da aids, Cazuza viaja a Boston para tratamento. Retorna ao Brasil no fim de 1987 e no ano seguinte lança o LP Ideologia, cuja turnê, dirigida por Ney Matogrosso (1941), resulta no álbum ao vivo O Tempo Não Para (1989), seu maior sucesso comercial. Em fevereiro de 1989, Cazuza declara à imprensa que é soropositivo. Bastante debilitado, tem ainda tempo de lançar o LP Burguesia (1989). Trata-se em São Paulo, depois em Boston e retorna ao Rio de Janeiro, onde morre em julho de 1990, aos 32 anos. Em 1991 sai o álbum póstumo, Por Aí.

Análise

Apesar da breve carreira, interrompida aos 32 anos, Cazuza é hoje reconhecidamente um dos principais letristas da MPB, tendo formado com Roberto Frejat uma das parcerias1 mais festejadas do rock brasileiro. Possuidor de uma voz autoral bem própria, ele une com maestria imagens poéticas desconcertantes - como as famosas "veneno antimonotonia", "segredos de liquidificador" e "museu de grandes novidades" - à linguagem coloquial da juventude carioca de seu tempo.

O tema mais frequente em suas letras é o amor, sendo a marca registrada do artista o seu desenvolvimento a partir da perspectiva existencial boêmia de um eu lírico confessadamente "exagerado". Essa verve de Cazuza traz elementos inusuais ao rock nacional, inspirados nas letras de dor de cotovelo do blues, do samba e do samba-canção, por um lado, e na sensibilidade romântica maldita2 de escritores como Baudelaire (1821-1867)e os beatniks3 Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997), por outro - cara também aos "heróis" a que Cazuza se refere no célebre verso "meus heróis morreram de overdose", de Ideologia:  como os roqueiros norte-americanos sessentistas Jimi Hendrix (1943-1970), Janis Joplin (1943-1970). Exemplos de canções suas nessa linha, do tempo do Barão Vermelho, são Down em Mim ("Da privada, eu vou dar com a minha cara / De panaca pintada no espelho / E me lembrar sorrindo que o banheiro / É a igreja de todos os bêbados"), Por que a Gente É Assim? ("Canibais de nós mesmos, antes que a terra nos coma / Cem gramas, sem dramas / Por que a gente é assim?"), Baby Suporte ("Cada carinho é o fio de uma navalha"), Vem Comigo, Blues do Iniciante, Maior Abandonado, Dolorosa e Eu Queria Ter uma Bomba; da fase solo, Exagerado ("E por você eu largo tudo / Vou mendigar, roubar, matar / Até nas coisas mais banais / Pra mim é tudo ou nunca mais"), Codinome Beija-Flor, Quarta-Feira, O Assassinato da Flor e Faz Parte do Meu Show. A temática amorosa também é cultivada por Cazuza em uma faceta celebratória, seja de encontros efêmeros - Solidão que Nada -, seja do amor estável entre casais, como em Pro Dia Nascer Feliz, Só se For a Dois e Minha Flor, Meu Bebê.

O engajamento social e político se faz presente em seu repertório desde o álbum Ideologia, de 1988. Em canções como Um Trem para as Estrelas, Ideologia, O Tempo Não Para e Burguesia, Cazuza diagnostica a falência dos ideais humanistas contestatórios à visão de mundo burguesa no Brasil pós-ditadura militar, ao mesmo tempo que critica com veemência certas mazelas sociais brasileiras arraigadas, como corrupção, desigualdade social e preconceitos em geral. Em Brasil, uma de suas composições de maior repercussão, na voz de Gal Costa para a novela Vale Tudo (1988), da TV Globo, Cazuza une rock à batida de samba para fazer uma espécie de inversão de Aquarela do Brasil, samba-exaltação ufanista de Ary Barroso no qual o eu lírico demonstra uma identificação acrítica com a nação em que vive. O "Brasil" de Cazuza, ao contrário, é uma denúncia: é cantado em tom indignado como uma "droga que já vem malhada antes de eu nascer", um país cuja população - a quem o eu lírico serve de metonímia - é explorada por uma elite inescrupulosa ("Brasil / Qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio?"), se defende como pode ("Meu cartão de crédito / É uma navalha") e clama por justiça ("Brasil / Mostra a tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim"). O tom épico dos sambas ufanistas é reapropriado de maneira invertida no estribilho, em que o nome do país é enunciado repetidamente; a inversão ocorre porque, em vez de exaltações à pátria, se ouvem brados por moralidade e justiça. O épico também é descaracterizado no desfecho da música ("Grande pátria desimportante / Em nenhum instante, eu vou te trair"), em que se valoriza não a tradição idealizada cultivada pelo samba-exaltação, mas a experiência pessoal do aqui e agora.

Assim como aposta mais na inspiração do que no labor poético como letrista, Cazuza não é um intérprete perfeccionista, principalmente no início de sua carreira. O canto-falado-gritado de levada blueseira que predomina em sua fase no Barão Vermelho compensa as eventuais falhas com a personalidade espontânea exigida pelos roqueiros. O canto de Cazuza sofistica-se na carreira solo, quando adquire novas nuances a partir da aproximação com a bossa nova. A interpretação contida, uma das marcas do gênero musical criado por João Gilberto (1931), é facilmente identificável em Preciso Dizer que Te Amo (canção que tem Bebel Gilberto na parceria), Codinome Beija-Flor e na versão ao vivo de Luz Negra, que ganha registro bem diverso da gravação original dramática do sambista Nelson Cavaquinho (1911-1986). A bossa nova, aliás, é citada metalinguisticamente por Cazuza na letra de outra música nesse estilo, Faz Parte do Meu Show, uma de suas canções mais admiradas ("Vivo num 'clip' sem nexo / Um pierrot retrocesso / meio bossa nova e rock'n'roll").

Notas

1 Parceria que continua constante após a saída de Cazuza do Barão Vermelho.

2 Quatro músicas do repertório da fase solo do artista atêm-se a esse referencial: Só as Mães São Felizes, Mal Nenhum, Blues da Piedade e Cobaias de Deus - nesta, Cazuza tematiza a soropositividade com o inconformismo que lhe é característico.

3 Uma das denominações da chamada "geração beat" - termo que neste contexto significa "oprimido", "rebaixado", "espezinhado" -, constituída por um grupo de jovens artistas nova-iorquinos nas décadas de 1940 e 1950. Ao vivenciarem o submundo e professar uma nítida oposição ao estilo de vida consumista que caracteriza os Estados Unidos, os beatniks tornam-se os primeiros artistas a ser considerados componentes de uma "contracultura" naquele país.

Outras informações de Cazuza:

  • Outros nomes
    • Agenor de Miranda Araújo Neto
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • compositor
    • poeta

Fontes de pesquisa (8)

  • NEVES, Ezequiel, GOFFI, Guto e PINTO, Rodrigo. Barão Vermelho: por que a gente é assim? Rio de Janeiro, Globo, 2007.
  • RIBEIRO, Julio Naves. Lugar nenhum ou Bora Bora?: narrativas do "rock brasileiros anos 80". São Paulo, Annablume, 2009.
  • ARAÚJO, Lucinha. Preciso dizer que te amo / Lucinha Araújo. Texto: Regina Echeverria. São Paulo, Globo, 2001.
  • CAZUZA. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: http://www.dicionariompb.com.br/cazuza/biografia. Acesso em 30 Outubro 2012.
  • CAZUZA. In: e-biografias-biografia de Cazuza. Disponível em: http://www.e-biografias.net/cazuza/. Acesso em 29 Outubro 2012.
  • CAZUZA. In: Wikipédia: a Enciclopédia Livre. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cazuza. Acesso em 29 Outubro 2012.
  • JULIÃO, Rafael Barbosa. Segredos de liquidificador: um estudo das letras de Cazuza. Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Rio de Janeiro, 2010, Mimeo.
  • __________. Só as mães são felizes / Lucinha Araújo em depoimento a Regina Echeverria. São Paulo, Globo, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CAZUZA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12739/cazuza>. Acesso em: 17 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7