Artigo da seção pessoas Baden Powell

Baden Powell

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deBaden Powell: 06-08-1937 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Varre-Sai) | Data de morte 26-09-2000 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia 

Baden Powell de Aquino (Varre-Sai, Rio de Janeiro, 1937 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000). Violonista, compositor, arranjador, cantor. Nascido na pequena Varre-Sai, então um distrito de Itaperuna, muda-se com a família para o Rio de Janeiro ainda bebê, fixando-se em Vila Isabel e depois em São Cristóvão, onde frequenta tradicionais rodas de choro. Neto de Vicente Tomás de Aquino, primeiro maestro negro do interior fluminense, e filho de Luiz Aquino, seresteiro e violinista amador, começa a tocar violão aos oito anos de idade, tendo aulas com o violonista Meira (Jaime Florence). Aos dez, vence o programa de calouros Papel Carbono, de Renato Murce, na Rádio Nacional, tocando a peça Magoado, de Dilermando Reis. Dois anos mais tarde ingressa na Escola de Música do Rio de Janeiro, onde se diploma em 1951. No ano seguinte, começa a atuar profissionalmente em boates e casas noturnas cariocas, tocando numa guitarra Gibson um vasto repertório que inclui música brasileira, bolero e jazz. Nos anos 1950, integra a orquestra da Rádio Nacional e acompanha diversos cantores em gravações e em shows pelo Brasil.

Compõe sua primeira canção em 1956, Samba triste, parceria com Billy Blanco gravada quatro anos mais tarde por Lúcio Alves. Já é conhecido no meio musical quando grava seus primeiros discos solo: Apresentando Baden Powell e seu violão (1959) e Um violão na madrugada (1961). Mas é a parceria com Vinícius de Moraes (1913-1980), iniciada em 1962, que leva seu nome ao grande público. Nesse ano, a dupla compõe Deve Ser Amor e Consolação, ambas incluídas no disco Do the Bossa Nova sith Herbie Mann, em que Baden toca violão. No mesmo ano, tem seu Samba triste incluído no LP Jazz Samba, de Stan Getz e Charlie Byrd, e grava Baden Powell Swings With Jimmy Pratt. Pratt é um baterista que participa de gravações com Charlie Parker, Stan Getz, Zoot Sims, Oscar Pettiford, Bud Shank, Anita O'Day e acompanha a cantora francesa Caterina Valente.

Em 1963, depois de lançar seu quarto disco, À vontade, e de participar como violonista e compositor das doze faixas do disco Vinícius e Odette Lara, realiza sua primeira viagem a Paris, onde permanece por mais de um ano, apresentando-se no Teatro Olympia. Ali, grava Le monde musical de Baden Powell (1964), o primeiro de uma série de discos lançados pela gravadora Barclay. De volta ao Rio, conclui com Vinícius de Moraes a composição dos oito afro-sambas gravados no disco Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius, de 1966. O compositor francês Pierre Barouh, em passagem pelo Rio, cria uma versão francesa para o Samba da Bênção, que é incluída no filme Um Homem e Uma Mulher (1966), de Claude Lelouch, sob o título Samba Saravah. Ainda nos anos 1960, Powell realiza diversas turnês pela Europa e nos EUA, onda toca com Stan Getz (1967). De volta a Paris, onde fixa residência, compõe a trilha do filme Le Grabuge (1968), de Edouard Luntz.

Ao longo dos anos 1970, continua a se apresentar como solista e a gravar discos no Brasil e na Europa, entre eles As músicas de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro: os Cantores da Lapinha (1970), os três volumes do Baden Powell Quartet (1971) e o álbum Baden Powell e Stephane Grappelli - La Grande Réunion (1974).

Em 1984, muda-se para Baden-Baden, na Alemanha, retornando definitivamente para o Rio de Janeiro cinco anos mais tarde. Ao longo dos anos 1990, continua gravando regularmente, destacando-se o álbum Baden Powell e Filhos (1994), acompanhado pelos seus filhos Philippe, pianista, e Louis Marcel, violonista. Pouco antes de morrer, vítima de complicações de uma pneumonia, grava pela Trama o álbum-solo Lembranças, em que interpreta 11 canções que ouvia na infância, como a marcha-rancho As Pastorinhas, de Noel Rosa e João de Barro, e o samba-canção Linda flor, de Henrique Vogeler e Luís Peixoto.

Análise

Violonista virtuose, capaz de fazer seu violão solo soar como um duo, Baden Powell é considerado um dos melhores do mundo em seu instrumento. Um dos músicos brasileiros de maior renome no exterior, constrói uma trajetória artística bastante prolífica, tendo gravado mais de 50 discos ao longo da carreira.

Embora seja frequentemente associado à Bossa Nova, Baden Powell possui um estilo bastante peculiar, que não se confunde com o de nenhum violonista desse movimento. Seu toque vigoroso, de articulação clara e timbre brilhante, sua técnica impecável, que lhe permite executar passagens complexas com grande precisão rítmica, e suas interpretações cheias de contrastes e improvisos afastam-no da economia interpretativa dos bossanovistas, representada pelo violão de João Gilberto.

Influenciado tanto pelas melodias dedilhadas de Dilermando Reis como pelas harmonias sofisticadas e modernas de Garoto, Powell pertence a um raro grupo de violonistas que conseguem aliar virtuosismo melódico a um apurado senso harmônico, sintetizando em seu estilo as diferentes tradições violonísticas brasileiras. A elas acrescenta o swing jazz, que aprende a tocar na noite, atuando ao longo da carreira com grandes instrumentistas do gênero, como o saxofonista Stan Getz e o guitarrista Joe Pass.

Seu repertório é bastante eclético, como se nota já no primeiro disco, que mescla canções norte-americanas (All the Things You Are, Love Letters), standards do jazz (Stella by Starlight), sambas tradicionais (Na Baixa do Sapateiro), choro (Carinhoso), bolero (Aquellos Ojos Verdes, Estrellita) e bossa nova (Samba Triste).

Em suas composições, mistura elementos jazzísticos, melodias de choro, ritmos afro-brasileiros e contrapontos bachianos. Apesar dessas inúmeras influências, é no samba que o compositor Baden Powell encontra seu arrimo. O gênero funciona em sua obra como um centro de referência em torno do qual circulam diversos estilos, o que se nota tanto nas citações de outros gêneros musicais dentro do samba, quanto na influência do samba dentro desses outros gêneros. Apontados por muitos críticos como sua principal contribuição para a música brasileira, seus afro-sambas mesclam a herança africana do candomblé, da capoeira e dos sambas de roda - que ele ouve, in loco, em terreiros da Bahia - a elementos do samba carioca e da música popular urbana em geral. Concebidos numa época de valorização da cultura afro-brasileira, cujo marco inicial foi a encenação, em 1956, da peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, os afro-sambas recebem letras do mesmo Vinícius, sendo gravados num disco antológico que conta com arranjos de Guerra-Peixe, vocais do quarteto em Cy e uma seção de percussão que inclui instrumentos rituais como atabaques, afoxé, agogê e bongô, além do violão de Powell. Canto de Xangô, por exemplo, mistura toques do candomblé, executados pela percussão, a um acompanhamento chorístico realizado pelo violão, que além dos acordes também toca a linha do baixo. Tudo isso somado a uma melodia pentatônica1, que reforça a "africanidade" da canção, e a contracantos jazzísticos da flauta. Vale lembrar que, na época em que compõe os afro-sambas, Powell tem aulas de composição com Moacir Santos, que pesquisa as relações da música modal2 com a cultura negra.

Se na parceria com Vinícius de Moraes, que rende mais de 50 canções, Baden Powell adentra o mundo sofisticado da Bossa Nova, com Paulo César Pinheiro, seu segundo maior parceiro, ele retoma suas raízes suburbanas, compondo sambas mais próximos da linguagem popular, como Lapinha, Vou Deitar e Rolar, Cai Dentro e Aviso aos Navegantes, sucessos na voz de Elis Regina. Algumas de suas obras têm clara influência do repertório violonístico erudito, como Crepúsculo e Último Porto, ambos gravados no disco Estudos (1971). Outras tem influencia da tradição chorística, como seu Choro para Metrônomo, em que leva ao paroxismo a complexidade melódica e rítmica do gênero. Mesmo nas canções percebe-se a influência da música instrumental, como no Samba em Prelúdio, parceria com Vinícius de Moraes. Composta sobre o tema do Prelúdio das Bachianas n° 4, de Villa-Lobos, que por sua vez se baseia numa fuga de Bach, a canção possui duas melodias cantadas em contraponto, numa das realizações mais sofisticadas da música popular brasileira.

Muda-se para a Europa, onde se torna mais conhecido pela proximidade com a Bossa Nova e pelos festivais de jazz de que participa do que por sua produção autoral. Com uma voz pequena, mas expressiva, Baden também se arrisca como cantor em show e gravações. A primeira vez é 1966, quando grava o disco Ao vivo no Teatro Santa Rosa. Sua mais séria incursão como cantor se dá em Baden Powell canta Vinicius de Moraes e Paulo Cesar Pinheiro (1977), e, que interpreta, à la João Gilberto, nove de suas maiores parcerias. Outra faceta menos conhecida de Baden Powell é sua atuação como orquestrador, atividade que inicia em 1960 no disco de Alaíde Costa, Alaíde, Joia Moderna. Figura como arranjador do disco Mario Telles (1964), ao lado de Moacir Santos, e assina alguns arranjos do repertório do Baden Powell Quartet. Também faz transposições para o violão de standards do jazz, de composições eruditas (como a Ária da 4a corda, de Johann Sebastian Bach, e o Noturno no13 op.48, de Frédéric Chopin, gravados no disco Le Monde Musical de Baden Powell) e de clássicos da música brasileira, como Por Causa de Você (Tom Jobim e Dolores Duran), A Lenda do Abaeté (Dorival Caymmi), Asa Branca (Luís Gonzaga) e Rosa Pixinguinha), que integram o repertório de muitos violonistas.

O legado de Baden Powell para a música brasileira se nota na influência que exerceu não só sobre violonistas de todos os estilos, do chorão Rafael Rabelo ao jazzista Hélio Delmiro, passando pelo inclassificável Guinga, mas também sobre compositores de diversas gerações, a exemplo de Edu Lobo, Toquinho, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc.

Notas

1. Pentatônico: baseado na escala de cinco sons, ou pentatônica, que se caracteriza pela ausência de semitons.

2. Modal: baseados em modos, como são genericamente denominadas todas as escalas que não pertencem ao sistema tonal.

 

Outras informações de Baden Powell:

  • Outros nomes
    • Baden Powell de Aquino
  • Habilidades
    • Compositor
    • Arranjador
    • Cantor/Intérprete
    • Violonista

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • DREYFUS, Dominique. O violão vadio de Baden Powell. São Paulo: Ed. 34, 1999.
  • KERNFELD, Barry. "Baden Powell". Grove Music Online. Disponível em: <www.oxfordmusiconline.com>. Acesso em 3 jun. 2013.
  • KUEHN, Frank M.C. "Estudo sobre os elementos afro-brasileiros do candomblé em letra e música de Vinícius de Moraes e Baden Powell: os "afro-sambas". In: Anais. 3º Colóquio de Pesquisa em Música. Rio de Janeiro: PPGM/UFRJ, 2002, p.94-103.
  • POWELL, Baden. Site oficial do artista. Disponível em: <www.badenpowell.com.br>. Acesso em: 02 jul. 2013.
  • POWELL, Philippe Baden. Brazil on Guitar. Site dedicado à obra de Baden Powell. Disponível em: <www.brazil-on-guitar.de>. Acesso em: 03 jul. 2013.
  • SCHROEDER. J. L. "Corporalidade musical na música popular: uma visão da performance violonística de Baden Powell e Egberto Gismonti". Per Musi. Belo Horizonte, n.22, 2010, p.167-180.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BADEN Powell. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12628/baden-powell>. Acesso em: 21 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7