Artigo da seção pessoas Marcos Valle

Marcos Valle

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deMarcos Valle: 14-09-1943 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Marcos Kostenbader Valle (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1943). Compositor, cantor, instrumentista, arranjador. Estuda piano clássico dos 5 aos 16 anos e acordeão, instrumento que toca em seus primeiros conjuntos. Na adolescência, aprende violão e forma trio com Edu Lobo (1943) e Dori Caymmi (1943). Em 1963, algumas de suas composições, em parceria com o irmão Paulo Sérgio Valle (1940), são gravadas pelo Tamba Trio e Os Cariocas. Estreia como cantor em seu primeiro LP, Samba “Demais” (1964). Abandona o curso de Direito para se dedicar à música.

Viaja aos Estados Unidos como integrante do grupo Brasil’65, liderado pelo pianista Sérgio Mendes (1941). Depois de um ano, lança no Brasil o LP O Compositor e o Cantor (1965). Após o sucesso de “Samba de Verão” (“Summer Samba”), na gravação de 1966 do organista Walter Wanderley (1932-1986), grava nos Estados Unidos, o LP instrumental Braziliance: Marcos Valle and His Music (1967) e Samba’68 (1968). Este, em inglês, cantado em dueto com a Anamaria de Carvalho (1947), sua esposa na época. Diante da possibilidade de ser enviado para a Guerra do Vietnã, retorna ao Brasil, e engaja-se no movimento Musicanossa1. Lança Viola Enluarada (1968), cuja faixa-título, com participação de Milton Nascimento (1942), é a segunda mais executada do ano no país, atrás de “Hey Jude” dos Beatles.

Depois do tema instrumental “Azymuth” para a trilha da novela Véu de Noiva, da TV Globo, em 1969, passa a compor regularmente para publicidade e televisão, abrindo a produtora Aquarius, em sociedade com Paulo Sérgio e Nelson Motta (1944). São dessa época as trilhas das novelas Pigmalião 70, O Cafona, Os Ossos do Barão e Selva de Pedra; do humorístico Uau, a Companhia, dos infantis Globo Cor Especial e Vila Sésamo e do jingle “Um Novo Tempo”, mantido até hoje na programação de fim de ano da emissora. 

Em 1971, realiza o LP Garra, estreitando as relações com a música negra norte-americana.

Concebe repertório experimental com o grupo de rock psicodélico O Terço, registrado no disco Vento Sul (1972). Em 1973, faz a trilha sonora do filme O Fabuloso Fitipaldi, da qual participa o grupo Azymuth. Nos Estados Unidos, participa do disco I Love Brazil (1977), da cantora Sarah Vaughan (1924-1990), e colabora com os músicos Eumir Deodato (1943) e Airto Moreira (1941). Faz parceria com o compositor estadunidense Leon Ware (1940-2017) nos álbuns Inside Is Love (1979) e Rockin' You Eternally (1981). Interrompe a carreira fonográfica após o fracasso comercial do LP O Tempo da Gente (1986), compondo para outros artistas e produções da TV Globo, como TV Colosso (1993).

Nos anos 90, tem editadas as coletâneas The Essential Marcos Valle Vol. 1 e Vol. 2. Lança, na Inglaterra, o CD Nova Bossa Nova (1998), com repertório inédito, fazendo turnê pela Europa e Japão. Em 2004, a cantora inglesa Emma Bunton (1976) inclui “Crickets Sing for Anamaria” e “Summer Samba” no CD Free Me. Em 2006, lança o CD Jet-Samba, no qual assina também a produção. Grava com o instrumentista Celso Fonseca (1956) o CD Página Central (2009), com 12 parcerias inéditas entre eles. Em 2011, a EMI lança a caixa Tudo, com seus discos gravados entre 1963 e 1974, incluindo alguns fonogramas inéditos. Em 2016 participa do Montreaux Jazz Festival em Tóquio.

Análise

Protagonista de uma carreira das mais longevas, Marcos Valle participa de significativas transformações na música popular brasileira. Atento às novidades na produção musical internacional, incorpora diversas vertentes ao longo de sua trajetória, que se inicia com a bossa nova e percorre da música negra norte-americana ao pop e à música dançante dos anos 1970 e 1980. Absorve ainda uma variedade de ritmos regionais brasileiros, sem se especializar ou se restringir a um gênero específico. Sua preferência pelo baião na infância, que precede os estudos de piano clássico, leva-o a uma forma particular de tocar, encontrando intersecções entre este, o samba e o jazz.

Em suas primeiras composições, tem como principal influência o violão de João Gilberto (1931). Embora ainda seja uma referência em Samba’68 (1968), aos poucos distancia-se do padrão rítmico do compositor baiano, buscando empregar elementos do baião, do maxixe, do jazz e da música latina. Outra influência é a dos Afro-Sambas de Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980), pelas suas melodias modais, com frases curtas e percussivas, características menos presente na bossa nova e adotadas por Valle.

Ao retornar ao Brasil em 1967, o compositor depara-se com novo cenário cultural, em que a bossa é considerada ultrapassada. Nesse momento, desempenha um papel importante no movimento Musicanossa, que visa a renovar as propostas musicais, o que reflete em seu álbum seguinte, Viola Enluarada (1968). Nele, o compositor explora a toada moderna - estilo criado a partir da adaptação da batida da viola caipira para o piano -, a canção popular norte-americana, o rock e o baião, dialogando com a música trazida de Minas Gerais por Milton Nascimento.

Desenvolvendo sua própria leitura do soul no final da década de 1960, Valle utiliza o groove em suas composições com base em uma síntese de estilos, sendo um dos responsáveis por fazer a transposição da fusão entre ritmos nordestinos e jazz para um contexto moderno, influenciado pela cultura pop. No tema instrumental “Azymuth” (1969), o compositor mistura à interpretação jazzística e à pulsação do funk as síncopes, harmonias e o modo mixolídio do baião.

Boa parte de sua obra é indissociável da parceria com Paulo Sérgio Valle, letrista da dupla. Com o tempo, os irmãos abandonam a temática despretensiosa da bossa nova, em que estavam envolvidos, e incorporam o lirismo introspectivo, o posicionamento contra a ditadura militar, a sociedade industrial e o consumismo. Apesar disso, eles são, nos anos 1970, um dos principais formatadores da produção com fins publicitários e para a televisão, o que, por sua vez, aproxima-os de uma linguagem mais coloquial e acessível ao grande público.

Esta fluidez permite que música “Mustang Cor de Sangue” - provocação à publicidade da época - seja empregada pela fabricante de automóveis Ford como jingle do seu modelo Corcel. Da mesma forma, a irreverência de músicas como “Ele e Ela” (1970) - peça erótica inspirada pela canção “Je t'Aime Moi Non Plus” de Serge Gainsbourg (1928-1991), disfarçada de tema instrumental - e “Flamengo Até Morrer” (1973), que acusa a alienação dos brasileiros através do futebol, passam despercebidas pelo crivo dos censores. Outras composições não têm a mesma sorte, sendo modificadas ou vetadas, alvo de censuras e mesmo de uma prisão em 1971, por se recusar a participar da 5a edição do Festival Internacional da Canção.

Com “Mustang Cor de Sangue”, Marcos Valle adota o piano como instrumento principal, o que favorece as experimentações rítmicas, por meio da utilização de pequenos trechos repetidos acelerados. Temas instrumentais também são quase obrigatórios em seus discos gravados no Brasil. Em sua estreia como co-arranjador nesse álbum, incorpora guitarras e contrabaixos elétricos, atraindo ouvintes e músicos que até então não acompanham seu trabalho.

No início da década de 1970, o compositor estreita relações com o rock progressivo, presente na elaboração da “Suíte Imaginária”, no álbum Marcos Valle (1970). A peça tem duração de nove minutos, dividida em quatro partes, cuja sonoridade é tributária à banda acompanhante, o Som Imaginário. O LP seguinte, Garra, faz pontes entre MPB, bossa, soul e rock, com influências das gravações norte-americanas da Stax e da Motown. Nele, estabelece os jogos rítmicos que se tornam valecaracterísticos de sua obra, baseado no uso do contratempo para ataques dos acordes de piano, enquanto o violão e o contrabaixo fazem marcações nos tempos fortes, como ocorre na canção “Com Mais de Trinta”, popularizada pela voz da cantora Claudia (1948). Outra inovação é o emprego de sons vocalizados, com função predominantemente percussiva, e do pedal wah-wah, filtro projetado para imitar a voz humana, difundido pelo músico estadunidense Jimi Hendrix (1942-1970).

Vento Sul dialoga com a psicodelia, com o hard rock e a música regional, sendo considerado o disco mais experimental de sua carreira. Já em Previsão do Tempo (1973), destacam-se as frases percussivas executadas no piano, os arranjos econômicos, criados para poucos instrumentos e a valorização da percussão latina. Ritmos vocalizados são incorporados aos arranjos de base, precedendo, de certa forma, a estética beatbox adotada pelo hip-hop norte-americano anos mais tarde.

A aproximação ao universo pop nem sempre significa êxito na trajetória de Marcos Valle: Estrelar (1984), apesar do sucesso imediato, estigmatiza-o como autor de “música para academias de ginástica”. No entanto, o aspecto ritmado, baseado nos grooves, estabelece um diálogo com compositores de pop e soul, e depois, com DJs, produtores de música eletrônica dançante e da lounge music, dos Estados Unidos, Europa e Japão, até hoje divulgadores de sua obra.

Nota

1 Movimento criado em 1967, no Rio de Janeiro, por iniciativa do compositor Armando Schiavo (1943) e do pianista Hugo Bellard. Com o objetivo de reunir músicos da bossa nova em apresentações coletivas e gravações, tem participação de Roberto Menescal (1937), Pingarrilho, Marcos Vasconcellos, Mario Telles (1926-2001), João Donato (1934), Ronaldo Bôscoli (1928-1994), Rosinha de Valença (1941-2004), Antonio Adolfo (1947) entre outros. Dos discos lançados destacam-se “Isto é Musicanossa!” (Rozenblit, 1968), “Musicanossa” (RCA Victor, 1968) e “Musicanossa” (Forma, 1968). 

Outras informações de Marcos Valle:

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (8)

  • CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • CHEDIAK, Almir (org.). Songbook Marcos Valle. Rio de Janeiro: Lumiar, 1998.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • MICHAILOWSKY, Alexei Figueiredo. Da bossa nova ao pop: transformações na obra de Marcos Valle entre 1968 e 1974. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008.
  • MOTTA, Nelson. Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
  • SANCHES, Pedro Alexandre. Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos & Erasmo Carlos & Wanderléa. São Paulo: Boitempo, 2003.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003. (Todos os Cantos).
  • VALLE, Paulo Sérgio. Se eu não te amasse tanto assim. Rio de Janeiro: Litteris, 2008.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MARCOS Valle. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12614/marcos-valle>. Acesso em: 13 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7