Artigo da seção pessoas Paulinho da Viola

Paulinho da Viola

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento dePaulinho da Viola: 12-11-1942 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia
Paulo César Baptista de Faria (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1942). Compositor, cantor e instrumentista. Filho mais velho do violonista César Faria, um dos integrantes do conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim. Paulinho da Viola inicia-se ao violão com 15 anos, influenciado pelo pai. Tem aulas com Zé Maria, violonista amigo de César Faria, que ensina com o método de Mateo Carcassi. Paralelamente ao estudo, frequenta as reuniões promovidas pelo pai em sua casa, com músicos do choro e do samba do Rio de Janeiro, como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Dino 7 cordas. Participa também dos saraus promovidos por Jacob do Bandolim.

Com 17 anos ingressa na ala de compositores da escola de samba União de Jacarepaguá, atuando como instrumentista. Ali conhece Catoni e Jorge Mexeu, compositores de quem grava sambas. Compõe o samba Pode Ser Ilusão. Aos 19 anos trabalha no Banco Nacional das Minas Gerais e, na agência onde trabalha, reencontra o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho, um conhecido dos saraus do Jacob do bandolim, de quem se torna amigo e inicia uma parceria com a canção Duvide-o-dó, gravada em 1970 por Isaurinha Garcia e Noite Ilustrada, pelo próprio Paulinho no disco Sinal Aberto (1999), e por Roberta Sá em 2004, e Valsa da Solidão, gravada por Elizete Cardoso em 1985.

Frequenta o restaurante Zicartola e lá apresenta algumas de suas composições. É neste local que ganha de Zé Kéti e Sérgio Cabral de "Paulinho da Viola". Em 1964 muda-se para uma casa nova em Botafogo e Oscar Bigode, um amigo de infância, diretor de bateria do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, leva Paulinho para conhecer a ala de compositores da agremiação, que conta com sambista como Monarco, Candeia, Alvaiade e Ventura.

Integrado à ala dos compositores da Portela, em 1966 apresenta Memórias de Um Sargento de Milícias, escolhido para ser o samba enredo daquele ano. Ainda nesse ano, estreia com o disco Samba na Madrugada, dividido com o parceiro Elton Madeiros. Ganha o primeiro lugar, com Sinal Fechado, no festival de MPB da TV Record de 1969 e é gravado por Martinho da Vila em 1971. Com Bebadosamba ganha o Prêmio Shell de 1992; o prêmio Sharp e a comenda da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, e o título dado pelo governo francês de Chevalier de L'ordre des Art et des Lettres, em 1985. Em 1994, Marisa Monte grava sua canção Dança da Solidão no disco Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, com participação de Gilberto Gil. Em 1998, lança o álbum Bebadochama - Ao Vivo e, em 2007, o Acústico MTV. Em 2003, o documentário Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe, traça um perfil do compositor, com participação de  Marina Lima, Elton Medeiros, Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nelson Sargento, Monarco e a Velha Guarda da Portela.

Análise da trajetória
Em seu samba Dança da Solidão, Paulinho da Viola canta: "Meu pai sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando eu penso no futuro/ Não esqueço meu passado". Essa é uma lição de seu pai, César Faria, que Paulinho parece lembrar sempre em sua carreira. Faria é um dos grandes violonistas que se dedicam à música brasileira, tendo estudado a fundo a tradição da música popular brasileira e contribuído para sua renovação no conjunto Época de Ouro. O filho, aprendendo a lição do pai, pôde experimentá-la na prática observando Jacob do Bandolim, Pixinguinha e outros que se dedicam tanto ao conhecimento da tradição quanto à inovação do gênero.

Em outro samba conhecido, 14 Anos, afirma: "Tinha eu 14 anos de idade/ Quando meu pai me chamou/ Perguntou-me se eu queria/ Estudar Filosofia/ Medicina ou Engenharia/ Tinha eu que ser doutor". O pai já havia seguido esse caminho, tornando-se oficial de justiça por conselho de Jacob do Bandolim, que trabalhava como escrivão da Justiça Criminal da Guanabara. Mas o envolvimento com o samba e o novo mercado da música leva Paulinho da Viola a um caminho diferente, tornando-se sambista e cantor profissional.

O compositor não é um "sambista de morro" como eram alguns dos grandes sambistas que frequentavam sua casa. Mas em sua experiência urbana e individualizada, retoma o samba tradicional da comunidade com bagagem de poesia moderna e formas mais abertas. São novidades líricas as afirmações de liberdade do sambista como em Para Ver as Meninas: "Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito". O sambista se distancia da comunidade nesse momento para criar um tema pouco comum no samba tradicional: o infinito. Como contraponto a esse movimento de inovação, faz questão de incluir em seus discos algumas faixas de autores importantes, porém pouco conhecidos fora do métier da época, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia e Wilson Batista; ou desconhecidos do público, como Jorge Mexeu, Catoni, Zorba Devagar e Walter Alfaiate. Nesse sentido, muitas de suas gravações ajudam a consagrar autores não reconhecidos, mostrando todo o alcance da dimensão artística de compositores como Nelson Sargento, Casquinha, Monarco e Mauro Duarte.

Os discos de Paulinho da Viola colocam lado a lado as suas novas composições com aquelas de sambistas mais antigos, reconhecendo a importância da tradição, bem como a diferença de sua obra em relação aos compositores da geração anterior. Permanece em seu trabalho algo de pesquisa, como o faz César Faria e Jacob do Bandolim. Assim como o conjunto Época de Ouro, Paulinho grava valsas, choros, polcas e maxixes com a intenção de revisitar a tradição do gênero. Também compõe revendo a tradição do samba e do choro. Suas realizações no choro incluem Abraçando Chico Soares (1971) e Choro Negro (1973), parceria com Fernando Costa. Realiza ainda um disco só desse gênero: Memórias Chorando (1976), no qual grava choros autorais, como Romanceando, Rosinha, Essa Menina e Inesquecível, além de interpretar o consagrado Pixinguinha com Os 5 Companheiros, Segura Ele, Cochichando e o pouco conhecido Chorando, de Ary Barroso.

Entre os sambas-enredo gravados está Sei lá Mangueira, música de Paulinho da Viola para versos de Hermínio Bello de Carvalho, que o letrista inscreve no Festival de MPB da TV Record de 1968 sem avisar o parceiro. Esse fato traz grande dor de cabeça para Paulinho de Viola, já que nesse momento é presidente da ala de compositores da Portela. Para desculpar-se e evitar mal-entendidos com os portelenses, compõe Foi um Rio que Passou em minha Vida (Se um dia meu coração for consultado/ Para saber se andou errado/ será difícil negar), uma letra longa combinada a uma estrutura melódica criativa e sem repetições. Em meio à confusão e ao ciúme entre as escolas e seus representantes, compõe dois sambas que se tornam grande sucesso de público, inovam a estrutura dos sambas-enredo e, de quebra, ganha o perdão dos portelenses por ter composto para a Mangueira.

Outra vertente importante de sua obra são os sambas de crônicas da vida cotidiana do subúrbio carioca, como Coisas da Vida, Minha Nega e Dona Santinha e Seu Antenor, de sua autoria, e a parceria Vela no Breu, com letra de Sérgio Natureza, que narra os costumes de um personagem quase mítico da vida boêmia carioca. Outro conjunto de composições é mais próximo da canção, ficando sem definição no samba tradicional. É o caso de Sinal Fechado que, com letra em forma de diálogo, parte de uma melodia de samba-canção para resultar em algo novo. Já Cidade Submersa é um samba-canção, mas com grande influência da poesia moderna e com harmonia modulante. É o próprio Paulinho da Viola quem, no final da gravação afirma: "Não sei por quê, me lembrei de Valzinho", violonista pré bossa nova, de quem ele gravou Doce Veneno (com Carlos Lentine e Goulart) e Óculos Escuros (com Orestes Barbosa).

A partir de sua vivência no choro, Paulinho da Viola produz um tipo de samba mais encorpado no requinte melódico e harmônico. Além de seu coloquialismo vocal bossa novista, também estabelece uma ponte com experimentalismos de vanguarda - como em Sinal Fechado, que deu título ao disco de canções alheias de Chico Buarque, em 1974. O compositor utiliza cravo no lugar de piano em Meu Samba Curto e injeta dissonâncias em gravações como "Consumir é viver/ conviver é sumir", do compositor Marcus Vinícius, e em suas próprias Roendo as Unhas, Comprimido (sobre uma tentativa de suicídio) e Vinhos Finos, Cristais, com Capinan. Ao mesmo tempo, Paulinho é autor do muito citado Argumento, que prega cautela nas reformas:

"Tá legal
eu aceito o argumento
mas não me altere o samba tanto assim
olha que a rapaziada está sentindo a falta
de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim
sem preconceito
ou mania de passado
sem querer ficar do lado
de quem não quer navegar
faça como o velho marinheiro
que durante o nevoeiro
leva o barco devagar".

Outras informações de Paulinho da Viola:

  • Outros nomes
    • Paulo César Batista de Faria
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • Violonista
    • compositor

Fontes de pesquisa (6)

  • COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras: o sentido da tradição na obra de Paulinho da Viola. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002.
  • MÁXIMO, João. Paulinho da Viola: sambista e chorão. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Rioarte, 2002.
  • NEGREIROS, Eliete. Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011.
  • PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. O mar que me navega: sintonias filosóficas em Paulinho da Viola. Tese de doutorado, São Paulo, 2011.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003.
  • VIOLA, Paulinho da. Site oficial do artista. Disponível em: <http://www.paulinhodaviola.com.br>. Acessado em 10 out. 2011.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PAULINHO da Viola. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12592/paulinho-da-viola>. Acesso em: 20 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7