Artigo da seção pessoas Jamelão

Jamelão

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deJamelão: 12-05-1913 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 14-06-2008 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

José Bispo Clementino dos Santos (Rio de Janeiro, RJ, 1913 - Rio de Janeiro, RJ, 2008). Cantor e compositor. Nasce no bairro de São Cristóvão, subúrbio do Rio de Janeiro. No início da década de 1930, a convite do compositor Gradim (Lauro dos Santos), ingressa na escola de samba G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira como tamborinista. No início dos anos 1940, começa a cantar em gafieiras e em programas de calouro, como o Calouros em Desfile, de Ary Barroso, no qual interpreta Ai, que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Vence o concurso da Rádio Clube do Brasil e trabalha com a rádio por um ano. Após esse período, conhece o maestro Severino Araújo, da Orquestra Tabajara, que o contrata como crooner. Em 1949, grava seu primeiro disco 78 rpm na Odeon, que traz A Jiboia Comeu (João Corrêa da Silva e Antenogenes Silva) e Pensando Nela (Antenogenes Silva e Irani de Oliveira).

Em 1949, torna-se intérprete da Mangueira, mas só assume o posto principal em 1952, quando substitui Xangô da Mangueira. É nesse ano que lança, pela Sinter, a marcha Só Apanho Resfriado, de Wilson Batista e Erasmo Silva, e o samba Você Vai? Eu Não, parceria com Pereira Matos. Nessa década, grava diversos discos em 78 rpm, com destaque para os sambas Leviana (Zé Keti), em 1954; Exaltação à Mangueira (Enéas Brites da Silva e Aluízio Augusto da Costa), que se tornaria o hino informal da Mangueira, em 1955; Folha Morta (Ary Barroso), samba-canção de sucesso, em 1956; O Grande Deus (Cartola), em 1958; e Fechei a Porta (Sebastião Mota e Ferreira Santos), sucesso de Carnaval, gravado em 1959. Em 1954, conquista seu primeiro título do Carnaval. No ano seguinte, o samba-enredo As Quatro Estações do Ano, que ele assina ao lado de Nelson Sargento e Alfredo Português, conquista o segundo lugar no Carnaval. Jamelão também é um grande difusor da obra de Padeirinho da Mangueira, de quem grava Mora no Assunto (1952), Deixa de Moda (1954), O Grande Presidente (1960) e Linguagem do Momo (1961). Em 1959, alcança grande sucesso com Ela Disse-me Assim, de Lupicínio Rodrigues, título da coletânea de gravações lançadas em 78 rpm avulsos anteriores. Na década de 1960, destaca-se o lançamento dos LPs Jamelão Canta para Enamorados, e O Autêntico Jamelão (O Bom), alcançando sucesso com Quem Samba Fica (parceria com Tião Motorista, 1965) e Matriz ou Filial (Lúcio Cardim, 1965).

Durante os anos 1970, grava Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues (1972), que contém apenas canções do compositor gaúcho, acompanhadas da Orquestra Tabajara e dos arranjos do maestro Severino Araújo. Em 1974, é a vez do lançamento do disco Os Melhores Sambas-Enredo 75 e, no ano seguinte, do LP Samba-Enredo - Sucessos Antológicos (1976), que conta com sambas-enredos de destaque das décadas de 1950 e 1960, como Casa Grande e Senzala (1975), de Zagaia, Comprido e Leléo. Em 1977, lança o LP Folha Morta, com composições de Lúcio Cardim, entre as quais Deus Perdoa, Ela É Assim (1977) e Foi Feitiço (1977).

Já na década de 1990, além de atuar na Mangueira, também participa da escola de samba Unidos do Peruche, de São Paulo, onde interpreta de 1991 a 1993. Em 1999, é eleito o intérprete do século do Carnaval carioca, prêmio concedido pelo jornal Folha de S.Paulo.

Nos anos 2000, torna-se presidente de honra da Mangueira e continua como intérprete oficial da verde-e-rosa até 2006. Neste ano, sofre um AVC que o impede de cantar profissionalmente até seu falecimento em 2008, no Rio de Janeiro.

 

Comentário Crítico

Jamelão é um dos maiores intérpretes de sambas-enredos, não apenas por sua longevidade, uma vez que conduz a Mangueira de 1949 a 2006, mas principalmente pela qualidade de sua voz e pela sobriedade de sua interpretação, capaz de conduzir e empolgar os componentes na avenida.

Como boa parte dos cantores de sua geração, inicia sua carreira em programas de calouros, grande atração das rádios entre as décadas de 1930 e 1950. Começa a cantar em pequenas gafieiras, algumas sem microfone, tendo de competir com o naipe dos metais. Jamelão possui uma voz de tenor, com grande extensão vocal, timbre metálico, dicção clara e um bom trabalho de respiração, fatores que contribuem para preservar a qualidade de sua voz até os 90 anos de idade. Tecnicamente é um dos cantores mais influentes da MPB, ao lado de vozes como as de Cauby Peixoto e Wilson Simonal. Entre os cantores que o tem como referência está Luis Melodia.

Apesar disso, sua primeira gravação só acontece aos 36 anos, em 1949. Cantor versátil, no início da carreira interpreta baiões, maracatus, choros e marchas. Essa também é uma de suas características marcantes, pois consegue conciliar sambas "de morro" e "de boate", como diz o título de um de seus discos, sem fazer diferenciações. Durante sua profícua carreira, envereda-se em partidos-altos, sambas de terreiro, sambas-enredo e sambas-canção - vertentes muitas vezes divergentes no meio musical.  

Nos anos 1950, alcança grande sucesso como cantor de orquestras dedicadas ao repertório popular, com destaque para sua atuação na Orquestra Tabajara, dirigida pelo maestro e clarinetista Severino Araújo, responsável pela gravação de vários discos do cantor. Jamelão atinge sua maturidade musical e o auge de seu sucesso nos anos 1950 e 1960, como intérprete de sambas-canção, variante do samba que se aproxima do bolero, por contar com andamento lento, melodia romântica e a presença de orquestração e letras amorosas. Trata-se de uma modalidade conhecida também como "samba dor de cotovelo", justamente pelo desencanto e tristeza de suas letras, associados à traição, ao abandono e à solidão. Do repertório de sambas-canção de Jamelão, destacam-se as criadas por Lúcio Cardim, como Matriz ou Filial (1965); Herivelto Martins, com O Teu Fracasso (1965); e principalmente de Lupicínio Rodrigues, que o considera seu maior intérprete. Jamelão dedica dois LPs ao compositor gaúcho, intitulados Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues (1972), e Recantando Mágoas - Lupi, a Dor e Eu (1987), além de várias canções em diversos discos.

Além de sambas-canção e sambas de terreiro, Jamelão é um dos primeiros a gravar sambas-enredo. Seu primeiro LP, de 1957, é Escolas de Samba, que traz sambas-enredo da Império Serrano, Portela, Mangueira e até Cartolinhas de Caxias. Entre os mais conhecidos estão Macunaíma (1974), da Portela; Apoteose ao Samba (1975), da Império Serrano; e Os Sete Tronos dos Divinos Orixás (1989), da escola de samba paulistana Unidos do Peruche.

Ao compor, assina suas canções como José Bispo. Entre elas, está o sucesso de Carnaval Eu Agora Sou Feliz (1963), parceria com Mestre Gato: "Eu agora sou feliz/ Eu agora vivo em paz/ Me abandona por favor/ Porque eu tenho um novo amor/ E eu não lhe quero mais" e Esta Melodia (1959), parceria com Babu: "Esta doce melodia que me faz lembrar/ Daquelas lindas noites ao luar/ Eu tinha um alguém sempre a esperar/ Desde o dia em que ela foi embora/ Guardei essa canção na memória (...) Não suporto mais sua ausência/ Já pedi a Deus, paciência", regravada com destaque por Marisa Monte e Zeca Pagodinho. Vale lembrar que seus sambas-canção são inspirados nos temas sentimentais de Lupicínio Rodrigues e Lúcio Cardim, como Tenho Chorado Tanto (1965) e Boa Noite... Você Por Aqui (1977): "Boa Noite... Você por aqui é novidade/ Quem te trouxe aqui foi a saudade". Também compôs sambas-enredo, como o célebre As Quatro Estações (Cântico à Natureza), feito em parceria com Alfredo Português e Nelson Sargento para o desfile da Mangueira, em 1954: "Oh, primavera adorada/ Inspiradora de amores/ Oh! Primavera idolatrada/ Sublime estação das flores",  sempre lembrada como um dos mais belos sambas da Mangueira.

Jamelão é um dos pioneiros das gravações de partido-alto, gênero de samba normalmente cantado em forma de desafio, por dois ou mais participantes, que improvisam versos a partir de um refrão comum. Desse repertório destacam-se O Samba É Bom Assim (1959), de Norival Reis e Helio Nascimento, cujo refrão é "Pra mim/ Pra mim, o samba é bom/ Quando é cantado assim" e Quem Samba Fica (1968), parceria do próprio Jamelão com Tião Motorista. As interpretações de partido-alto de Jamelão influenciam gerações de sambistas, tornando-se referência para Martinho da Vila e Nei Lopes.

Outras informações de Jamelão:

  • Outros nomes
    • José Bispo Clementino dos Santos
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • compositor

Fontes de pesquisa (7)

  • CABRAL, Sérgio. Mangueira: a nação verde e rosa. São Paulo: Editora Prêmio, 1998.
  • DINIZ, André. Almanaque do samba: o que ouvir, o que ler e onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.
  • JAMELÃO. Entrevista concedida a Bruno Sanches Baronetti em 6 jan. 2006.
  • JAMELÃO. Entrevista concedida a Danilo Vasques. Disponível em: <http://palavrafiandeira.blogspot.com.br/2010/02/palavra-fiandeira.html>. Acesso em 1 jun. 2012.
  • LOPES, Nei. Partido alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2005.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. 912 p. R780.981 M321e 2.ed.
  • PAULINO, Franco. Padeirinho da Mangueira: retrato sincopado de um artista. São Paulo: Editora Hedra, 2005.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JAMELÃO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12578/jamelao>. Acesso em: 21 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7