Artigo da seção pessoas Itamar Assumpção

Itamar Assumpção

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Música / teatro  
Data de nascimento deItamar Assumpção: 13-09-1949 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Tietê) | Data de morte 13-06-2003 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Francisco José Itamar de Assumpção (Tietê, SP, 1949 – São Paulo, SP, 2003). Compositor, cantor, violonista e baixista. Itamar é criado pelos avós em um ambiente ligado à música, já que seu avô é músico de banda e organiza batuques em casa. Aos 12 anos passa a morar com os pais na cidade de Arapongas (PR). O pai, Januário Assumpção, é pai de santo e Itamar toca atabaque nas reuniões religiosas. Nessa cidade passa a juventude, estuda contabilidade, mas não se forma, e aprende a tocar sozinho violão e baixo. Tenta também ser jogador de futebol, sem sucesso, embora tenha sido convidado a jogar nas divisões de base da Portuguesa de Desportos, em São Paulo. Frequenta a cidade Londrina (PR) e começa a atuar em peças de teatro e espetáculos musicais, conhecendo Arrigo Barnabé. Decide se dedicar exclusivamente à música e muda para São Paulo em 1973.

Em 1975, participa de festival de música em Campinas e sai vitorioso com a canção Luzia. No mesmo ano apresenta com sucesso Nego Dito no festival da Feira da Vila Madalena, bairro de São Paulo. Inicia contato com músicos e artistas que formariam a vanguarda paulistana (ou vanguarda paulista). Em 1979, participa com a banda Sabor de Veneno e Arrigo Barnabé do festival de música da TV Cultura de São Paulo com a canção Diversões Eletrônicas, composta por Arrigo, que vence o festival. Nele são revelados ao grande público os artistas da vanguarda paulistana, entre eles Itamar. Esses jovens músicos fazem do Teatro Lira Paulistana ponto de encontro de todos aqueles que procuram produzir e difundir uma “música independente”. Além dos espetáculos, os donos do teatro criam o selo Lira Paulistana para produzir discos. Nele Itamar grava seus três primeiros discos: Beleléu, Leléu e Eu (1980), com a banda Isca de Polícia, Às Próprias Custas S/A (ao vivo, 1983) e Sampa Midnight (1986).

Em 1988, grava pelo acordo Continental-Lira Paulistana o disco Intercontinental! Quem Diria! Era Só o que Faltava!, título que alude à participação da gravadora major Continental na produção do trabalho. No inicio da década de 1990, lança pela gravadora independente Baratos Afins a trilogia Bicho de Sete Cabeças acompanhado pela banda Orquídeas do Brasil, formada só por mulheres, e que traz a participação de Tom Zé e Rita Lee. Em 1995, ganha o prêmio de melhor cantor do ano concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e no ano seguinte grava CD em homenagem a Ataulfo Alves, Pra Sempre Agora. Em 1998, lança Pretobrás – Por que Eu Não Pensei Nisso Antes. Produz também os discos das cantoras Fortuna e Alzíra Espíndola.

Adoentado, deixa de gravar e diminui as atividades artísticas. Falece em 12 de junho de 2003 e suas duas filhas, as cantoras Anelis (que fez parte de sua banda) e Serena Assumpção perpetuam a obra de Itamar em shows e CDs. Em 2004 é lançado o CD póstumo Isso vai Dar Repercussão, fruto da parceria com o percussionista Naná Vasconcelos. Dois anos depois é editado o songbook O Livro de Canções e Histórias de Itamar Assumpção (Ediouro), com dois CDs inéditos. Em 2010, é lançada sua obra completa, Caixa Preta, pelo selo Sesc, também com música inéditas. Em 2012 é lançado, numa coedição entre Itaú Cultural e editora Terceiro Nome, Itamar Assumpção - Cadernos Inéditos, coletânea de textos retirados dos 60 cadernos de anotações do músico, com letras, desenhos e poemas.

Análise

A obra e a trajetória artística de Itamar Assumpção devem ser compreendidas na dinâmica cultural mais ampla que se enuncia entre o final da década de 1970 e o inicio dos anos 1980. Neste momento ecoa entre os jovens o discurso marginal da contracultura, uma prática voltada para uma produção artística “independente”, desvinculada dos mecanismos e sistemas da indústria cultural, que geralmente foca em dois opostos: o mercado e a grande arte. No universo musical esse movimento se desdobra de diversas maneiras: na organização de espetáculos em “espaços alternativos”; na criação de selos, gravadoras e gravações independentes, sem ligação com grandes gravadoras e seus modelos de produção e distribuição; e também na busca de novas linguagens, discursos e narrativas musicais. A cidade de São Paulo concentra e revela boa parte dessa insatisfação com as formas de expressão vigentes, recorrentemente são submetidas à censura devido à ditadura militar no período. Muitos artistas buscam, então, novas formas de pensar e produzir cultura. Uma delas foi denominada pela imprensa da época de vanguarda paulistana. Caracteriza-se como um movimento cultural cujo polo agregador se encontra no Teatro Lira Paulistana, espaço marginal e alternativo de produção. Embora houvesse um caráter de trabalho conjunto e solidário nas ideias e práticas entre seus membros, na realidade o que se concentra e denomina sob esse nome reúne interesses heterogêneos e experiências musicais as mais diversas, como as de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Língua de Trapo, Premeditando o Breque e Itamar Assumpção.

Itamar talvez tenha sido um dos mais identificados com essas posturas “vanguardistas” de “independente”, “marginal” e “alternativo”. Embora não fosse guitarrista, foi chamado à época de “Hendrix da Vila Madalena”, uma alusão às semelhanças físicas, mas também pessoais e artísticas entre eles. O próprio Itamar revela que ouvir Hendrix foi fundamental para seu desenvolvimento como compositor e instrumentista1. Aparentemente, ele faz questão de confundir leitores e ouvintes indicando semelhanças entre seu modo de vida e dos personagens pouco convencionais que se multiplicam em suas canções. Luiz Tatit, que conviveu com o compositor, indica que:         

[...] a negritude, a marginalidade musical, a loucura descrita em muitas passagens das letras, tudo isso convocava a figura magra e enigmática do autor que, por sua vez, nada fazia para dissociar o personagem do ser de carne e osso [...] os desatinos explícitos de Beleléu se misturavam às idiossincrasias do compositor, pouco ou nada afeito a concessões.

O personagem que representa este universo cultural e social “alternativo” e/ou “maldito” é justamente Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, uma espécie de “bandido louco e romântico” que aparece logo no primeiro disco e torna-se marca do compositor. Outras figuras excluídas surgem ao lado do discurso contra os diversos sistemas opressores e censores que se revelam. Em diversas letras Itamar revela insatisfações mais abrangentes com os destinos da sociedade e da cultura brasileira contemporânea, como por exemplo, em Cultura Lira Paulistana (1998). Mas além desse universo, ele também faz canções com temas comuns no cenário da música popular, como canções de amor, sobre cidade de São Paulo, satíricas e bem humoradas.

Seus poemas com frases curtas, ritmo e rimas inusitadas, associados a inúmeras misturas musicais, fazem brotar a fala cantada e são sinais de sua rebeldia e ruptura. Ao mesmo tempo, eles contrastam com as longas histórias que são contadas nas composições. Por isso muitas vezes a fala predomina e aproxima-se do samba de breque ou do rap. Do ponto de vista musical associado aos gêneros, sua obra pode ser identificada pela fusão entre vários deles sem que necessariamente nenhum prevaleça. Itamar se considerava herdeiro das tradições afro-brasileiras, experimentadas desde a infância nos cultos religiosos, mas representadas em sua obra pelo samba. Seu disco em homenagem a Ataulfo Alves estabelece de modo claro e organizado esses vínculos presentes e diluídos em toda obra. Mas as outras escutas e dicções se revelam de maneira explícita em suas canções, no uso dos instrumentos, nos arranjos ou ambientação, como a do reggae, do funk, do rock e também do rap. Itamar arrisca também certas experiências nos limites das dissonâncias, dos ruídos e da fala cantada, certamente produto de suas relações atentas e trocas com outros participantes da vanguarda paulistana. É preciso observar também que suas canções mantém relações diretas e evidentes com a performance, tanto a do intérprete nos discos como nas apresentações ao vivo.

A postura “marginal”, de “rebelde” sem concessões, e as idiossincrasias não impedem Itamar de manter ativa vida artística, apesar de conservar certa amargura por não haver atingido um público mais abrangente. Nos anos 1980, grava quatro discos e na década seguinte mais cinco. Nos anos 1990 seu trabalho composicional alcança maturidade e ocupa lugar próprio no cenário musical brasileiro. Nesta trajetória faz parcerias com inúmeros artistas, entre eles Alice Ruiz, Paulo Leminski, Arrigo Barnabé, Rita Lee e Jards Macalé. Suas canções são gravadas por Ná Ozzetti, Tetê Espíndola, Mônica Salmaso, Zélia Duncan, Chico César, Ney Matogrosso e Cássia Eller, primeira artista do pop-rock a gravá-lo em seu CD de estreia.

Após a morte de Itamar, Arrigo Barnabé escreve e grava, em 2006, o CD Missa in Memoriam - Itamar Assumpção. Em 2010, é lançado pelo Sesc/SP a coleção Caixa Preta, com sua obra completa, acrescida de mais dois CDs, com música inéditas: Pretobrás II - Maldito Vírgula, produzido por Beto Villares, e Pretobrás III - Devia Ser Proibido, produzido por Paulo Lepetit. Deixa ainda manuscritos de alguns livros infantis e de uma ópera urbana chamada Colombo no País das Maravilhas.

Nota

1 In: Palumbo, Patricia. Vozes do Brasil. São Paulo: DBA, 2002.

Outras informações de Itamar Assumpção:

  • Outros nomes
    • Itamar de Assumpção
    • Nego Dito
    • Francisco José Itamar de Assumpção
  • Habilidades
    • Compositor
    • Cantor/Intérprete
    • Violonista
    • Contrabaixista
  • Relações de Itamar Assumpção com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Itamar Assumpção: (4) obras disponíveis:

Espetáculos (1)

Exposições (1)

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Artigo sobre Rumos Itaú Cultural Música. Nelson Ayres, Nouvelle Cuisine, Itamar Assumpção, Marlui Miranda e Jards Macalé (1998 : São Paulo, SP)

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Temas do artigo:  
Data de inícioRumos Itaú Cultural Música. Nelson Ayres, Nouvelle Cuisine, Itamar Assumpção, Marlui Miranda e Jards Macalé (1998 : São Paulo, SP): 28-04-1998  |  Data de término | 28-04-1998
Resumo do artigo Rumos Itaú Cultural Música. Nelson Ayres, Nouvelle Cuisine, Itamar Assumpção, Marlui Miranda e Jards Macalé (1998 : São Paulo, SP):

Itaú Cultural

Fontes de pesquisa (7)

  • CERQUEIRA, Beatriz Lopes Jardim de. “Você já viu aquela menina que tem um balanço diferente?”: a vanguarda musical paulista dos anos 1980. Dissertação de mestrado em História, FFLCH/USP, 2005.
  • CHAGAS, Luiz; TARANTINO, Monica. Pretobrás: por que que eu não pensei nisso antes? O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção. São Paulo: Ediouro, 2006.
  • FALBO, Conrado Vito Rodrigues. Beleléu e Pretobrás: palavra, performance e personagens nas canções de Itamar Assumpção. Dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras, UFPE, 2009.
  • FENERICK, José A. Façanhas às próprias custas: a produção musical da vanguarda paulista (1979 – 2000). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2007.
  • GUIMARÃES, Antonio Carlos Machado. A “nova música” popular de São Paulo. Dissertação de mestrado em Antropologia Social, Unicamp, 1985.
  • OLIVEIRA, Laerte Fernandes de. Em um porão de São Paulo: o Lira Paulistana e a produção alternativa. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2002.
  • PALUMBO, Patricia. Vozes do Brasil. Vol. 1, São Paulo: DBA, 2002.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ITAMAR Assumpção. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12536/itamar-assumpcao>. Acesso em: 17 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7