Artigo da seção pessoas Zeca Pagodinho

Zeca Pagodinho

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deZeca Pagodinho: 04-02-1959 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Jessé Gomes da Silva Filho (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1959). Intérprete e compositor. Quarto filho de uma família de cinco irmãos, nasce no bairro carioca do Irajá. Ainda criança, muda-se com a família para Del Castilho. Antes de seguir carreira artística, trabalha como camelô, office boy, anotador de jogo do bicho e feirante. Inicia-se em música nas rodas de samba do Rio de Janeiro e nas quadras da escola de samba Portela e do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, dois locais importantes para sua formação musical.

Em 1981, estreia como compositor com a canção “Amarguras”, escrita em parceria com Cláudio Camunguelo (1947-2007) e gravada no segundo álbum do grupo Fundo de Quintal. Dois anos depois, o faz o primeiro registro como intérprete na canção “Camarão que Dorme a Onda Leva", coescrita com Beto Sem Braço (1940-1993) e Arlindo Cruz (1958) e gravada em dueto com Beth Carvalho (1946), no disco Suor no Rosto (1983). Em 1985, participa da coletânea Raça Brasileira, organizada pela gravadora RGE, com diversas composições escritas em parceria, como “Leilão” (com Beto Sem Braço) e “Mal de Amor” [com Mauro Diniz (1952) e Beto Sem Braço], além de interpretar “A Vaca” [com Ratinho (1948-2010)] e “Garrafeiro” (com Mauro Diniz) e de dividir os vocais com Jovelina Pérola Negra (1944-1998) em “Bagaço da Laranja” (com Arlindo Cruz). 

No ano seguinte, lança o primeiro disco solo, Zeca Pagodinho, com destaque para as canções “Judia de Mim”, “Brincadeira Tem Hora”, “Quando Eu Contar (Iaiá)”, “Coração em Desalinho”, “SPC” e “Casal Sem Vergonha”. Em 1987, lança Patota do Cosme, cujos maiores sucessos são “Maneiras”, de Sílvio da Silva (1947) e “Tempo de Don-Don”, de Nei Lopes (1942). No ano seguinte, lança Jeito Moleque, que traz as músicas “Manera Mané” [com Beto Sem Braço, Serginho Meriti (1958) e Arlindo Cruz] e “Se Tivesse Dó” [com Nélson Rufino (1942)]. Em 1989, registra no álbum Boêmio Feliz sucessos como “Saudade Louca” e “Minta meu Sonho”.

Na década seguinte, torna-se um dos principais nomes do samba e lança mais quatro álbuns. A carreira deslancha em 1995, com o disco Samba pras Moças, com produção de Rildo Hora (1939), com quem Zeca estabelece constante parceria. Além da canção-título, há composições “Se Eu Sorrir, Tu Não Podes Chorar”, “Vou Botar teu Nome na Macumba”, que lança o parceiro e discípulo Dudu Nobre (1973), e o pot-pourri “Pisa como Eu Pisei/Brincadeira Tem Hora/Quando Eu Contar (Iaiá)”.

Ainda na década de 1990, lança Deixa Clarear (1996), com os sucessos “Verdade” e “Não Sou Mais Disso”; Hoje É Dia de Festa (1997), com “O Dono da Dor”, “Posso Até Me Apaixonar” e “Faixa Amarela”; Zeca Pagodinho (1998), com “Vai Vadiar” e “Seu Balancê”; e o álbum Zeca Pagodinho ao Vivo (1999).

Nos anos 2000, emplaca sucessos em novelas, como “Deixa a Vida me Levar” (faixa que dá nome ao disco de 2002), e ganha quatro Grammys Latinos em 2001, 2002, 2003 e 2006. Sua vasta discografia inclui CDs gravados ao vivo e no formato Acústico MTV (dois volumes).

Análise

Fruto de uma geração de músicos surgida debaixo da folclórica tamarineira1 das tradicionais rodas de samba do Cacique de Ramos, Zeca Pagodinho é um dos responsáveis por mudar o jeito de compor, tocar e cantar samba nos anos 1980. O músico introduz nova sonoridade ao samba, com o tantan, o repique de mão e o banjo. Ele faz com que o samba volte a dialogar com as grandes massas, sem perder qualidade, na década em que outros gêneros, como o rock, dominam o cenário musical brasileiro.

Nos anos 1990, o país registra a explosão do pagode, com surgimento de diversos grupos. Mesmo com o mercado apontando para outros rumos, Zeca não cede a apelos das grandes gravadoras, mantém seu estilo e prova ser possível fazer música para o grande público sem cair nas armadilhas de fórmulas prontas, com melodia e harmonia simplistas.

Para críticos e especialistas, a característica mais marcante da obra do músico é mesclar a influência de mestres do samba, como Hildemar Diniz, mais conhecido como Monarco (1933), Casquinha da Portela (1922), Argemiro da Portela (1923-2003) e Jair do Cavaquinho (1922-2006), com uma presença rítmica marcante. Nesse sentido, Zeca é o discípulo mais bem-sucedido na linha do tempo do samba. Do convívio com grandes nomes do samba, criado em Oswaldo Cruz e Madureira, aprende a fazer e cantar o gênero nas mais variadas vertentes. Sabe compor na forma genuína e tradicional – como os sambas de terreiro, que conhece pelos mestres portelenses –, ao mesmo tempo em que cria canções melodiosas e dolentes, que falam de amor.

Desde jovem, Zeca Pagodinho é considerado no meio musical como especialista do partido-alto, sabendo versar de improviso, seja qual for o tema, na fogueira das rodas de samba. Compondo como grande partideiro, ele identifica bons sambas de outros autores, sobretudo os da vertente de sambas jocosos – estilo filiado às crônicas urbanas, que retratam cenas do cotidiano e fazem humor com tipos sociais. Nessa linha, dá voz a composições de diversos sambistas, com destaque para Marquinhos Diniz, Luiz Grande e Barbeirinho do Jacarezinho (1950), do Trio Calafrio, de quem grava sucessos como “Caviar”, “Dona Esponja” e “Parabólica”. Além deles, grava composições de Zé Roberto, com “Vacilão” e “Penetra”; e Alamir Boêmio, Canário (1949) e Roberto Lopes, com “Ratatúia”. Zeca Pagodinho também interpreta autores tradicionais, como Monarco e Ratinho, com o clássico “Vai Vadiar”. Suas gravações são usadas em diversas trilhas de novelas, como Hipertensão (1986), com “Judia de Mim”, na primeira trilha da qual participa; Passione (2010), com “Garanhão”; e Avenida Brasil (2012), com a música “Verdade”. 

Na carreira, sobretudo na segunda metade dos anos 1990, Zeca Pagodinho deve grande parte do sucesso às longevas parcerias com dois nomes renomados no meio musical: o produtor, arranjador e gaitista Rildo Hora e o também arranjador e violonista Paulão Sete Cordas (1958). Ao lado deles, Zeca imprime a característica marcante de seus registros: gravações que chegam a contar com mais de 30 músicos, combinando uma pulsação rítmica e percussiva vibrante com a sofisticação de cordas, coros femininos e naipes de metal.

A harmonia dos sambas é formada por acordes simples, não fugindo à regra de intervalos maiores e menores. As melodias são comparadas pelo sambista Monarco às de Manacéia (1921-1995), compositor e instrumentista da Velha Guarda da Portela. Elas quase sempre estão ligadas a uma estrutura desenvolvida em duas partes e um refrão curto.

No canto, Zeca Pagodinho é respeitado por críticos e especialistas pela divisão e pelo fraseado modernos, sempre emocionais, aliados à voz rouca, desenvolvida em décadas de boêmia. Em discos ou nos palcos, Zeca Pagodinho imprime sua marca. Tem a assinatura de autenticidade e o cantar natural de quem vive o samba com devoção religiosa ao mais popular gênero musical brasileiro. Não por acaso, nomes como Wilson Moreira (1936), Nei Lopes, Martinho da Vila (1938), Arlindo Cruz, Nelson Rufino, Monarco, Casquinha, Roque Ferreira (1947), Beto Sem Braço, entre tantos, confiam-lhe o respeito em parcerias ou cedem-lhe músicas que se tornam clássicas na voz de Zeca Pagodinho.

Notas

1 Essa tamarineira fica na quadra da escola de samba do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Conta a lenda que é abençoada por Mãe Menininha do Gantois (1894-1986) e que os sambistas que compõem sob ela alcançam sucesso.

 

Outras informações de Zeca Pagodinho:

  • Outros nomes
    • Jessé Gomes Silva Filho
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor

Obras de Zeca Pagodinho: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (2)

  • MELLO, Zuza Homem de; SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo - 85 anos de músicas brasileiras Vol. 2: 1958-1985.  2. ed. São Paulo, Editora 34, 1999.
  • VIANA, Luiz Fernando. Zeca Pagodinho: a vida que se deixa levar. Rio de Janeiro: Rio Arte: Relume-Dumará, 2003. (Perfis do Rio).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ZECA Pagodinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12464/zeca-pagodinho>. Acesso em: 14 de Ago. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7