Artigo da seção pessoas Vicente Celestino

Vicente Celestino

Artigo da seção pessoas
Música / teatro  
Data de nascimento deVicente Celestino: 12-09-1894 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 23-08-1968 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Antônio Vicente Filipe Celestino (Rio de Janeiro RJ 1894 - São Paulo SP 1968). Cantor, compositor e ator. Filho de um casal de imigrantes calabreses e irmão dos cantores Antonio (baixo), Pedro (tenor) e Radamés (barítono), e do ator Amadeu. Começa a cantar aos oito anos no grupo Pastorinhas da Ladeira do Viana. Aprende o ofício de sapateiro com o pai e desenho industrial no Liceu de Artes e Ofícios. Desde criança assiste às companhias líricas que passam pelo Rio de Janeiro. Em 1903, aos nove anos, desperta a atenção do tenor italiano Enrico Caruso ao participar de um coro infantil da ópera Carmen, de Georges Bizet (1838 - 1875). A partir do início dos anos 1910, passa a se apresentar em festas, serenatas, casas de chope, teatros de revista, operetas e burletas - principalmente no Teatro São José, em São Paulo, que o contrata como corista em 1915. Nesse ano grava a valsa Flor do Mal (Santos Coelho e Domingos Corrêa), na Casa Édison (RJ). Em 1917, inicia o estudo do canto lírico no Teatro Municipal, depois de recusar convite para estudar em Milão, Itália, devido à proibição de seu pai. Entre 1917 e 1923, canta importantes óperas e operetas e participa de burletas, período em que começa a cruzar o país com apresentações musicais ou teatrais. Também em 1917, grava Urubu Subiu, desafio sertanejo com Bahiano, o cantor de Pelo Telefone. Em 1921, integra o elenco na ópera Tosca, de Giacomo Puccini (1858 - 1924), e Aida, de Giuseppe Verdi (1813 - 1901) no Teatro Lírico. É um dos primeiros a gravar discos pelo sistema elétrico, lançando, em 1928, Santa (Freire Júnior). Em 1929, grava o samba-canção Linda Flor (Henrique Vogeler e Cândido Costa) e o tango-fado Luar de Paquetá (Freire Júnior e Hermes Fontes), pela gravadora Odeon.

Estreia em 1930 sua carreira de compositor ao registrar um 78 rotações com Quando Eu Te Vi e Vovô e Vovó (composta com Atílio Milano). Em 1933 se casa com a atriz e cineasta Gilda de Abreu (1904 - 1979), com quem contracena na opereta Alvorada do Amor (1934), de Otávio Rangel, no Teatro João Caetano (RJ). Assina contrato com a gravadora RCA Victor em 1934 e, dois anos depois grava a canção O Ébrio, que posteriormente é adaptada para o teatro (1942), vira romance e filme (1946), este com direção de Gilda de Abreu. Em 1935, para de cantar ópera em teatro para se dedicar às canções; lança disco de 78 rpm com os tangos-canções Rasguei o Teu Retrato (Cândido das Neves) e Ouvindo-te, de sua autoria. Em 1937, grava Patativa e Coração Materno, vertida em peça teatral em 1947, e em 1951 em filme, adaptada e dirigida novamente por Gilda de Abreu. Com Mário Rossi assina Esquecimento, Se Ela Voltasse e Sangue e Areia. Na década de 1940, compõe sonetos e, em 1960, grava Serenata do Adeus, de Vinicius de Moraes. Em 1959, leva a opereta A Viúva Alegre à TV Tupi. Em 1967, recebe do júri do Festival Internacional da Canção, organizado pela TV Globo, o diploma de A Expressão Máxima da Canção, e Caetano Veloso grava Coração Materno no disco Tropicália ou Panis et Circensis (1968), considerado o álbum inaugural do movimento tropicalista.

Comentário crítico

Fã do tenor italiano Enrico Caruso (1873 - 1921) e do ator, cantor e humorista francês Maurice Chevalier (1888 - 1972), Vicente Celestino é dono de uma popularidade que atravessa gerações. Ao lado de Francisco Alves (1898 - 1952), é um dos raros cantores brasileiros (entre tenores e barítonos) que migra com sucesso da era da gravação mecânica - dominante nos anos 1920 e que exige dos intérpretes potente emissão vocal - para a fase elétrica (1927). No novo sistema, A Voz Orgulho do Brasil - como é conhecido - grava cerca de 137 discos em 78 rpm com 265 músicas, 10 compactos e 31 LPs, que incluem reedições dos 78 rpm.

Como autor, Vicente Celestino começa a esboçar seus "dramalhões" a partir de 1924. Seis anos depois, grava sua primeira composição (Quando Te Vi), e somente em 1936, com o tango-canção Ouvindo-te, começa a fazer sucesso. Assina sozinho a maior parte de sua obra, como Patativa (1937), O Ébrio (1936), Mia Gioconda (1946) e Coração Materno (1950). De seus poucos parceiros, Mário Rossi é o mais constante (Se Ela Voltasse, Alma de Palhaço, Pecaminosa, Sangue e Areia e Terra Virgem). Suas criações se apropriam da "vocação para o dramático" presente no tango de Carlos Gardel (1890 - 1935); são influenciadas pela linguagem e temática românticas de Catulo da Paixão Cearense; incorporam o pessimismo e a amargura das valsas e canções de Cândido das Neves (1899 - 1934); e desses dois últimos, o compositor assimila os versos rebuscados. Constrói um discurso musical em que o romantismo exacerbado, a defesa da moral da época (ojeriza ao adultério) e a "vitória da virtude e punição do vício" (detestável, mas perdoável) são referências.

Em sua música há um caráter político-social quando retrata a degradação do homem, que se dá tanto pelo alcoolismo, representado em composições como O Ébrio (em que narra a trajetória desgraçada do dr. Gilberto), como pelo desespero pela perda da mulher amada, inspiração de Matei ("Senhor delegado  / Eu sou um assassino / Entrego-me à prisão / Cumprindo o meu destino (...) Reconheci ser dela / Na casa à força entrei / Matei o falso amigo / E a mulher que amei").

Celestino poucas vezes se utiliza do recurso da terceira pessoa, do narrador onisciente. Um dos raros exemplos esta na dramática Coração Materno. Trata de um camponês que assassina a mãe e arranca-lhe o coração para provar a paixão por uma mulher. A canção alimenta a antropofagia tropicalista de Caetano Veloso, que a regrava em 1968 no LP Tropicália ou Panis et Circenses.

Patativa representa a melhor expressão seresteira de Vicente Celestino. O pequeno pássaro personifica o lirismo parnasiano do autor, em que expõe o amor sem medida - acima até da religião -, a dor da incompreensão, a ingratidão, a esperança e a saudade ("Acorda, patativa, vem cantar / Relembra as madrugadas que lá vão / E faz de tua janela o meu altar").

Herança das óperas e operetas, as letras de suas canções têm apelo cênico e se tornam enredos de fácil transposição para outras linguagens artísticas, como o teatro e o cinema. São micro-óperas populares. Suas composições de maior sucesso - O Ébrio e Coração Materno -ganham versões cinematográficas de igual ou maior êxito pelas mãos da atriz Gilda de Abreu, sua esposa e biógrafa. Essas produções são protagonizadas pelo músico, que ampliam sua popularidade.

Apesar de extensa, sua obra é pouco regravada. E Celestino é o seu principal intérprete. Entre os artistas que a registraram, destaque para Lindomar Castilho (Ouvindo-te e Minha Mãe) - seu herdeiro estético -, Agnaldo Rayol (Mia Gioconda), Jair Rodrigues (O Ébrio) e Agnaldo Timóteo (Porta Aberta).

Outras informações de Vicente Celestino:

  • Outros nomes
    • Antônio Vicente Filipe Celestino
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete
    • ator
    • diretor de teatro

Espetáculos (4)

Fontes de pesquisa (10)

  • ENCICLOPEDIA DA MÚSICA BRASILIEIRA: Popular, Erudita e Folclórica. 2ª ed. São Paulo: Art Editora: Publifolha, 1998.
  • ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu Não Sou Cachorro, Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2002.
  • GAVIN, Charles; SOUZA, Tárik de; CALADO, Carlos; DAPIEVE, Arthur. 300 Discos Importantes da Música Brasileira. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2008.
  • ABREU, Gilda de. Minha Vida com Vicente Celestino. São Paulo: Butterfly Editora, 2003.
  • ABREU, Gilda. As Canções na Vida de Vicente Celestino. São Paulo: Editora Cupolo, 1956.
  • CABRAL, Sérgio. No Tempo de Ari Barroso. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1993.
  • CLIQUEMUSIC. Rio de Janeiro, 2001. Disponível em: <http://www.cliquemusic.com.br/artistas/ver/vicente-celestino> Acesso em: 10.set.2009.
  • COLEÇÃO REVISTA DA MÚSICA. Rio de Janeiro: Funarte: Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006. Edição fac-similada da coleção completa da Revista da Música Popular, editada por Lúcio Rangel e Pérsio de Moraes, de 1954 a 1956 (14 números).
  • DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Site mantido pelo Instituto Cultural Cravo Albin. Rio de Janeiro, s/d. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br>  Acesso em: 10.dez.2009.
  • GUERRA, Guido. Vicente Celestino - O Hóspede das Tempestades. Rio de Janeiro: Record, 1994.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VICENTE Celestino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12454/vicente-celestino>. Acesso em: 12 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7