Artigo da seção pessoas Lamartine Babo

Lamartine Babo

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / música  
Data de nascimento deLamartine Babo: 10-01-1904 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 16-06-1963 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Lamartine de Azeredo Babo (Rio de Janeiro RJ 1904 - idem 1963). Compositor. Filho de Leopoldo de Azeredo Babo e Bernardina Gonçalves Babo, de família de classe média e certa tradição musical. Frequenta a escola, formando-se no Colégio Pedro II. Já experimenta nessa época algumas composições, como Pindorama (1915), o foxtrote Torturas de Amor (1917) e Ave Maria (1919), e cria a opereta Cibele, mesmo sem ter estudado música. Pretendia ingressar na Escola Politécnica, mas a morte do pai, em 1917, associada a outras dificuldades financeiras, obriga o jovem a desistir dos estudos e a trabalhar na Light (1920-1924).

Nesse período frequenta a boêmia carioca e revela sua vocação para o humor e a sátira. Escreve em revistas de costumes e humor como Dom Quixote (1928), dirigida por Bastos Tigre, e Paratodos (1924). Na trilha do humor, a partir de 1925 contribui para inúmeras revistas musicadas, além de arriscar a compor suas próprias peças. Dessa década até os anos 1930, torna-se assíduo e destacado compositor de teatro de revista, do qual tira seu sustento.

É quando conhece o compositor Eduardo Souto, que o apresenta ao universo dos ranchos e blocos carnavalescos, para o qual começa a compor. Inicia assim sua carreira como compositor de marchinhas, que o consagra na radiofonia, nos concursos e festas carnavalescos dos anos 1930. E fica conhecido como o novo Rei do Carnaval, com o sucesso de marchinhas como A.B.Surdo (1931) e A.E.I.O.U (1932) - ambas em parceria com Noel Rosa -, O Teu Cabelo Não Nega (1932), Linda Morena (1933), Marchinha do Grande Galo (1935), Grau Dez (1935), este com Ary Barroso, Cantores de Rádio, com Braguinha e Alberto Ribeiro (1936), Joujoux e Balangandãs (1939), Hino do Carnaval Brasileiro (1939). No fim da década compõe raramente para o Carnaval.

Em fins de 1929, inicia carreira radiofônica na Rádio Educadora com Ary Barroso, parceiro em sucessos como No Rancho Fundo (1931) e Grau Dez. Sua trajetória na rádio evolui e consolida-se a partir de seu primeiro programa, Horas Lamartinescas (1930-1933), no qual mistura piadas, sketches e musical. Apresenta inúmeros programas musicais em várias emissoras e, nos anos 1940, cria o Trem da Alegria, que se torna seu mais famoso e permanente programa. É nele que compõe os hinos para todos os times cariocas de futebol.

Os anos 1950 representam uma mudança em sua vida. Afasta-se da boêmia, dedica-se à militância da defesa dos direitos autorais na União Brasileira de Compositores (UBC), da qual se torna diretor e presidente em 1950, casa-se com Maria José, em 1951, e encerra a carreira radiofônica, com a morte, em 1956, de seu parceiro Héber de Bôscoli. Em 1958, faz sucesso com a marcha-rancho Os Rouxinóis, lançada também no disco Isto É Lamartine Babo - Os Rouxinóis (1963), pela gravadora Copacabana. No início de 1963 o empresário Carlos Machado elabora a produção do espetáculo O Teu Cabelo Não Nega, baseado na vida de Lamartine, que chega a frequentar alguns ensaios, mas sofre um infarto e falece em 16 de junho.

 

Comentário Crítico

A bibliografia da música popular trata de modo geral a vida e obra de Lamartine Babo, constituída por três tempos básicos e tradicionais: ascensão, apogeu e decadência. Assim, ela classifica linearmente as composições da juventude nos anos 1920, seguida pelo sucesso entre os anos 1930 e 1940 e o declínio e esquecimento em meados dos anos 1950, até sua morte, em 1963. Embora seja possível identificar essa dinâmica - que na realidade é a de quase todos os compositores de sua geração, com raras exceções -, ela é limitadora e empobrece a riqueza e a diversidade da trajetória desse artista popular que tem múltiplas características e variantes ocorrendo simultaneamente.

Em primeiro lugar, sua obra mostra as mudanças culturais e musicais que se revelam na cidade do Rio de Janeiro nas décadas de 1920-1930 e com elas colabora de maneira decisiva. Marcadas pelas várias formas do entretenimento urbano em expansão e os meios de comunicação em construção, elas apontam para uma incrível variedade de experiências musicais que se manifestam, principalmente nos diversos gêneros urbanos em decantação, como a marchinha e o samba carnavalescos. Lamartine, ao lado de João de Barro, está no centro desse processo de criação da "marcha carnavalesca", já enunciado em período anterior por Sinhô e Eduardo Souto, que é quem o introduz nesse universo. O compositor capta muito bem as necessidades rítmicas (samba ou marcha carnavalesca), melódicas (simples e fáceis de memorizar) e temáticas (muito humor, paródias, crítica do cotidiano) exigidas pela rede formada pelo Carnaval, indústria fonográfica e radiofônica. A canção dirigida a esse circuito tem o objetivo claro de alcançar sucesso nos meses que antecedem as festas carnavalescas. Depois do sucesso concentrado nesse período, a tendência é o esquecimento e novas marchas são compostas no ano seguinte. Seguindo essa dinâmica, Lamartine compõe anualmente marchinhas de sucesso que vencem vários dos concursos de música carnavalesca dos anos 1930.

Embora sigam essa lógica, várias de suas canções - de maneira integral ou parcial - perdem essa função utilitária, caem no gosto popular e sedimentam-se na memória coletiva. Isso pode muito bem ser identificado em canções como OTeu Cabelo Não Nega, Marchinha do Grande Galo ("co-co-co-co-coró-có, co-co-co-co-coró-có, o galo tem saudades da galinha carijó"), Linda Morena, História do Brasil ("Quem foi que inventou o Brasil? / Foi seu Cabral  no dia 21 de abril. / Dois meses depois do Carnaval..."), Canção para Inglês Ver (na qual mistura e rima palavras em português, inglês e francês), Grau Dez e Joujoux e Balangandãs. Apesar de sua voz fina e fanhosa, Lamartine grava muitos dos seus sucessos, numa época em que se privilegia a potência vocal.

Contudo sua trajetória não se limita a esse universo das marchinhas que o distingue e o consagra na história da música popular. A facilidade de compor marchinhas, paródias e canções com melodias ágeis e de fácil memorização, repletas de humor e crítica de costumes o torna compositor sempre presente e requisitado no teatro de revista. Assim, ele também produz de maneira consistente e criativa para esse entretenimento popular nas décadas de 1920 e 1930 enquanto tem papel relevante na difusão da música popular.

Ele compõe ou coloca canções nas peças Aguenta Filipe (1923), Prestes a Chegar (1926), Para Todos, Paulista de Macaé e Para Inglês Ver (1927), É da Fuzarca (1928), Vai Haver o Diabo (1929), Aí, Hein (1933), Linda Morena (1933), Foi Seu Cabral (1934), entre outras. Chega a escrever também suas próprias peças, como Pequeno Polegar, Este Mundo Vai Mal e Na Penumbra (1926). Com o declínio do gênero, algumas de suas fórmulas, quadros e canções são transportados por Lamartine para os programas de rádio e cinema. Na tela ele inclui canções e participa de A Voz do Carnaval (1933), Alô, Alô, Carnaval (1936), Joujoux e Balangandãs (1946), No Trampolim da Vida (1946) e Pra Lá de Boa (Fuzarca Carioca), 1949. Mas é na radiofonia que Lamartine realiza plenamente a união entre humor, crítica de costumes e canção popular. Apresenta, com sua voz inconfundível e irônica, inúmeros programas entre as décadas de 1930 e 1940, como as Horas Lamartinescas (Rádio Educadora), Canção do Dia (Mayrink Veiga, 1933), Clube da Meia Noite (Nacional, 1937), Vida Pitoresca dos Compositores da Música Popular (1937). Entre 1942 e 1956 comanda seu mais famoso programa, o Trem da Alegria, com a participação do Trio de Osso, relativo à magreza de seus integrantes, Lamartine, Héber de Bôscoli e Iara Sales, e contraponto ao Trio de Ouro de Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas.

Lamartine compõe também canções fora do período carnavalesco (e por isso são conhecidas na época como "sambas-de-meio-de-ano"), que também se tornam grandes sucessos e se consagram na memória musical do Brasil. Assim ocorre com as singelas e bucólicas No Rancho Fundo, Serra da Boa Esperança, as valsas Eu Sonhei que Tu Estavas tão Linda e Mais uma Saudade, e também com aquelas do ciclo junino Chegou a Hora da Fogueira e Isto É Lá com Santo Antônio. Além disso, incitado por Héber de Bôscoli, no programa Trem da Alegria, dedica-se à produção dos hinos dos times de futebol do Rio de Janeiro (Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco da Gama, América - do qual é torcedor - e Bangu) que acabam sendo incorporados oficial e definitivamente pelos clubes e torcedores.

A trajetória de Lamartine apresenta um artista de múltiplas faces, profundamente vinculado e sintonizado com seu tempo, participando ativamente da expansão do entretenimento musical urbano, do carnaval à radiofonia. A importância de sua obra é revelada no interesse de seus contemporâneos - parceiros (como Noel Rosa, Ary Barroso, Henrique Vogeler) e intérpretes (Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas) - e das gerações mais recentes (de Os Mutantes a As Frenéticas, Alfredo Del-Penha, Henrique Cazes e Chitãozinho e Xororó), mas, sobretudo, por sua fixação na memória social da música popular.

Outras informações de Lamartine Babo:

  • Outros nomes
    • Tom Mixto
    • Lamartine de Azeredo Babo
  • Habilidades
    • Compositor
    • Poeta

Obras de Lamartine Babo: (2) obras disponíveis:

Exposições (2)

Fontes de pesquisa (10)

  • Acervo Instituto Moreira Salles. Disponível em:  http://ims.uol.com.br/ims/. Acesso em: 07 out. 2012.
  • ALENCAR, Edigar de, O carnaval carioca através da música, 3ª ed., RJ, Ed Francisco Alves, 1979.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antonio Marcondes. São Paulo: Art editora Ltda, 1977.
  • MARIZ, Vasco. A canção Brasileira: erudita, folclórica, popular. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • Nova História da Música Popular Brasileira, Lamartine Babo, SP, Editora Abril, 1977.
  • SANDRONI, Carlos, Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933), RJ, Jorge Zahar Ed./Ed.UFRJ, 2001.
  • TATIT, Luiz, O cancionista. Composição de canções no Brasil. SP, Edusp, 1996.
  • TINHORÃO, José Ramos, História social da música popular brasileira, SP, Ed 34, 1998.
  • VALENÇA, Suetônio Soares, Tra-la-lá. Lamartine Babo. RJ, 2ª ed., Ed. Velha Lapa/Banco Real, Funarte, 1989.
  • VASCONCELOS, Ary,. Panorama da música popular brasileira. RJ, Ed.Martins, 1965.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LAMARTINE Babo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12268/lamartine-babo>. Acesso em: 15 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7