Artigo da seção pessoas Pixinguinha

Pixinguinha

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Música  
Data de nascimento dePixinguinha: 23-04-1897 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 17-02-1973 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Pixinguinha Tocando Saxofone , ca. 1940

Biografia

Alfredo da Rocha Vianna Filho, "Pixinguinha" (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1897 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1973). Instrumentista, compositor, orquestrador e maestro. Caçula, entre doze irmãos, aos 11 anos, aprende a tocar cavaquinho, mas sua arte se manifesta na flauta e, depois, no saxofone. Passa a infância num ambiente artístico em que o pai é hábil flautista, os irmãos também são músicos, e na casa são comuns as rodas de choro. Sua formação inclui o estudo formal da música, o que lhe possibilita ler e escrever partituras, fato pouco habitual entre os músicos populares. Posteriormente, obtém certificado no curso de teoria musical no Instituto Nacional de Música. Nos anos 1930, torna-se funcionário da prefeitura e leciona música em várias escolas cariocas.

Ainda muito jovem, frequenta a casa da baiana tia Ciata, um dos pontos de encontro de músicos como João da Baiana (1887 - 1974), Donga (1890 - 1974), Sinhô (1888 - 1930), Caninha e Heitor dos Prazeres (1898 - 1966), intelectuais como João do Rio (1881 - 1921), Manuel Bandeira (1886 - 1968) e Francisco Guimarães, e um dos lugares de gestação do samba no Rio de Janeiro no início do século XX. Pelo Telefone (Donga e Mauro de Almeida), reconhecido oficialmente como o primeiro samba a ser gravado, em 1917, tem o endereço de origem nas rodas musicais da casa da baiana tia Ciata. Com 14 anos, Pixinguinha participa da orquestra do rancho carnavalesco Filhas da Jardineira, e conhece Donga e João da Baiana, parceiros importantes em toda sua trajetória. Toca em diversos cabarés do bairro boêmio da Lapa e na orquestra do Cine-Teatro Rio Branco.

Edita pela primeira vez, em 1914, uma composição de sua autoria, Dominante, e passa a integrar o Grupo do Caxangá. Nesse momento, é reconhecido como talentoso compositor e flautista, genial em sua criatividade e interpretação. Duas composições suas, o choro Sofres porque Queres e a valsa Rosa, são gravadas pelo grupo Choro do Pixinguinha em 1917. O ano de 1918 tem importância singular em sua carreira, é quando Pixinguinha e Donga organizam o conjunto musical os Oito Batutas. Além de excursionar pelo Brasil, o grupo se apresenta em Paris, no Dancing Shéhérazade, e em Buenos Aires, em 1922.

Nos anos 1920, compõe e faz arranjos para o teatro de revista, a exemplo da peça Tudo Preto, produzida por João Cândido Ferreira e encenada pela Companhia Negra de Revista no Rio de Janeiro. A peça, reeditada em setembro de 1926 com o nome Preto no Branco, conta no elenco com a participação do então jovem ator Grande Otelo. Além dos arranjos para o teatro, Pixinguinha trabalha como orquestrador na indústria fonográfica. Grava diversos discos como instrumentista e várias músicas de sua autoria na década de 1930. Em 1937, duas composições suas tornam-se grande sucesso de público na voz de Orlando Silva - Rosa (letra de Otávio de Souza) e Carinhoso (letra de João de Barro). Essas músicas são repetidamente gravadas, tanto pelos intérpretes da velha guarda quanto pelos mais contemporâneos, como Caetano Veloso e Marisa Monte.

Pixinguinha troca a flauta pelo saxofone nos anos 1940 e, como saxofonista, grava dezenas de choros com o flautista Benedito Lacerda. Nessa época, participa do programa O Pessoal da Velha Guarda do radialista Almirante. Lança seu primeiro LP, o disco Carnaval da Velha Guarda, em 1955, com a participação de seus músicos e de Almirante. Três anos depois, o grupo Velha Guarda é escolhido para recepcionar os jogadores brasileiros vitoriosos na Copa do Mundo, conquistada na Suécia. No início dos anos 1960, cria a trilha sonora do filme Sol sobre a Lama, de Alex Viany, lançado em 1963. Seis composições do filme têm a letra escrita por Vinicius de Moraes, entre elas, Lamento e Mundo Melhor.

Análise

Compositor de uma obra musical extensa, Pixinguinha transita por gêneros como a valsa, polca, maxixe, samba, choro. Mas é no choro que melhor expressa sua arte.

A obra do compositor, uma das mais importantes matrizes da música popular brasileira, ao introduzir elementos da música afro-brasileira e da música rural nos arranjos dos chorões, contribui para diversificar o gênero com um matiz particularmente brasileiro. É o caso da composição Os Oito Batutas, gravada em 1919. Posteriormente, esse título deu nome ao primeiro conjunto de música popular a conquistar fama nacional e internacional, que tem em sua formação inicial Pixinguinha (flauta), China (canto, violão e piano), Donga (violão), Raul Palmieri (violão), Nelson Alves (cavaquinho), José Alves (bandolim e ganzá), Jacó Palmieri (pandeiro) e Luís de Oliveira (bandola e reco-reco). Aliás, a brasilidade da música de Pixinguinha, somada à descendência afro-brasileira dos integrantes do Oito Batutas, é questionada por parte da imprensa e críticos, que com um discurso de cunho eurocêntrico e racista desqualificam a música nacional. A exemplo da ida de Pixinguinha e o conjunto Oito Batutas a Paris em 1922, jornais e revistas fazem a crítica admitindo que esses artistas representam um Brasil negro, atrasado e inferior. Mas há apontamentos a favor que enaltecem a qualidade dos músicos e a originalidade das composições.

O conjunto surge do convite feito a Pixinguinha e Donga por Isaac Frankel, proprietário do cine Palais, localizado no centro elegante da belle époque carioca, para formar uma pequena orquestra para a sala de espera do cinema. O repertório de maxixes, canções sertanejas, batuques, cateretês e choros inova, pois, as orquestras de cinema, até então, apresentam a chamada música fina: valsas vienenses e tangos. Anunciado como a única orquestra que fala alto ao coração brasileiro, Oito Batutas se torna a atração da casa. Entre 1919 e 1921, financiado pelo milionário carioca Arnaldo Guinle, com a supervisão do maestro Heitor Villa-Lobos, excursiona por diversas capitais do Brasil, cabendo a Pixinguinha pesquisar o folclore musical desses lugares. Isso se explica num contexto de intenso debate sobre a identidade nacional. A turnê celebra o sucesso do grupo entre o público brasileiro e repete o êxito, quando, em 1922, se apresenta no elegante Dancing Shéhérazade de Paris. "Les Batutas" são aplaudidos com entusiasmo pelo público francês.

No fim dos anos 1920, a crítica faz uma série de restrições estéticas a duas composições de Pixinguinha. Nesse momento, não é o que elas contêm de brasilidade; mas sim de inovação. Os choros Lamento (1928) e Carinhoso (composto em 1917 e gravado pela primeira vez em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga) são feitos em duas partes, em vez de três, fato interpretado como uma inaceitável influência do jazz. É certo que o jazz inspira o compositor. Pixinguinha entra em contado direto com essa musicalidade em Paris, por meio dos shows das jazz-bands americanas a que assiste nas casas de espetáculos da capital francesa. Não por acaso, na volta ao Brasil, em agosto de 1922, grava dois foxtrotes: Ipiranga e Dançando, ambos de sua autoria. Em 1923,  Oito Batutas se recompõe com o nome de Bi-Orquestra os Batutas. Na avaliação do compositor, que, além de flautista, passa a integrar o conjunto como saxofonista, a mudança propõe um estilo mais identificado com os novos tempos, ou seja, o jazz. De fato, tanto os arranjos quanto o timbre do sax dão uma coloração mais moderna à sonoridade do grupo. O que não quer dizer a vulgarização de sua brasilidade. Pixinguinha troca definitivamente a flauta pelo saxofone, em 1942.  Nesse ano, faz sua última gravação como flautista, num disco com dois choros de sua autoria: Chorei e Os Cinco Companheiros. A nova fase de Pixinguinha inclui dezenas de registros em disco com o flautista Benedito Lacerda. A dupla corresponde a um momento singular do choro. Nessas gravações, a criatividade de Pixinguinha destaca-se nos contrapontos que ele desenvolve no sax tenor, como resposta às melodias executadas na flauta por Lacerda.

A formação de Pixinguinha inclui amplo acesso ao universo da música erudita, bem como ao conhecimento do código formal da linguagem musical. Disso resulta a qualidade artística de seu trabalho como orquestrador. Num primeiro momento, ele faz arranjos para o teatro de revista, e, a partir de 1928, logo após a implantação da gravação elétrica no Brasil, para a indústria do disco, sobretudo para o selo Odeon. As partituras de Pixinguinha inovam, no desenho harmônico, melódico ou rítmico, há uma marca de brasilidade formatado em seus arranjos. Até então, os arranjadores seguem a escola italiana. O estilo de Pixinguinha, tributário do contexto sociocultural de sua trajetória, tem contribuição importante em determinada forma de orquestração, que, em síntese, vai configurar a música popular brasileira da primeira metade do século XX

Outras informações de Pixinguinha:

  • Outros nomes
    • Alfredo da Rocha Vianna Filho
    • Alfredo da Rocha Vianna
    • Alfredo da Rocha Viana Filho
  • Habilidades
    • regente/maestro
    • compositor
    • arranjador
    • flautista
    • saxofonista
  • Relações de Pixinguinha com outros artigos da enciclopédia:

Representação (1)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (8)

  • EPAMINONDAS, Antônio. Brasil brasileirinho. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1982.
  • BASTOS, Rafael José de Menezes. Les Batutas, 1922: uma antropologia da noite parisiense. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. vol.20, n.58. São Paulo, Jun. 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092005000200009#back1a>. Acessado em: 03 mai. 2010.
  • CABRAL, Sergio. Pixinguinha: vida e obra. São Paulo: Lumiar,1997.

    COLEÇÃO HISTÓRIA DO SAMBA. vol. 9. São Paulo: Globo, 1998.
  • HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. São Paulo: Editora Abril, 1982.
  • SILVA, Marília Trindade Barboza da; OLIVEIRA FILHO, Arthur L. de. Pixinguinha, filho de Ogum bexiguento. Rio de Janeiro: Gryphus, 1998.
  • ALENCAR, Edgar de. O fabuloso e harmonioso Pixinguinha. Rio de Janeiro: Editora Cátedra - MEC, 1979.
  • BRAGA, Sebastião. O Lendário Pixinguinha. Niterói: Muiraquitã, 1995.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo I: 85 anos de músicas brasileiras (1901-1957). 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1998. v. 1. 366 p. (Ouvido Musical) 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PIXINGUINHA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12197/pixinguinha>. Acesso em: 12 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7