Artigo da seção pessoas Raul Torres

Raul Torres

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Música  
Data de nascimento deRaul Torres: 11-07-1906 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Botucatu) | Data de morte 12-12-1970 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Raul Montes Torres (Botucatu, São Paulo, 1906 - São Paulo, São Paulo, 1970). Compositor e cantor. Seus pais, imigrantes espanhóis, chegam ao Brasil em 1898. A morte do pai obriga a família a mudar-se para Itapetininga, São Paulo, em 1917. Três anos depois, se transfere para a capital paulista, e vai morar na Barra Funda. Ainda garoto, Torres começa a entregar lenha no bairro e logo se torna cocheiro oficial da prefeitura com ponto no Jardim da Luz. Em 1923, é contratado pela Companhia de Estrada de Ferro Sorocabana, segue carreira na empresa e se aposenta em 1954.

Influenciado pela moda sertaneja do Nordeste, vinda da cidade do Rio de Janeiro, Raul Torres organiza nos anos 1920 os conjuntos Turunas Paulistas - imitando o conjunto pernambucano Turunas da Mauriceia - e os Chorões Sertanejos. Com os Turunas, lança seu primeiro disco, pela Parlophon. No fim dessa década participa de gravações na Turma Caipira Cornélio Pires, com o pseudônimo Bico Doce. De 1927 a 1970, segue carreira na radiofonia paulistana, passando pela Rádio Educadora Paulista, Rádio Record, Rádio Cruzeiro do Sul e novamente pela Record com o programa Os Três Batutas do Sertão.

Como compositor e intérprete, grava emboladas, modas, toadas e sambas, e algumas músicas alcançam sucesso inesperado como a batucada A Cuíca Tá Roncando (1934), muito cantada no carnaval carioca de 1935, e a Moda da Mula Preta (Victor, 1945). Inicia parceria com João Pacífico (1909-1998) com a gravação da embolada Seu João Nogueira, em 1935. Ao lado do poeta registra dezenas de composições que se tornam clássicos da música caipira como Chico Mulato (1936), Cabocla Tereza (1940), Pingo d'Água (1944) e No Mourão da Porteira (1942).

Entre 1937 e 1942 forma sua primeira dupla com o sobrinho Serrinha (Antenor Serra), que grava centenas de canções como a Moda da Pinga (Victor, 1940) e a valsinha Saudades de Matão (1938) - que gera grande polêmica em torno de sua autoria, e a contragosto de Torres tem de dividir os créditos com Jorge Galatti e Antenógenes Silva. Em 1942 forma a dupla Torres e Florêncio (João Batista Pinto), cujas interpretações colaboram para consagrar o gênero sertanejo. Pouco mais tarde a dupla forma com o acordeonista José Rielli o trio Os Três Batutas do Sertão, e apresenta programa homônimo na Rádio Record até o falecimento de Torres, em 12 de dezembro de 1970. Nas décadas de 1950 e 1960 suas composições começam a ser gravadas por outros intérpretes e a famosa dupla lança alguns LPs.

Análise

A obra de Raul Torres está fortemente identificada como uma das precursoras do que convencionalmente se chama de música sertaneja. No entanto, sua carreira artística e radiofônica revela grande diversidade. Compositor e intérprete de inúmeros gêneros musicais como embolada, moda de viola, samba, toada, valsa e guarânia, ele trata de divulgar intensamente essa vasta obra no rádio, em discos e espetáculos, e torna-se um radialista e empresário muito bem-sucedido.

Raul Torres nasce no interior de São Paulo, vive parte da infância em duas pequenas cidades, mas passa integralmente sua vida na capital paulista em período de grande expansão modernizadora. Apesar disso, ele acredita que suas referências culturais interioranas não se perdem. Mas não são elas que formam a primeira fase de compositor e intérprete, marcada pelos gêneros do Norte e Nordeste, fruto da "moda" originária da capital do Brasil, sobretudo a embolada. A "música caipira" circula nos anos 1920 e 1930 pela capital paulista, apresentada por Cornélio Pires (1884-1958). Seu êxito estimula o interesse das gravadoras e emissoras de rádio, que tratam de apresentar discos e programas com essa temática regional. Nesse ritmo, a música caipira salta sem muitas transições e intermediações do mundo rural e local para o universo dos meios de comunicação. É na convergência desses movimentos que desponta Raul Torres.

Quando se associa definitivamente ao compositor João Pacífico, e logo em seguida ao parceiro e sobrinho Serrinha, é que sua obra se define claramente em direção à cultura caipira. Suas composições e performances colaboram para consolidar os ritmos, temáticas e interpretações que se tornam característicos da música sertaneja. Com João Pacífico, cria e divulga a "toada histórica", isto é, canções como Chico Mulato (1936) e Cabocla Tereza (1940), que tem uma longa introdução de poesia declamada para contar a história e preparar o espírito do ouvinte para a canção que se segue.

A forma de cantar em dupla - inicialmente com Serrinha e posteriormente consagrada com Florêncio - no intervalo de terças em registro vocal médio e suave torna-se referência para as duplas caipiras do período. Somente no fim da década de 1950 a dupla Tonico e Tinoco se apresenta com registro de voz mais agudo e estridente, passa a predominar nos anos seguintes e permanece por muito tempo.

Raul Torres também tem papel importante na introdução dos chamados "ritmos latinos" na música sertaneja, como já se nota em Meu Cavalo Zaino (Victor, 1939). De suas viagens ao Paraguai ele traz a guarânia, influente na música sertaneja nos anos 1950, e introduz, com Nhô Pai (José Alves dos Santos), autor de Beijinho Doce, o rasqueado - movimento utilizado pelos violeiros paraguaios que consiste em pulsar as cordas da viola com as costas da mão, do qual deriva a "moda campeira".

A importância e a influência de Raul Torres na conformação da denominada música sertaneja podem ser medidas pelas dezenas de gravações realizadas por seus contemporâneos, como Tonico e Tinoco, Luiz Gonzaga - que leva para o universo nordestino a Moda da Mula Preta, que ele grava duas vezes, em 1948, como moda e, em 1958, como baião. E também pelos intérpretes atuais de características e origens variadas, como Rolando Boldrin (1936), Sérgio Reis, Inezita Barroso (1925-2015) - que o conhece quando criança, pois seu pai era amigo do compositor -, Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo.

Outras informações de Raul Torres:

  • Outros nomes
    • Raul Montes Torres
    • Bico Doce
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor
  • Relações de Raul Torres com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Raul Torres: (5) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (8)

  • Acervo Instituto Moreira Salles. Disponível em: http://homolog.ims.com.br/php/index.php?lang=pt. Acesso em: 17 dez. 2009.
  • CALDAS, Waldenyr. O que é música sertaneja. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. (Coleção Primeiros Passos 186)
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.
  • FREIRE, Paulo. Eu nasci naquela serra. A história de Angelino de Oliveira, Raul Torres e Serrinha. São Paulo: Ed.Paulicéia, 1996.
  • MORAES, José Geraldo Vinci. Metrópole em sinfonia: História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 2000.
  • MUGNANI JUNIOR., Ayrton. Enciclopédia das músicas sertanejas. São Paulo: Letras e letras, 2001.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • TINHORÃO, José Ramos. Os gêneros rurais urbanizados. In: Pequena história da música popular. São Paulo: Circulo do livro, s/d.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RAUL Torres. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12170/raul-torres>. Acesso em: 23 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7