Artigo da seção pessoas João Nogueira

João Nogueira

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deJoão Nogueira: 12-11-1941 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 05-06-2000 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

João Batista Nogueira Júnior (Rio de Janeiro RJ 1941 - idem 2000). Compositor e cantor. Filho do advogado e músico João Batista Nogueira, que chega a integrar o regional de Rogério Guimarães, fica órfão aos 10 anos. Começa a compor ao lado da irmã Gisa Nogueira, aos 15, idade em que também passa a trabalhar como office-boy. Nascido no Bairro do Méier, aos 17, passa a frequentar shows amadores em clubes da região, de onde se origina o bloco carnavalesco Labareda do Méier. Atua como compositor desse bloco, chegando a ser seu diretor. Para o bloco compõe, entre outras, Espere, Oh! Nega, sua primeira obra a ser gravada, em 1969, acompanhado pelo futuro conjunto Nosso Samba.

Entre os frequentadores do Labareda do Méier está o filho da cantora Elizeth Cardoso, Paulo César Valdez, que mostra as composições de João Nogueira a sua mãe. A cantora escolhe Corrente de Aço para ser gravada no LP Falou e Disse, de 1970. No ano seguinte o locutor e apresentador Adelzon Alves convida Nogueira para gravar duas faixas no LP Quem Samba Fica... Adelzon Alves Mete Bronca e a Moçada do Samba Dá o Recado. Nesse disco são gravadas Mulher Valente É Minha Mãe e O Homem de um Braço Só, homenagem a Natalino José do Nascimento, "Natal", presidente da Escola de Samba Portela. O primeiro grande êxito comercial do compositor é Das 200 para Lá, gravado na voz de Eliana Pittman em 1971, mesmo ano em que vence com Sonho de Bamba um concurso na Portela e passa a integrar sua ala de compositores. Clara Nunes grava seu samba Meu Lema, parceria com a irmã Gisa, e Morrendo de Verso em Verso. Em 1972, lança pela Odeon João Nogueira, seu primeiro LP, que além de composições suas como Morrendo de Verso em Verso, Beto Navalha e Alô Madureira traz sambas de compositores como Egberto Gismonti (Pr'um Samba) e Casquinha da Portela (Maria Sambamba).

E Lá Vou Eu, de 1974, seu segundo disco, marca o início da parceria com Paulo César Pinheiro. São cinco faixas assinadas pela dupla, inclusive a faixa-título, Batendo à Porta, e Eu hein, Rosa!, gravada posteriormente por Elis Regina. Outra parceria desse disco é com Gisa, que assina também os sambas Meu Canto sem Paz e Eu Sei Portela. Com os discos Vem quem Tem (1975) e Espelho (1977), firma sua carreira como cantor e compositor, lançando a partir de então um disco por ano até o fim da década de 1980.

Em 1979 funda o Clube do Samba, cuja sede é sua própria casa no Méier. Tem o objetivo de preservar o samba em um momento no qual, segundo Nogueira, a música brasileira perde espaço nas rádios e os músicos têm menos trabalho. Cria o estatuto do clube com o diplomata Antonio Carlos Austregésilo de Athayde. Depois de sua casa, a sede do clube passa pelo Flamengo (Morro da Viúva), Botafogo (Associação dos Servidores Civis do Brasil) e Clube Municipal da Tijuca até chegar à sede permanente, uma casa de shows na Barra da Tijuca.

Atua como ator no filme Quilombo, de Cacá Diegues, em 1984, fazendo o papel de Rufino da Portela. Em 1998 participa dos CDs Chico Buarque de Mangueira e Balaio do Sampaio, em homenagem a Sérgio Sampaio. Em 2000, com o Esquina Carioca, canta ao lado de Beth Carvalho, Nelson Sargento e Walter Alfaiate.

Análise

João Nogueira é um dos principais sambistas surgidos com a renovada projeção que o samba tradicional ganha nos anos 1970. No fim da década de 1960, Martinho da Vila já tem alguns sucessos que proporcionam novo vigor ao samba. Por essa época surgem também, entre outros nomes, Roberto Ribeiro, Nadinho da Ilha e o experiente partideiro Aniceto do Império, que, ao lado de Nogueira, gravam faixas no disco Quem Samba Fica... Adelzon Alves Mete Bronca e a Moçada do Samba Dá o Recado, em 1971, tipo de coletânea chamada de pau de sebo, na qual a gravadora EMI testa o êxito comercial dos artistas antes de lançar discos solos.

Admirador confesso de Noel Rosa, Nogueira se intitula "sambista de calçada", filho de advogado e nascido em bairro de classe média. Wilson Batista, sambista da malandragem, já havia aconselhado a Noel Rosa: "Perde a mania de bamba / todos sabem qual é / o teu diploma no samba", referindo-se a seu bacharelado em medicina. Igualmente admirador de Batista, Nogueira vincula-se com seu estilo suburbano tanto ao samba do morro quanto ao da cidade, deixando de lado uma possível rixa. É o próprio Nogueira que define esse estilo em samba gravado no disco Espelho (1977): "Eu bem que sabia / que o samba que eu tinha na mente / era diferente com jeito de Wilson, Geraldo, Noel", em alusão aos compositores Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa, trio a quem dedica o repertório do disco Wilson, Geraldo e Noel, gravado em 1981. No disco Vida de Boêmio, de 1978, ele musica uma carta de Noel Rosa.

Dono de um estilo particular de cantar, o modo como Nogueira "derrama" suas melodias sobre o ritmo é de alguém que conhece o antigo mestre dos atrasos e adiantamentos Orlando Silva e João Gilberto. Ao mesmo tempo, sua divisão precisa e criativa coloca-o na tradição de sambistas sincopados como Geraldo Pereira. Essas tendências juntam-se em um canto gerando um balanço inconfundível, característica constante de sua música. Compondo em variados estilos, esse tempero suburbano é mistura sempre presente em suas composições. Transita com facilidade pelos subgêneros do samba, da seresta ao samba-exaltação.

Coleciona parcerias com nomes como Mauro Duarte, Paulo César Feital, Ivor Lancelotti, Maurício Tapajós, Edil Pacheco, Nei Lopes, Nonato Buzar e Paulo César Pinheiro, este seu parceiro mais constante, com quem compõe os cinco primeiros enredos para o desfile da Escola de Samba Tradição, entre 1985 e 1989, e divide o disco Parceria - João Nogueira e Paulo César Pinheiro, de 1994. Essa parceria ainda assina As Forças da Natureza, Chorando pela Natureza, O Poder da Criação e Minha Missão, enredos gravados por intérpretes como Clara Nunes, Alcione, Beth Carvalho e por ele mesmo. Em temática que se refere ao próprio samba compõe Eu Sei Portela (com Gisa Nogueira), Sonho de Bamba, O Homem de um Braço Só - como integrante da ala de compositores da Escola de Samba Portela - e ainda Vem Quem Tem, Vem Quem Não Tem, uma crítica à venda de lugares de destaque no desfile da escola.

Entre os partidos-altos estão Clube do Samba, Eu Não Falo Gringo (com Nei Lopes), Nó na Madeira (com Eugênio Monteiro) e seu primeiro grande êxito comercial, Das 200 pra Lá, gravado por Eliana Pittman. Esse partido-alto integra o conjunto de sambas com temática política, defendendo o decreto militar que aumenta a abrangência do mar territorial brasileiro de 12 para 200 milhas marítimas ("Vá jogar a sua rede / Das 200 para lá / Pescador dos olhos verdes / Vá pescar em outro lugar"). O samba lhe rende citações na revista Times e alguns desafetos que o acusam de contribuir com o patriotismo exagerado do regime militar. Da mesma forma, Partido Rico exalta o incorporador imobiliário Sérgio Dourado, que domina o bota-abaixo de boa parte das casas da zona sul carioca. Na temática política e crítica social estão Canto do Trabalhador e Chico Preto (com Paulo César Pinheiro), além dos diversos enredos e marchas do bloco do Clube do Samba como Ai, ai, ai, como Estou Endividado (1983), que trata do empréstimo do governo brasileiro pedido ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e Vai Tirando o Seu da Reta, Queremos Direta (1984), contribuindo com o movimento popular que pede eleições diretas. Em 1989 lança pela gravadora Ideia Livre O Grande Presidente, um disco em homenagem à memória de Getúlio Vargas, cantando ao lado de Beth Carvalho.

A voz de timbre grave e encorpado marca também gravações de sambas mais lentos, parte igualmente importante de sua obra. O autobiográfico Espelho alcança grande êxito, rendendo-lhe um videoclipe no programa Fantástico, da TV Globo, e algumas regravações. Entre os choros estão Bares da Cidade, mais uma parceria com Pinheiro, e Chorando pelos Dedos (com Cláudio Jorge), uma homenagem ao bandolinista e chorão Joel Nascimento. Quedas e Curvas (com Ivor Lancellotti) e Mariana da Gente são sambas-canções, e Braço de Boneca (com Pinheiro) um misto de valsa e samba-canção.

Passa pelo samba de breque com Baile no Elite (com Nei Lopes) e com a interpretação de Malandro JB, de Nei Lopes e Renato Barbosa, no disco Espelho. Ainda no samba lança Moda da Barriga ("O dia que barriga virar moda / realmente vai ser fogo pra poder me aturar / Ninguém vai resistir aos meus encantos / e a TV do Silvio Santos vai querer me contratar") e Because Forever ("No carnaval do ano que vem / Do jeito que a coisa vai meu bem / Vai sair todo mundo nu / Sambando e remexendo o 'corpis'"), a última em parceria com Antônio Carlos Bernardes Gomes - Mussum, que a grava em disco de 1987. Compõe também em gêneros diversos como o afoxé De Amor É Bom, Ecoloxê, e o samba de roda baiano Mel da Bahia, todos em parceria com o compositor e violonista baiano Edil Pacheco.

Outras informações

  • Outros nomes
    • João Batista Nogueira Júnior
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete

Fontes de pesquisa (5)

  • A MÚSICA BRASILEIRA deste século por seus autores e intérpretes - João Nogueira. Registro do programa Ensaio da TV Cultura, dirigido por Fernando Faro. Produzido por J.C. Botezelli - Pelão. Sesc São Paulo/ JCB, 2000. Gravado originalmente pela Fundação Padre Anchieta para o programa MPB Especial em 05/03/1975 dirigido por Fernando Faro.
  • DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete João Nogueira, versão online disponível em http://www.dicionariompb.com.br/joao-nogueira. Visitado em 05/06/2011.
  • PROGRAMA Ensaio TV Cultura: João Nogueira. Direção de Fernando Faro, São Paulo, 2006.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica, São Paulo: Ed. 34, 2003.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. 912 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOÃO Nogueira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12147/joao-nogueira>. Acesso em: 28 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7