Artigo da seção pessoas Mestre Marçal

Mestre Marçal

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Música  
Data de nascimento deMestre Marçal: 1930 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 1994 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Nilton Delfino Marçal (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1930 – Idem, 1994). Percussionista, mestre de bateria, compositor e cantor. Nascido no subúrbio carioca de Ramos, é filho de Armando Vieira Marçal (1902-1947), o Marçal. Aos 7 anos, toca tamborim na Escola de Samba Recreio de Ramos, agremiação que dá origem à Imperatriz Leopoldinense. No mesmo período, além da cuíca do pai, toca outros instrumentos de ritmo, como surdo, agogô, pandeiro, ganzá e caixa. Com pouca formação escolar, cresce no meio musical, convivendo com compositores como Paulo da Portela (1901-1949), Cartola (1908-1980), Nelson Cavaquinho (1911-1986), Candeia (1935-1978), Carlos Cachaça (1902-1999). Na década de 1940, inicia carreira como cantor, e apresenta-se em pequenas casas do Rio, como Palestrina, Líder e Fogão. Como instrumentista, participa do elenco de músicos de importantes gravadoras, como a Odeon, durante oito anos, e da Rádio Nacional, por mais de duas décadas.

Na década de 1960, comanda a bateria da Escola de Samba Portela e segue a carreira no Império Serrano e na Unidos da Tijuca. 

Ao longo da trajetória artística, participa das gravações de discos de vários artistas, como A Arca de Noé (1980), de Vinicius de Moraes (1913-1980); Água Viva (1978), de Gal Costa (1945); Bugre (1986), de Ney Matogrosso (1941), Caetano Veloso (1968), de Caetano Veloso (1942); Camaleão (1978), de Edu Lobo (1943); Circense (1980), de Egberto Gismonti (1944); Elis (1972), de Elis Regina (1945-1982); Talismã (1980), de Maria Bethânia (1946); Pilão + Raça = Elza (1977), de Elza Soares (1937), entre outros. 

Em 1974, grava compacto duplo, incluindo o tema "Nem Eu", composto por seu pai e Bide, e registra o álbum Nira Congo, acompanhado pelo grupo Baluartes. Em 1979, ganha projeção como intérprete solista com o disco Marçal Interpreta Bide e Marçal, com coro formado por Chico Buarque (1944), Milton Nascimento (1942), Clara Nunes (1943-1983), Martinho da Vila (1938), João Nogueira (1941-2000), Paulinho da Viola (1942), Elton Medeiros (1930), Dona Ivone Lara (1922), Roberto Ribeiro (1940-1996), Miúcha (1937), Cristina Buarque (1950) e Gonzaguinha (1945-1991). 

Nos anos seguintes, grava discos do mesmo gênero – mesclando sambas elegantes e dolentes com outros mais animados, explorando as diversas vertentes do gênero brasileiro. Destaque para Recompensa (1985), Senti Firmeza (1986), A Incrível Bateria de Mestre Marçal e Sem Tamborim Não Vou (ambos de 1987), Entre Amigos (1990) e Sambas Enredo de Todos os Tempos (1993), seu último registro como intérprete. 

Em 1996, é homenageado por Paulo César Pinheiro (1949) e Wilson das Neves (1936), na música "Mestre Marçal", gravada no disco O Som Sagrado de Wilson das Neves. A partir de 1998, integra a banda de Chico Buarque. É pai do também percussionista Marçalzinho (1956), que grava com inúmeros artistas renomados da música brasileira.

Análise

Nilton Delfino Marçal é daqueles casos em que o personagem é indissolúvel de seu meio. Impossível dissociá-lo do samba. Sua vida é um mergulho intenso no gênero mais reconhecido e exportado do Brasil. 

Por influência do pai,  Armando Vieira Marçal, Mestre Marçal nasce rodeado pela sonoridade do samba e pela personalidade de um legítimo sambista. Até os últimos anos de vida, recorda histórias do Estácio envolvendo célebres sambistas, como Brancura (Sílvio Fernandes, c. 1908-1935), Bide (Alcebíades Barcellos), Mano Edgar (Edgar Marcelino dos Passos), Nilton Bastos (1899-1931), Camisa Preta, Amor (Getúlio Marinho da Silva, 1889-1964), Mano Rubens (Rubens Barcellos), Ismael Silva (1905-1978), Heitor dos Prazeres (1898-1966), Geraldo Vagabundo, Baiaco (Osvaldo Caetano Vasques, c.1913-c.1935), entre outros. 

Na infância, por várias vezes, falta às aulas, perdendo-se no meio do caminho da escola em batucadas e, eventualmente, desfiles de blocos no subúrbio de Ramos. Aos 7 anos, convive com figuras importantes do meio musical e aprende a tocar diversos instrumentos de ritmo. Aos 9 anos, participa pela primeira vez de um desfile pela agremiação fundada por seu pai, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Recreio de Ramos, posteriormente Imperatriz Leopoldinense.

Ganha o apelido de Mestre Marçal na década de 1960, quando exerce a função de mestre de bateria de escolas de samba. Inicia a carreira no Império Serrano. Nessa escola, desenvolve uma de suas maiores contribuições para a sonoridade dos desfiles carnavalescos: a introdução de tímpanos – instrumento até então relacionado à música erudita –, que ele mesmo toca na bateria da escola. Torna-se precursor de inúmeras inovações que outros mestres tentam acrescentar às suas baterias. 

Temperamental, após desentendimento com a diretoria da Império Serrano, desliga-se da agremiação e atua na Portela. Desde então, sua imagem é ligada à escola de Oswaldo Cruz, onde permanece no comando da bateria por duas décadas. Nos anos seguintes, passa também por escolas como Unidos da Tijuca e Viradouro.

O apelido de “mestre” se encaixa perfeitamente a Marçal. Durante anos, ele coma os ritmistas de diferentes escolas – com as particularidades, raízes e formações de cada bateria – com extrema eficiência, pois conhece todos os instrumentos de ritmo e sabe orientar e corrigir os músicos com precisão e propriedade. Em 1970, comanda a bateria da Portela na memorável execução do samba-enredo "Lendas e Mistérios da Amazônia", que conquista o carnaval daquele ano. A escola repete o feito nos anos de 1980 e 1984, último título levantado pela agremiação de Madureira. 

Além do universo das escolas de samba, Mestre Marçal torna-se um dos percussionistas mais requisitados do país. Participa de gravações em estúdio com os maiores nomes da música brasileira – não só figuras relacionadas ao universo do samba. Ao longo da carreira, imprime sua assinatura em registros antológicos, como "Tiro ao Álvaro", gravado por Elis Regina; "Eleanor Rigby", por Caetano Veloso; "Vai Passar", por Chico Buarque; "Espinha de Bacalhau", por Paulo Moura (1933-2010); "Folhas Secas", por Beth Carvalho (1946); “Passado de Glória”, com Monarco (1933); e “Amor é Assim”, por Paulinho da Viola.

A partir da década de 1970, Marçal concretiza uma antiga vontade. Desde jovem, além de exímio ritmista, o músico cantarola composições de seu pai e de outros compositores consagrados. Em 1978, ganha reconhecimento como intérprete pelo antológico disco Marçal Interpreta Bide e Marçal, produzido por Fernando Faro (1927-2016) para a gravadora Odeon. No disco, registra sucessos da dupla do Estácio, encadeando-os em forma de pout-porri. No repertório, destaque para temas como "Agora é Cinza", "A Primeira Vez", "Barão das Cabrochas", "Sorrir", "Meu Sofrer", "Velho Estácio" e "Tu Não Sabes Mais o que Há de Querer". Em todas as faixas, ele é acompanhado por um coro formado por artistas como Milton Nascimento, Chico Buarque e Clara Nunes. Na época, o conjunto de vozes é batizado de “coro dos milhões”, alusão ao valor dos cachês dos artistas que, por reverência a Marçal, não cobram nada pela participação no disco do mestre. 

O instrumental também conta com a participação de nomes importantes, como Dino Sete Cordas (1918-2006) (violão de sete cordas), Meira (1909-1982) (violão), Canhoto (cavaquinho), Luizão Maia (1949-2005) (baixo), Abel Ferreira (1915-1980) (clarinete e sax alto), Zé Bodega (1923-2003) (sax tenor), entre outros.

Esse disco revela o estilo sóbrio, mas suingado de cantar de Marçal. Com divisões e fraseados perfeitos, ele canta sambas tradicionais com  personalidade. Seu estilo influencia nomes como Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho (1959), Wilson Moreira (1936), Arlindo Cruz (1958), Sombrinha (1959), Jorge Aragão (1949), Nei Lopes (1942), Wilson das Neves, Reinaldo, Mauro Diniz, entre outros.

Seu estilo permanece nos outros sete álbuns lançados, com destaque para Sem Tamborim Não Vou (1987) e Recompensa (1985). Este último, além de repertório impecável – com sambas como "Ando na Orgia", de Bide e Marçal, "Samba do Avião", de Tom Jobim (1927-1994) e “O Bicho Vai Pegar”, de sua autoria –, conta com participações da bateria da Portela, Wilson das Neves e Rafael Rabelo (1962-1995).

Outras informações de Mestre Marçal:

Fontes de pesquisa (7)

  • BOTTESELLI, J. C.; PEREIRA, Arley. A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. São Paulo: Sesc, 2003. v. 5.
  • FRANCESCHI, Humberto M. Samba de sambar do Estácio: 1928 a 1931. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010.
  • GIRON, Luis Antonio. Mario Reis: o fino do samba. São Paulo: Editora 34, 2001.
  • MARQUES, Carlos. Sílvio Caldas: o seresteiro do Brasil. Fortaleza: Editora UFC, 2008.
  • MELLO, Zuza homem de; SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras. v. 1: 1901-1957. 5. ed. São Paulo: Editora 34, 2002. (Ouvido Musical).
  • NEGREIROS, Eliete Eça. Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros Escritos. Rio de Janeiro: Ateliê Editorial, 2011.
  • WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido - Uma Outra História das Músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MESTRE Marçal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12010/mestre-marcal>. Acesso em: 10 de Jul. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7