Artigo da seção pessoas Heitor Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / música  
Data de nascimento deHeitor Villa-Lobos: 05-03-1887 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 17-11-1959 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Heitor Villa-Lobos (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1887 - Idem, 1959). Compositor, regente e violoncelista. Filho de Raul Villa-Lobos, músico amador e autor de livros didáticos e Noêmia Umbelina Santos Monteiro. Ainda criança, estuda música com o pai e toca clarineta e violoncelo. Com o pai assiste a ensaios e concertos para se habituar à música instrumental e adquire disciplina para ouvir música de câmara. A tia paterna, Leopoldina Villa-Lobos do Amaral, pianista, apresenta-lhe a obra do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), referência para toda sua vida. Acompanha o pai nos saraus na casa do amigo Alberto Brandão, local onde se reúnem músicos e poetas do nordeste brasileiro. Convive com a música sertaneja, do interior de Minas Gerais, para onde seus pais se mudam temporariamente.

Com a morte do pai, em 1899, ajuda no sustento da família tocando violão e violoncelo. Começa a tocar na noite, em teatros, cinemas, cafés, bailes etc. Torna-se amigo de músicos importantes dos grupos de choro, como Sátiro Bilhar (1860-1926), João Pernambuco (1883-1947), Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). O pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934) é outra referência importante e apresentam-se juntos em recitais de música de câmara. Em 1905, faz sua primeira viagem ao nordeste na qual recolhe canções folclóricas. Tem aula de composição com os professores Frederico Nascimento (1853-1924) e Agnelo França (1875-1964). Este ajuda-o muito, embora de Villa-Lobos sempre contrarie as regras aprendidas. Em 1910, é contratado como violoncelista de uma companhia de operetas e compõe com mais intensidade. Casa-se com a pianista Lucília Guimarães (1886-1966) em 1913, que realiza primeiras audições de obras do compositor.

Na década de 1920, escreve os Doze Estudos para violão, dedicados ao violonista espanhol Andrés Segovia (1893-1987). Para Segovia a obra representa, na literatura violonística, o que são os Estudos do pianista polonês-francês Frederic Chopin (1810-1849) para o piano. Nessa mesma década, compõe a série de Cirandas e Cirandinhas para piano, as Serestas para canto e piano e a série dos Choros, ciclo de 14 obras para diferentes formações.

Em 1922, participa da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, ao lado do crítico Mário de Andrade (1893-1945) e do escritor Oswald de Andrade (1890-1954). Entre 1927 e 1930, dedica-se a outro ciclo fundamental, o das Bachianas Brasileiras. Em 1931, reúne 60 mil pessoas em uma comemoração cívico-artística no parque Antártica, com patrocínio do interventor federal no estado de São Paulo, João Alberto (1897-1955). Em 1936, separa-se de Lucília e casa-se com Arminda Neves de Almeida, a Mindinha, com quem vive até a morte, em 1959. Com um catálogo que ultrapassa mil títulos, Villa-Lobos compõe óperas, concertos para violão, piano, violoncelo, 12 sinfonias, fantasias, música sacra, música de câmara, obras orquestrais, canções e outras peças essenciais para a literatura pianística: como o Ciclo Brasileiro, Prole do Bebê e o Rudepoema, dedicado ao pianista Arthur Rubinstein (1887-1982).

Análise

Em 1909, é inaugurado o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, um teatro que tem como referência o modelo parisiense. Começam a fazer parte de seus programas as óperas dos italianos Gaetano Donizetti (1797-1848), Vincenzo Bellini (1801-1835), Giacomo Puccini (1858-1924) e Giuseppe Verdi (1813-1901). Enquanto o repertório de óperas é predominantemente italiano, a música de salão é de compositores franceses.

Nesse momento, surge uma cultura popular que fascina Villa-Lobos: o choro, que passa a ser tocado nas ruas, em lugares públicos, nos bares. Aprende a tocar violão para poder participar dos grupos de choro. O primeiro grupo de que participa é o do violonista Quincas Laranjeiras (1873-1935).

A convivência no ambiente do choro carioca, a participação em orquestras de cinema, a excursão pelo nordeste num grupo de músicos mambembes, tudo isso possibilita a Villa-Lobos a experiência musical que marca sua trajetória. Uma música fluente, espontânea e pouco afeita aos cânones tradicionais. A capacidade de descobrir, inventar efeitos instrumentais, substituir a linguagem pianística ou da arte tradicional da orquestração e da harmonia levam Villa-Lobos a ser um dos mais inovadores compositores do século XX.

Na década de 1910, o modelo ainda é o modernismo francês da virada do século. Os anos que antecedem sua partida para a Europa são de afirmação profissional para ser aceito por seus pares. Nessa época, sua produção é marcada pela influência francesa e sem elementos estéticos da música popular, com a qual ele tem intimidade.

A partir do contato com o compositor Darius Milhaud (1892-1974), a cantora Vera Janacopoulus (1892-1955) e o pianista Arthur Rubinstein, em 1917, no Rio de Janeiro, suas composições apresentam formas e estruturas mais livres. Ainda as escreve de acordo com compositores como Claude Debussy (1862-1918), mas a estada em Paris e o convívio com a música do russo Igor Stravinsky (1882-1971) e do húngaro Béla Bartók (1881-1945) levam-no a liberar as possibilidades latentes na sua experiência com a música urbana carioca.

A consolidação de sua carreira passa pelas obras da década de 1920, principalmente as séries dos Choros, das Cirandas e das Cirandinhas. Estas composições fazem parte do período em que Villa-Lobos vive em Paris, onde obtém o reconhecimento que lhe abre as portas em nosso país. “O ineditismo de algumas soluções rítmico-melódicas demonstradas em alguns desses choros ou ainda o novo tratamento timbrístico acabaram favorecendo a ampla aceitação de Villa-Lobos por setores da crítica e do público francês”, observa o pesquisador Arnaldo Contier (1941) em sua tese de livre docência Brasil novo, música, nação e modernidade: os anos 1920 e 1930.

Ao chegar a Paris, em 1923, encontra um cenário cultural em que as ideias de Debussy são contestadas por uma nova vanguarda musical, formada por nomes como o do francês Erik Satie (1866-1925) e o chamado Grupo dos Seis: Georges Auric (1899-1983), Louis Durey (1888-1979), Arthur Honegger (1892-1955), Darius Milhaud (1892-1974), Francis Poulenc (1899-1963) e Germaine Tailleferre (1892-1983). A valorização do exótico, provenientes de culturas distantes e estranhas ao universo francês, está em alta.

Assim, quando Villa-Lobos chegou a Paris em 1923, toda uma série de pequenos contatos e interações […] agiu no sentido de convencê-lo aos poucos da imperiosa necessidade de sua conversão, de sua transformação em um compositor de músicas de caráter nacional. Como consequência, ele deixaria de tentar compor de acordo com as regras estéticas de compositores franceses, tão valorizadas no Brasil, para tentar retratar sua nação musicalmente, um projeto especialmente valorizado na França,

afirma o pesquisador Paulo Renato Guérios1.

Para o crítico José Miguel Wisnik (1948) a conjunção entre a personalidade de Villa-Lobos e o contexto brasileiro, especialmente a renovação representada pela Semana de Arte Moderna, é que teria impulsionado a incorporação de elementos populares em sua música após 1922.2

Ao mesmo tempo em que, colaborando com o governo de Getúlio Vargas, desenvolve um programa de educação musical por meio do canto orfeônico, escreve uma série de obras, que buscam unir a estética de Bach ao universo musical brasileiro. Para diferentes formações, as nove peças, escritas entre 1930 e 1945, utilizam canções folclóricas e urbanas e alguns de seus trechos estão entre os mais populares do compositor, como a tocata da Bachiana n. 2, O Trenzinho do Caipira, e a Ária (Cantilena) da n. 5.

O projeto que Villa-Lobos idealiza sobre o canto orfeônico é inspirado em exemplos alemães, por ocasião de suas visitas a algumas cidades da Alemanha, nos anos 1920. O ensino de canto orfeônico nas escolas primárias e normais é concretizado durante os anos 1930 com a criação de um curso para a formação de professores; de um orfeão artístico e de um orfeão para cada escola; e da organização de discotecas e bibliotecas especializadas. A realização de grandes concentrações orfeônicas reúne milhares de crianças e adolescentes. Getúlio Vargas, interessado no ideal de desenvolvimento do senso de civismo e brasilidade nas crianças, aprova a criação da Superintendência da Educação Musical e Artística (SEMA), em 1932.

Para o pesquisador Paulo de Tarso Salles:

É preciso rebater a ideia de que o maior ou o único mérito da obra musical de Villa-Lobos esteja em seu caráter nacional, identificável pela utilização de melodias folclóricas e eventuais usos de ritmos e instrumentos de música popular brasileira. Outro ponto importante é demonstrar que as qualidades de certas obras do compositor não são resultados de mero casuísmo, mas de um labor composicional sintonizado com os problemas importantes no tempo em que foram compostas e que ainda instigam os músicos de hoje.3

As partituras de Villa-Lobos revelam que, além da preocupação com uma identidade nacional, existe uma inquietude quanto aos procedimentos que se tornam acadêmicos, destituídos de significação para a música de seu tempo.

Notas

1 Citado por: FRÉSCA, Camila. Villa-Lobos e a invenção da música brasileira. Revista Cult, São Paulo, ed. 141, nov./2009. Disponível em: < http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/villa-lobos-e-a-invencao-da-musica-brasileira/ >. Acesso em: 07 jun. 2016.

2 Idem, ibidem.

3 Citado por: HAAG, Carlos. Muito além da vitória-régia e do vatapá. Pesquisa FAPESP, São Paulo, ed. 168, fev./2010, p. 101. Disponível em: < http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/02/05/muito-al%C3%A9m-da-vit%C3%B3ria-r%C3%A9gia-e-do-vatap%C3%A1/ >. Acesso em: 07 jun. 2016.

Outras informações de Heitor Villa-Lobos:

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    • Villa Lobos
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Exposições (4)

Fontes de pesquisa (11)

  • CARVALHO, Hermínio Bello de. O canto do pajé - Villa-Lobos e a música popular brasileira. Rio de Janeiro: e&t, 1988.
  • CONTIER, Arnaldo Daraya. Brasil novo, música, nação e modernidade: os anos 1920 e 1930. Tese (Livre-docência em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1988.
  • CONTIER, Arnaldo Daraya. Passarinhada do Brasil: canto orfeônico, educação e getulismo. Bauru: Edusc, 1998.
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculos: O Descobrimento do Brasil - 1987; Floresta Amazônica - 2000.
  • FRÉSCA, Camila. Villa-Lobos e a invenção da música brasileira. Revista Cult, São Paulo, ed. 141, nov./2009. Disponível em: < http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/villa-lobos-e-a-invencao-da-musica-brasileira/ >. Acesso em: 07 jun. 2016.
  • GUÉRIOS, Paulo Renato. Heitor Villa-Lobos. São Paulo: Editora FGV, 2003.
  • HAAG, Carlos. Muito além da vitória-régia e do vatapá. Pesquisa FAPESP, São Paulo, ed. 168, fev./2010. Disponível em: < http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/02/05/muito-al%C3%A9m-da-vit%C3%B3ria-r%C3%A9gia-e-do-vatap%C3%A1/ >. Acesso em: 07 jun. 2016. p. 101
  • MARCONDES, Marcos (editor); DUPRAT, Régis (seleção dos verbetes). Enciclopédia da música brasileira: erudita. São Paulo: Art Editora; Publifolha, 2000.
  • MARIZ, Vasco. Heitor Villa-Lobos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1989.
  • NEGWER, Manuel. Villa-Lobos: o florescimento da música brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
  • SALLES, Paulo de Tarso. Villa-Lobos: processos composicionais. Campinas: Editora Unicamp, 2009.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • HEITOR Villa-Lobos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa11902/heitor-villa-lobos>. Acesso em: 13 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7