Artigo da seção pessoas Jota Dangelo

Jota Dangelo

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deJota Dangelo: 1932 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / São João del Rei)

Biografia
José Geraldo Dangelo (São João del Rei MG 1932). Diretor, ator, dramaturgo e gestor cultural. É reconhecido como renovador do teatro de Belo Horizonte, sobretudo a partir do fim da década de 1950, quando participa da fundação do Teatro Experimental. No período da ditadura militar no Brasil, escreve textos e dirige espetáculos que fazem oposição a esse regime. Desde 1982, ocupa cargos públicos em órgãos ligados à cultura, no Estado de Minas Gerais.

Em 1950, muda-se para Belo Horizonte e ingressa no curso de medicina da Universidade de Minas Gerais (UMG), atual Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Nesse mesmo ano, faz contato com o Teatro Mineiro de Arte, grupo dirigido pela atriz e dramaturga Zuleika Melo. Por intermédio da dramaturga, conhece João Marschner e Carlos Kroeber, com os quais funda, em 1959, o Teatro Experimental (TE). Como estudante de medicina, em 1954, começa a dirigir o espetáculo de variedades Show Medicina, com alunos e colegas do curso da UMG, e desenvolve até 1962 a atividade de diretor teatral.

Com Kroeber, busca convencer a UMG a criar uma escola de formação de atores, desejo acalentado pelo grupo que se reúne regularmente na casa de Marschner para discutir e ler textos teatrais de sua biblioteca. Eles sentem falta de uma formação teatral continuada, pois as oportunidades de aprender são raras em Belo Horizonte. Há as lições práticas de João Ceschiatti, que dirige o teatro do Serviço Social da Indústria - Sesi e encena peças clássicas com apuro e bom gosto. É Ceschiatti que transmite a Jota Dangelo o senso de dedicação, sem a qual, diz, "não é possível fazer teatro".1 Há também os contatos eventuais com as companhias que vêm do Rio de Janeiro e São Paulo para se apresentar em Belo Horizonte, em especial os grupos egressos do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC que se formam na segunda metade dos anos 1950: Companhia Tônia-Celi-Autran - CTCA, Teatro Cacilda Becker - TCB e Teatro dos Sete. Sobre essas companhias Dangelo diz que eram verdadeiras "escolas de ver e conversar".2 

No entanto, o desejo do grupo de amigos é o de frequentar um curso de teatro, como o da Escola de Arte Dramática - EAD da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. No início de 1957, Jota Dangelo, Carlos Kroeber e João Marschner obtêm do reitor da UMG o compromisso de contratar um professor, providenciar uma sede e institucionalizar o Teatro Universitário (TU). No TU, Kroeber assume a presidência, Dangelo, a diretoria administrativa, Marschner, a secretaria, e o professor italiano Giustino Marzano é convidado para ser o diretor artístico. Dangelo, Kroeber e Marschner desligam-se da escola e, no ano seguinte, fundam o Teatro Experimental (TE) no ano seguinte.

O TE realiza espetáculos de caráter experimental, particularmente de autores da vanguarda européia, como Fim de Jogo, de Samuel Beckett - primeira encenação desse texto no Brasil, com tradução de João Marschner; A Cantora Careca, de Eugène Ionesco; e Pic-nic no Front, de Fernando Arrabal. Kroeber e Dangelo revezam-se na direção e assistência de direção, e João Marschner concentra-se na tradução de textos e na criação de cenários e figurinos. Os três são atores em quase todos os espetáculos do grupo até 1961.

Dangelo faz especialização na área médica nos Estados Unidos entre 1961 e 1964, então aproveita para frequentar o curso de drama da Universidade de Washington, onde entra em contato com a nova dramaturgia norte-americana. A convite de Sábato Magaldi, envia artigos para o suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo, entre os quais se destacam os que analisam a obra de Edward Albee, que acabara de estrear nos Estados Unidos Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Em 1965, participa como ator e iluminador das montagens de O Escurial, de Michel de Ghelderode, e Atos Sem Palavras I e II, de Samuel Beckett - primeira encenação desse texto no Brasil -, dirigidas por Marco Antônio Menezes. Nesse ano, Dangelo dirige Bolota Contra o Bruxo, peça para o público infantil, de Jonas Bloch - ator, dramaturgo e diretor, que passa a ser o seu principal parceiro no TE até 1969.

A outra parceria de Dangelo e Jonas Bloch é O Homem e Seu Grito, uma montagem de cunho claramente político que assinala uma transição na linha de produções do TE, transição essa que se completa no espetáculo seguinte, Oh! Oh! Oh! Minas Gerais.

Como relata Dangelo, um dos momentos mais emocionantes de sua vida teatral deu-se na apresentação do espetáculo em Brasília. Há uma cena na qual uma carta de Juscelino Kubtschek é lida, tendo ao fundo a música Peixe Vivo. A censura convoca Jota Dangelo para exigir que o texto ou a música fossem cortados. Ele opta pelo corte da música, mas denuncia na imprensa o absurdo de se censurar uma canção do folclore diamantinense. Na estreia, com o teatro lotado, Jonas Bloch começa a dizer o texto da carta e o público, em uníssono, canta o Peixe Vivo. É uma verdadeira apoteose. O espetáculo tem de ser interrompido momentaneamente para os aplausos entusiasmados da plateia.

Com o sucesso da montagem o grupo vislumbra a possibilidade de profissionalizar-se, mas essa expectativa é frustrada quando o TE tem duas de suas peças consecutivamente proibidas pela censura, Oh! Oh! Oh! Minas Gerais e Numância. Apesar da vigilância constante dos militares, Dangelo dá continuidade no TE, em toda a década de 1970, à produção de textos com referências ao autoritarismo, utilizando sempre do artifício da metáfora para tanto.

Dangelo assina o texto, a direção e a iluminação do primeiro espetáculo de som e luz produzido no Brasil, Inconfidência na Praça, apresentado em Ouro Preto no feriado de 21 de abril de 1970. E monta outros espetáculos como esse, em espaços abertos e com falas gravadas, por ocasião da Semana Santa ou no 21 de abril, nas cidades de Belo Horizonte, Ouro Preto, São João del Rei e Tiradentes. A vida de Cristo e de Tiradentes são pretextos para denunciar o clima de opressão, tortura e delação em que vive o país e servem de tema para os espetáculos: Uma Certa Sexta-Feira, 1972, O Encontro na Praça, 1974, O Encontro na Sexta-Feira, 1976, De Corpo Presente, 1977, O Aleijadinho de Vila Rica, 1977, O Caminho do Calvário, 1978, e O Julgamento na Praça, 1980.

O TE muda de nome, passa a se chamar O Grupo, em 1974. Em 1990, o casal Dangelo e Mamélia Dornelles, que se mantém na liderança do grupo durante toda a sua trajetória, aluga um local para ser a sede da companhia. Esse espaço é denominado Casa de Cultura Oswaldo França Junior, em homenagem ao escritor mineiro, nome que também é adotado pelo grupo, até 1998, quando encerra suas atividades.

A estratégia da metáfora, ou seja, falar da ditadura sem se referir diretamente a ela, a fim de despistar a censura, é utilizada por Jota Dangelo também na escola de samba de São João del Rei, na qual, desde 1957, exerce a função de sambista e carnavalesco. De 1972 a 1980, os enredos são sutilmente politizados. Em 1972, com o enredo Castro Alves Pede Passagem, denuncia a exploração do trabalho e o imperialismo norte-americano e defende os movimentos libertários. Os estandartes da escola vêm com pequenos textos alusivos a esses temas. Na última ala, dedicada ao movimento hippie, o estandarte tem os seguintes dizeres: "Castro, estou na tua". Considerando aquilo uma alusão ao líder revolucionário cubano Fidel Castro, os militares instauram inquérito e obrigam Dangelo a comparecer diante das autoridades duas vezes por semana, durante seis meses.

No processo de redemocratização do país, quando Tancredo Neves chega ao governo do Estado de Minas Gerais, Jota Dangelo passa a ocupar cargos públicos vinculados à política cultural. Em 1982, assume a presidência da Fundação Clóvis Salgado, que administra o Palácio das Artes, cargo que acumula com a chefia da Coordenação de Cultura, até a criação da Secretaria de Estado da Cultura. Nessa entidade, a convite do secretário José Aparecido de Oliveira, assume a função de secretário adjunto. No governo do presidente José Sarney, ocupa por quatro meses a secretaria executiva do Ministério da Cultura, na transição entre o ministro José Aparecido de Oliveira e Aluísio Pimenta. No governo Hélio Garcia, em 1985, é nomeado secretário de estado da cultura, cargo que ocupa durante 11 meses. Com a eleição de Pimenta da Veiga para a prefeitura de Belo Horizonte, é convidado para presidir a Belotur, empresa municipal de turismo, cargo que ocupa de 1989 até 1992. Com Aécio Neves, governador de Minas Gerais, Dangelo assume a presidência do Instituto Cultural Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais - BDMG Cultural, em 2003.

Embora convidado várias vezes para atuar no Rio de Janeiro ou em São Paulo e profissionalizar-se no teatro, Dangelo sempre opta pela carreira de professor universitário. Em suas palavras: "sempre olhei o teatro com olhos de amador, no bom sentido. Sou um sujeito que gosta de teatro porque ele é muito importante na minha vida. Costumo dizer que é minha religião, uma coisa sagrada para mim é o teatro".3

 

Notas
1
DANGELO, JG. José Geraldo Dangelo. Depoimento. Entrevistador: Bernardo Novais da Mata Machado. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 1996, 12 fitas. Entrevista concedida ao projeto História do Teatro Marília.

2 Idem, ibidem.

3 Idem, ibidem.

Outras informações de Jota Dangelo:

  • Outros nomes
    • José Geraldo Dangelo
    • J. D'Angelo
    • J. Dangelo
    • Jota Dângelo
    • Jota D'Ângelo
  • Habilidades
    • Ator
    • diretor de teatro
    • Autor

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Fontes de pesquisa (2)

  • 45 ANOS DE TEATRO EM 3 ATOS DE PAIXÃO. Programa de Exposição realizada na Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes). Curadoria de Jota Dangelo; Pesquisa de Mamélia Dornelles; Design da Exposição de Flávio Vignoli. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, s/d.
  • DANGELO, J. G. José Geraldo Dangelo. Depoimento. Entrevistador: Bernardo Novais da Mata Machado. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 1996, 12 fitas. (entrevista concedida ao projeto História do Teatro Marília).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOTA Dangelo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109212/jota-dangelo>. Acesso em: 25 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7