Artigo da seção pessoas Geninha Sá da Rosa Borges

Geninha Sá da Rosa Borges

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Teatro  
Data de nascimento deGeninha Sá da Rosa Borges: 21-06-1922 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia

Maria Eugênia Franco de Sá da Rosa Borges (Recife, Pernambuco, 1922). Atriz e diretora. Intérprete que constrói sua trajetória a partir do início dos anos 1940, no Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), trabalhando com diretores de diferentes tendências estéticas que atuam no grupo. Torna-se uma das mais prestigiadas atrizes de Pernambuco, não só por sua beleza, mas também por seu talento e pela consciência teatral demonstrada em cena.

Conclui bacharelado e licenciatura em letras anglo-germânicas, respectivamente em 1943 e 1945; e pedagogia em 1974, na Faculdade de Filosofia do Recife (Fafire). Como inspetora federal de ensino, implanta cursos de teleducação em Pernambuco. Faz pós-graduação lato sensu nos Estados Unidos, de outubro de 1966 a fevereiro de 1967, e no Japão, de agosto a novembro de 1967.

Estréia como atriz em 1941, com um grupo de moças da alta sociedade recifense no show Noite de Estrelas. Valdemar de Oliveira (1900-1977), diretor do Teatro de Santa Isabel, convida-a para integrar o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), grupo recém-fundado por ele, e desempenhar o papel principal da peça Primerose, de Robert de Flers e Gaston Arman de Caillavet. A crônica teatral é unânime em seus elogios e, desde então, Geninha atua no teatro pernambucano como intérprete e também como diretora e animadora cultural.

No TAP, faz mais de 50 espetáculos, de 1941 a 2007, e é uma de suas atrizes mais experientes. Elogiada no Recife por desempenhos marcantes, nas excursões do grupo pelo Brasil, seu talento é confirmado pela crítica, que ressalta o grau de convencimento cênico que imprime às personagens. Décio de Almeida Prado (1917-2000) analisa a trajetória do TAP, durante a excursão por São Paulo, em 1955, e constata que o grupo segue uma lenta e segura ascensão, que acompanha a renovação do teatro brasileiro, mesmo que se possam encontrar resquícios do "velho teatro" em interpretações "demasiadamente teatrais e esquemáticas", ao contrário do que se faz necessário ao trabalho do intérprete atual, que deve entregar-se de corpo e alma ao papel. E dá como exemplo dessa modernidade o desempenho da atriz: "É a virtude, por exemplo, de Geninha Sá da Rosa Borges, talvez não a atriz mais experimentada, porém seguramente a de linha de interpretação mais sóbria e profunda e de espírito mais moderno".1

Com formação eclética, a atriz desempenha papéis os mais variados, da comédia ao drama, da farsa à tragédia. Alcança alto grau de naturalidade, aperfeiçoa a análise psicológica das personagens que representa, e a qualidade de seu trabalho se revela de modo exemplar em papéis como o de Adela em A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, em 1948, sob direção de Valdemar de Oliveira; de Alaíde em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980), em 1955, direção de Flaminio Bollini (1924-1978); e como a protagonista de Yerma, de Lorca, em 1978, peça dirigida pela própria Geninha.

Na criação do papel de Adela, Hermilo Borba Filho (1917-1976) elogia o comedimento da atriz e o "[...] grande poder de convicção, isto provindo talvez da crença da intérprete no personagem que encarnou".2 No papel de Alaíde, de Vestido de Noiva, o crítico Medeiros Cavalcanti, do Jornal do Commercio, comenta: "No todo [...] Geninha registra continuamente uma 'performance admirável', tanto mais se [...] levarmos em conta a imensa dificuldade do seu papel, ora explosivo, ora calmo, ora sonhador, ora vingativo, toda uma gama, de emoções e sentimentos alternativamente expressos e rapidamente substituídos".3 Para Gilberto Freyre (1900-1987), sua interpretação como Yerma dá ao TAP "o que parece ter sido, no gênero, o momento supremo na vida desse teatro".4

No Teatro de Arena do Recife, em 1960, dirige Leito Nupcial, de Jan de Hartog (1914-2002), espetáculo em que atua ao lado do marido, Otávio da Rosa Borges, e que tem sucesso de público e de crítica. Trabalha em A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna (1927-2014), espetáculo de inauguração do Teatro Popular do Nordeste (TPN), criado em 1960 por Hermilo Borba Filho, com quem a atriz já havia trabalhado anteriormente em duas outras peças.

Em 1979, o TAP a convida, para a direção de Jogos na Hora da Sesta, de Roma Mahieu, que reúne atores, em sua maioria profissionais, dispostos a enfrentar o trabalho, sem remuneração - como reza o estatuto do grupo. Nessa encenação, Geninha ocupa o palco com brinquedos infantis de um parque, em escala gigante, para corresponder a ousadia do texto, que trata de tema delicado - a violência adulta mimetizada por oito crianças em uma parábola dolorosa e difícil. Mais uma direção e atuação para o TAP acontece em 1983, com A Promessa ou Sebastiana Maria da Circuncisão, de Luiz Marinho (1926-2002). No espetáculo, a encenadora insere uma longa procissão logo no início, transforma o fosso da orquestra em rio, valoriza a clave metalingüística em que a peça é escrita e utiliza procedimentos brechtianos, para obtenção de um riso crítico.

Dirige e protagoniza As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, em 1987, espetáculo realizado, com êxito, por Fernanda Montenegro (1929), direção de Celso Nunes (1941), em 1982, no Rio de Janeiro. Novamente, Geninha se impõe pela criação ousada dentro do TAP. O texto trata da homossexualidade feminina, e nessa montagem questões ligadas à luta de classes são valorizadas. A diretora mostra em cena uma sociedade se esgarçando em mesquinhez. A atriz-encenadora também assina a cenografia com Beto Diniz (1953-1989).

De 1998 a 2006, participa ininterruptamente do espetáculo Paixão de Cristo do Recife, direção de José Pimentel (1934), que se realiza inicialmente no Estádio do Arruda e depois no Marco Zero, no Recife Antigo.

É homenageada pelo TAP, em 2002, no espetáculo em que se recriam fragmentos de cenas de Arsênico e Alfazema, Massacre, Onde Canta o Sabiá, A Capital Federal, Yerma, Um Sábado em 30 e Bob & Bobete, intitulado Geninha 80 Anos? - Não Acredito, roteiro de Fernando de Oliveira, direção de Reinaldo de Oliveira. Ainda em 2002, realiza 2 em 1, peça em que divide a autoria com Anamaria da Rosa Borges e Pedro Oliveira, e conta com participação musical de Terezinha do Acordeón e seu grupo. Em 2003, participa da montagem de Mistério das Figuras de Barro, de Osman Lins (1924-1978), no Projeto O Aprendiz Encena, com direção de Marcus Rodrigues. Faz uma das protagonistas na leitura dramática de As Três Graças, de Luiz Marinho (1926-2002), com direção de Luiz Marfuz, em 2004. Seu trabalho mais recente é Mrs. Boyle, em A Ratoeira, de Agatha Christie (1890-1976), direção de Carlos Carvalho (1954), em 2007.

No cinema, participa do primeiro filme falado rodado em Pernambuco, O Coelho Sai, em 1939, com direção de Firmo Neto e produção da Meridional Filmes. Geninha integra o elenco de longas e de curtas-metragens entre eles, Parahyba, Mulher Macho, de Tizuka Yamasaki, em 1983; Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, em 1996; O Pedido, de Adelina Pontual, em 1995; Nóis Sofre Mais Nóis Goza, em 1999; O Teatro e a Música de Valdemar de Oliveira, em 2000; e A Partida, de Sandra Ribeiro, em 2003. Também participa, em 1996, do videodocumentário sobre seus 55 anos de teatro: Cinqüenta e Cênicos Anos de Teatro, de Pedro Oliveira. Está no elenco da novela Da Cor do Pecado, da TV Globo, em 2004.

De 1979 a 1982 atua como coordenadora de artes cênicas, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), do Governo do Estado de Pernambuco. De 1986 a 1991, trabalha como supervisora de artes cênicas no Instituto de Assuntos Culturais da Fundação Joaquim Nabuco - Fundaj, onde coordena o Curso de Iniciação à Formação do Ator.

É diretora do Teatro de Santa Isabel, em quatro períodos (1983-1986, 1991-1992, 1994-1997 e 1997-2000). Escreve o livro Teatro de Santa Isabel Nascedouro & Permanência, publicado em 1992, pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

É a homenageada do 11º Festival Recife do Teatro Nacional, em 2008. Como parte do evento, ocorre o lançamento do livro Geninha Total, da poeta Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Valdemar de Oliveira, o diretor com quem a atriz mais trabalha em toda sua carreira, atesta: "Integrada nas maiores realizações artísticas do TAP, ora em papéis consoantes com a sua idade (Primerose, O que Leva as Bofetadas, Vestido de Noiva, A Comédia do Coração, A Verdade de Cada Um), ora em papéis genéricos (Onde Canta o Sabiá), ora em papéis de velha (Arsênico e Alfazema), ora em papéis de vamp (O Processo de Mary Dugan), a Sra. Geninha da Rosa Borges trabalhou sob as ordens dos melhores ensaiadores que vieram ao Recife contratados pelo TAP, como sejam Ziembinski (1908-1978), Graça Mello (1914-1979), Zigmunt Turkow e Flaminio Bollini, tendo feito um curso de caracterização com José Jansen. Igualmente trabalhou, no Recife, sob a direção de Hermilo Borba Filho e do signatário, que pode atestar o seu alto grau de maturidade artística, após 24 anos de palco amadorista, enfrentando, mercê de sua extrema versatilidade, as interpretações mais difíceis e os públicos mais exigentes. A sua maleabilidade às mais variadas concepções de vivência artística é, a meu ver, absolutamente notável".5

Notas

1 PRADO, Décio de Almeida [artigo sem título, sem data, transcrito de O Estado de S. Paulo, São Paulo]. Apud TAP -- Excursões Porto Alegre/São Paulo, s.l., s.c.p., s.d., s.p. [Acervo Teatro de Amadores de Pernambuco].

2 BORBA FILHO, Hermilo. A casa de Bernarda Alba. Folha da Manhã, Recife, p. 5, 9 dez. 1949.

3 CAVALCANTI, Medeiros. Vestido de noiva -- VIII. Jornal do Commercio, Recife, p. 6, 29 out. 1955.

4 FREYRE, Gilberto. O assunto é teatro. Diário de Pernambuco, Recife, p. A-9, 10 set. 1978.

5 OLIVEIRA, Valdemar. No TAP desde o início. Recife, 26 jul. 1965. [Acervo Geninha Sá da Rosa Borges].

Outras informações de Geninha Sá da Rosa Borges:

  • Outros nomes
    • Maria Eugênia Franco de Sá da Rosa Borges
    • Geninha Sá
    • Geninha da Rosa Borges
  • Habilidades
    • Atriz
    • diretora

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Fontes de pesquisa (17)

  • CADENGUE, Antonio Edson. TAP: anos de aprendizagem (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1941-1947). 1989. 252 f. Dissertação (Mestrado em Artes-Teatro). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.
  • ASSOCIAÇÃO DE CRONISTAS TEATRAIS DE PERNAMBUCO. Os Melhores do teatro pernambucano. Recife: ACTP, abr. 1964.
  • BORBA FILHO, Hermilo. A casa de Bernarda Alba. Folha da Manhã, Recife, p. 5, 9 dez. 1949.
  • BORGES, Geninha Sá da Rosa; BORGES, Otávio da Rosa. Entrevista concedida a Antonio Edson Cadengue. Recife, 16 jul.1988, 78p. [Acervo Antonio Edson Cadengue].
  • BOTTO, Márcia. Geninha da Rosa Borges: a dama do teatro. Recife: CEPE, 1997. (Coleção Perfis pernambucanos). 146p.
  • CAVALCANTI, Medeiros. Vestido de noiva - VIII. Jornal do Commercio, Recife, p. 6, 29 out. 1955.
  • COUTINHO, Valdi. Yerma - uma telúrica direção de Geninha. Diário de Pernambuco, Recife, p. B-5, 31 mar. 1978.
  • FREYRE, Gilberto. O assunto é teatro. Diário de Pernambuco, Recife, p. A-9, 10 set. 1978.
  • LEITE, Adeth. Seis personagens à procura de autor. Diário de Pernambuco, Recife, p. 12, 5 jul. 1958.
  • MOTA, Mauro. A capital federal. Diário de Pernambuco, Recife, p. 4, 4 dez. 1965.
  • OLIVEIRA, Valdemar. No TAP desde o início. Recife, 26 jul. 1965. [Acervo de Geninha Sá da Rosa Borges].
  • PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa, 157p.
  • PRADO, Décio de Almeida [artigo sem título, sem data, transcrito de O Estado de S. Paulo, São Paulo]. Apud TAP - Excursões Porto Alegre/São Paulo, s.l., s.c.p., s.d., s.p. [Acervo Teatro de Amadores de Pernambuco].
  • SUASSUNA, Ariano. A encenação de Vestido de noiva. Diário de Pernambuco, Recife, p. 6, 23 out 1955.
  • TEIXEIRA, Anísio. Carta a Sra. Maria Eugênia Sá da Rosa Borges, Rio de Janeiro, 5 de out. 1961. [Acervo de Geninha Sá da Rosa Borges].
  • ______. TAP: sua cena & sua sombra (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1948-1991). Tese (Doutorado em Artes-Teatro). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 3 v., 1991, 769p.
  • ______. Curriculum Vitae. Recife, 2008, 17 p.

Como citar?

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  • GENINHA Sá da Rosa Borges. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109192/geninha-sa-da-rosa-borges>. Acesso em: 22 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7