Artigo da seção pessoas Antonio Cadengue

Antonio Cadengue

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deAntonio Cadengue: 15-04-1954 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Lajedo)

Biografia
Antonio Edson Cadengue (Lajedo PE 1954). Diretor e teórico. Desde a segunda metade dos anos 1970, destaca-se por se opor, criativamente, à expectativa de um teatro nordestino ligado ao mundo rural e às tradições da cultura popular. A partir de 1990, à frente da Companhia Teatro de Seraphim, outra marca de seu trabalho ganha relevo: a atenção a grupos minoritários sobretudo os discriminados por questão de raça, religião, doença mental e orientação sexual.

Ainda estudante de psicologia na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda - Facho, em 1975, inicia-se como encenador, e em troca de uma bolsa de estudo, dirige montagens para um grupo vinculado à faculdade. Até então, sua única referência teatral são os espetáculos de Vital Santos, assistidos entre 1969 e 1971, período em que reside em Caruaru, Pernambuco. Logo, porém, passa a ver tudo que é produzido na cena recifense e busca informações, por meio de leitura, sobre teoria teatral e literatura dramática.

Em 1976, conhece o cenógrafo Beto Diniz, carioca radicado no Recife, de quem se torna companheiro, dentro e fora do teatro. E o primeiro resultado dessa parceria é a montagem de A Lição, de Eugène Ionesco, levada ao palco nesse ano. O sucesso dessa produção suscita a criação da Companhia Praxis Dramática, dos atores Paulo Fernando de Góes e José Mário Austregésilo, uma das mais atuantes companhias teatrais pernambucanas na década seguinte. Para a estreia da Praxis, em 1977, Antonio Cadengue assina a direção de Esta Noite Se Improvisa, de Luigi Pirandello, e trabalha também como ator, desempenhando o papel do diretor do espetáculo. De passagem pelo Recife, o crítico Yan Michalski tem a oportunidade de assistir a um ensaio para a reestreia da peça, e escreve ao encenador: "Deu para sentir a fantasia da sua concepção bem pessoal, a vitalidade e o bom humor das suas ideias, o seu domínio da escrita cênica, e a inteligência com que, mesmo tratando Pirandello com irreverente sem-cerimônia, você o reencontra em última análise - mais, sem dúvida, do que se o tivesse abordado com o formal 'respeito ao texto' ".1

Também em 1977, com Beto Diniz, Cadengue se aproxima do Grupo de Teatro Vivencial, liderado por Guilherme Coelho, experiência de teatro de contracultura, desafiando a noção vigente de engajamento político e de cultura popular. Para esse grupo, dirige Viúva, porém Honesta, de Nelson Rodrigues.

Nos primeiros meses de 1978, faz especialização em direção teatral, em João Pessoa, por meio de convênio da Universidade Federal da Paraíba - UFPB com a Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado do Rio de Janeiro - Fefierj, depois denominada Unirio, e tem como professores, entre outros, Yan Michalski e Antônio Mercado. Termina esse curso, e segue, no mesmo ano, para o Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar seus conhecimentos teatrais. Estuda novamente com Yan Michalski as disciplinas de crítica teatral, oferecidas pela Fefierj. Nessa instituição, com outros alunos do curso, e com a coordenação do próprio Michalski, funda a revista Ensaio/Teatro. Além de colaborar como crítico, ensaísta e entrevistador, integra o conselho editorial da publicação, com Carmem Gadelha e Fátima Saadi.

Do Rio de Janeiro, muda-se para João Pessoa, em 1979, para lecionar no curso de licenciatura em educação artística, na UFPB. Durante sua permanência na capital paraibana, encena dois espetáculos didáticos: Cartaz de Cinema: The Clown Is Dead (?), de Paulo Vieira (no qual assina a coautoria), e Soy Loco por Ti Latrina, uma colagem de textos de autores como Glauco Mattoso, Affonso Romano de Sant'Anna, Jomard Muniz de Britto e Manuel Puig, entre outros. Reverberando a estética do Grupo de Teatro Vivencial, os quadros da peça são interligados por escritos recolhidos nas portas e paredes dos banheiros da universidade, ditos das coxias, enquanto a cena é preenchida por pantomimas e pequenas performances silenciosas. As poucas apresentações, realizadas no próprio campus, provocam veementes reações tanto de aprovação quanto de repúdio. O espetáculo é suspenso e acusado de "imoral" e "inconsequente", por navegar entre o erótico e o político.

Embora radicado em João Pessoa, Cadengue continua a dirigir peças no Recife. Em 1980, encena Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, tendo o dramaturgo João Falcão, como ator, no papel de Serginho, e volta a colaborar com o Grupo de Teatro Vivencial, dirigindo, com Carlos Bartolomeu e Guilherme Coelho, All Star Tapuias, colagem de textos dos próprios encenadores, com a colaboração de Sérgio Sardou.

Cadengue muda-se para o Recife em 1981. Aprovado no concurso para professor de direção teatral do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, na Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, nela trabalha até 1998, quando se aposenta. Dirige o Curso de Formação do Ator - CFA/UFPE, de 1986 a 1988, e realiza montagens que transformam a condução pedagógica da formação de intérpretes no Recife.

Ingressa, em 1983, na pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP e faz mestrado e doutorado em teatro, com orientação do professor Sábato Magaldi. Em ambos os cursos, concluídos respectivamente em 1989 e 1991, estuda a longa trajetória do Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP.

Fora do âmbito da universidade, em 1984, realiza um espetáculo de grande significação em sua carreira como encenador: Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, produção da Fundação de Cultura Cidade do Recife. A montagem conta com doze atores e nove atrizes, sete músicos, cenografia distribuída em vários planos, figurino concebido e realizado em torno do onírico, do oriental e do elisabetano, e maquiagem e interpretação carregadas de teatralismo. Sobre essa encenação, a crítica Mariangela Alves de Lima comenta: "Este Sonho de uma Noite de Verão pernambucano combina exatamente o conhecimento e a liberdade para transformar a escrita em imagens contemporâneas, legíveis e tão sedutoras quanto foram sonhadas no momento da sua invenção. É um Sonho feito no Recife com a devida vênia a uma herança universal da humanidade que sobrenada os séculos e as geografias. [...]. É uma encenação que cortesmente presta um tributo ao autor e às teorias mais modernas de encenação antes de lançar-se num voo livre e inevitavelmente tropical. Há um esquema rigoroso de composição, mas a impressão que predomina depois do espetáculo é a de uma fantasia cálida e solta".2

Em 1985, dirige para o Quinteto Violado uma adaptação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, que estreia no Teatro de Santa Isabel e excursiona por várias capitais do Brasil, e pela Alemanha e Áustria. Ainda nesse ano, dirige para a Aquarius Produções Artísticas, de Bóris Trindade, Tango, de Slawomir Mrozek, e em 1988, O Burguês Fidalgo, de Molière, com codireção de Beto Diniz. São espetáculos de grande apuro técnico, e significam uma nova tentativa de profissionalização do teatro local.

De sua vivência em São Paulo, enquanto cursa o mestrado e o doutorado, surge a necessidade de formar no Recife uma companhia estável que dê espaço às suas inquietações e às novas informações processadas. Em 1990, Cadengue funda, com outros componentes, a Companhia Teatro de Seraphim - CTS, que somente em 1992 ganha figura jurídica, e tem como sócios Marcus Vinicius de Pinho e Souza, Aníbal Santiago, Lúcia Machado, Manuel Carlos e Augusto Tiburtius.

A peça de estreia da CTS é Heliogábalo & Eu, de João Silvério Trevisan, direção de George Moura. Nessa montagem, Cadengue atua como dramaturgista. A partir de então, dirige quase todos os trabalhos da companhia. Nos anos 1990, a CTS produz intensamente, tornando-se um dos grupos mais premiados na cena teatral nordestina. Entre os espetáculos do repertório são marcantes, do ponto de vista da qualidade estética e de recepção da crítica (e, por vezes, do público), Em Nome do Desejo, de João Silvério Trevisan, em 1990 e 1992; A Lira dos Vinte Anos, de Paulo César Coutinho; Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, em 1993; Os Biombos, de Jean Genet (estreia nacional, com tradução de Fátima Saadi, especialmente realizada para a montagem), em 1995; Autos Cabralinos (Auto do Frade e Morte e Vida Severina), de João Cabral de Melo Neto, em 1996; Lima Barreto, ao Terceiro Dia, de Luís Alberto de Abreu, em 1998 e A Filha do Teatro, de Luís Augusto Reis, em 2007.

Com Senhora dos Afogados, a CTS se apresenta em Portugal, dentro do Projeto CumpliCidades, em 1994. Em Lisboa, o crítico Manuel João Gomes, do diário português Público, assim se refere ao espetáculo: "O encenador apagou da representação quase toda a cor local nordestina. Vestiu os actores à moda do 'siglo d'oro' espanhol (a família Drummond de preto, branco e ouro e o coro das prostitutas de vermelho). Esse anacronismo é talvez o elemento mais polêmico de um espetáculo belíssimo, que não perde nada da poesia frenética e cruel, do erotismo despudorado, do imoralismo, do crime feito obra de arte que atravessa o texto de Nelson Rodrigues. Antonio Cadengue (que tem dirigido peças de Genet, Shakespeare, Pirandello, etc.) criou neste espetáculo não só a melhor montagem teatral trazida pelas CumpliCidades como um dos melhores momentos de teatro brasileiro a que nestes últimos anos Portugal assistiu. Perdê-lo seria falhar um encontro com uma arte tão visceral quanto elaborada: a autenticidade e a naturalidade dos coros, a boa integração das coreografias, o surpreendente epílogo em moldes japoneses (um fragmento de Nô, com mortos de regresso à vida) são alguns exemplos do bom domínio do encenador sobre a matéria que manipula".3

Notas

1. MICHALSKI, Yan. Carta a Antonio Edson Cadengue. Rio de Janeiro, 7 set. 1977 [Acervo de Antonio Cadengue].

2. LIMA, Mariangela Alves de. Sonho de uma noite de verão. Diario de Pernambuco, Recife, p. A7, 14 fev. 1985.

3. GOMES, Manuel João. Nelson, o Cruel. Público, Lisboa, 10 set. 1994.

Outras informações de Antonio Cadengue:

  • Outros nomes
    • Antonio Edson Cadengue
  • Habilidades
    • ator
    • diretor de teatro
    • produtor
    • professor universitário
    • pesquisador

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Fontes de pesquisa (9)

  • BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. 186p.P>
  • CADENGUE, Antonio. Antonio Cadengue: fogo e fôlego. Folhetim, Rio de Janeiro, Teatro do Pequeno Gesto, n. 11, p. 96-120, set./dez. 2001.
  • CADENGUE, Antonio. Companhia Teatro de Seraphim. Setepalcos, Portugal/Brasil, n. 3, p. 56-58, set. 1998.
  • GOMES, Manuel João. Nelson, o Cruel. Público, Lisboa, p. 23, 10 set. 1994.
  • LIMA, Mariangela Alves de. Sonho de uma noite de verão. Diario de Pernambuco, Recife, p. A7, 14 fev. 1985.
  • MACHADO, Lúcia. A Modernidade no Teatro - Ali e Aqui - Reflexos Estilhaçados. Vol. III. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986. p. 237-406.
  • MICHALSKI, Yan. Carta a Antonio Edson Cadengue. Rio de Janeiro, 7 set. 1977 [Documento constante do Acervo de Antonio Cadengue].
  • MOSTAÇO, Edelcio. Senhora dos afogados. In: ______. Nelson Rodrigues, a transgressão. São Paulo: Cena Brasileira, 1996, p. 41-44.
  • Programa do Espetáculo - Churchi Blues - 2001. Não catalogado

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  • ANTONIO Cadengue. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109112/antonio-cadengue>. Acesso em: 21 de Jun. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7