Artigo da seção pessoas Eva Schul

Eva Schul

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deEva Schul: 03-02-1948 Local de nascimento: (Itália / Lombardia / Cremona)

Biografia

Eva Schul (Cremona, Itália, 1948). Coreógrafa, professora, bailarina e gestora pública. É uma das responsáveis pela afirmação da dança moderna e contemporânea no Sul do Brasil. Nascida na Itália, chega ao Brasil em 1956. Inicia a formação em dança clássica com a professora Maria Júlia da Rocha (1928-1987), em Porto Alegre. Conclui o aprendizado em 1964 e viaja para Nova York, para ter aulas e estagiar no corpo de baile do New York City Ballet. Retorna a Porto Alegre em 1965. Em 1972, estuda dança moderna com Elsa Vallarino e Hebe Rosa (1932), no Uruguai, e, em 1973, com Renate Schottelius (1921-1998) e Ana Itelman (1927-1989), na Argentina. Até 1973, atua como professora, diretora, coreógrafa e solista do Grupo de Dança Moderna Landes e da Escola de Artes Landes. Em 1975, retorna a Nova York e estuda dança moderna com os norte-americanos Alwin Nikolais (1910-1993), Hanya Holm (1893-1992), Martha Graham (1894-1991) e Merce Cunningham (1919-2009).

De volta à capital gaúcha, em 1977, cria para o Grupo Mudança trabalhos como Um Berro Gaúcho (1977), Metamorfose (1978) e Alice (1979). Em 1980, leciona na Escola de Dança Clássica e no Curso Permanente de Teatro, da Fundação Teatro Guaíra, em Curitiba, e atua como professora do Corpo de Baile da Fundação. Na edição 1989-1990 do Troféu Gralha Azul (prêmio oficial que destaca os artistas e técnicos do Teatro no Paraná), Eva Schul é premiada na categoria Coreografia por seu trabalho em A Vida de Galileu, dirigido por Celso Nunes (1941) e protagonizado por Paulo Autran (1922-2007). Em 1984, faz parte do grupo de professores que cria os Cursos Superiores de Dança e Teatro da Fundação Teatro Guaíra, em convênio com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/Paraná), e ministra disciplinas como as de técnica de dança, improvisação, composição coreográfica, didática e expressão corporal. 

Coreografa, ainda em Curitiba, para grupos como o da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e para a União de Artistas Independentes Contemporâneos (Uaic). Em 1990, cria Mater Fillis, para o Grupo Desterro, e Canções, para Alea Grupo de Danças, ambos de Florianópolis. Em 1989, recebe do Conselho Brasileiro da Dança (CBDD), o prêmio de melhor coreografia por Reflexos. No final de 1990, retorna a Porto Alegre para assessorar o projeto de uma escola oficial de dança da Secretaria do Estado da Cultura. Em 1991, funda o Grupo  Ânima, na mesma cidade, coreografando trabalhos como: Estórias para Surdos (1991); Perfil (1992), troféu Sated/RS; O Convidado (1993), Caixa de Ilusões (1994); Tons (1994), De Um a Cinco (2001); Catch ou como Segurar um Instante (2003) e Na Quina do Tempo (2006). De 1995 a 1996, torna-se coordenadora de dança do Instituto Estadual de Artes Cênicas (IEACen), da Secretaria do Estado da Cultura, criando o festival Conesul Dança. Durante 1997, dirige o IEACen, órgão que volta a dirigir de 2003 a 2005. Em 1999, cria o Centro de Dança e Terapia Corporal (Coda), que funciona até 2007, ano em que  integra o corpo docente do Grupo Experimental de Dança da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Em 2008, recebe o Prêmio Açorianos de Dança de melhor coreografia pelo espetáculo Na Quina do Tempo

Análise

As primeiras coreografias de Eva Schul são para o Grupo Landes, no início da década de 1970. Nessa época, Schul trabalha com a técnica de Martha Graham e introduz conceitos de improvisação e análise do movimento em suas aulas e criações. A produção mais importante da primeira fase de sua carreira acontece com o Grupo Mudança, que, junto com a academia de mesmo nome, é um espaço de experimentalismo e contracultura na Porto Alegre dos anos 1970. É com o Mudança que Eva cria Um Berro Gaúcho, obra baseada no mito de Sepé Tiaraju1, que aborda a identidade e cultura gaúcha, revisada sob olhar urbano e contemporâneo. Nessa produção e em outras, há preocupação com integrar  linguagens com profissionais do teatro, da música e das artes visuais que atuam como intérpretes das montagens. O elenco de Um Berro Gaúcho é composto de bailarinos como Gilson Nunes Petrillo e Malú Guimarães, pelo artista plástico Elton Manganelli (1948), a atriz Sonia Coppini e o músico Nico Nicolaiewsky (1957-2014). A obra inova ao trazer trilha sonora criada por dois jovens músicos e compositores populares gaúchos, Carlinhos Hartlieb (1947-1984) e Toneco da Costa. Até então, as produções sempre são acompanhadas por músicas de compositores eruditos.

O resultado desta perspectiva estética é a democratização dos corpos que dançam em cena, abertos à experimentação, não mais restritos aos que dominam as técnicas clássica e moderna. Na montagem Metamorfose, Eva Schul inclui textos criados pelo próprio elenco, comentando a situação local da dança naquele período. Alice, versão adulta para a obra do escritor inglês Lewis Carroll (1832-1898), é o primeiro trabalho integralmente baseado em um texto literário. Desenvolvido com base em improvisações criadas pelos bailarinos, elas constituem vocabulário singular da obra. No elenco está o diretor teatral Luiz Arthur Nunes (1946) no papel de “o gato”. 

Muitas obras da coreógrafa são marcadas pela improvisação e busca da expressividade de cada intérprete. Ao longo da trajetória, Schul desenvolve um projeto estético-pedagógico que se concretiza com a criação do Grupo Ânima. Forma uma nova geração de intérpretes e consegue, deste modo, ter um grupo de bailarinos que traduz suas inquietações artísticas. O  nima se consolida-se com a estreia de Caixa de Ilusões (2005). O espetáculo é inspirado na obra O Balcão, do escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986) e recebe o Prêmio Açorianos de Dança, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, nas categorias de melhor cenografia e trilha sonora. 

A teatralidade presente nesses primeiros trabalhos do  nima, vai dando espaço a uma dramaturgia corporal que não precisa mais de representação literária e teatral marcante, mas que aposta no movimento. Essa nova perspectiva é evidente em Catch ou como Segurar um Instante. Nele, a coreógrafa revela uma dramaturgia alicerçada nos estados corporais dos intérpretes, com base no trabalho do release technique e do contato improvisação. Conforme destaca a coreógrafa, “a minha técnica é o trabalho de movimentos fluidos com uso mínimo de esforço, aliada ao conceito da Gestalt e à técnica de improvisação de contato, onde os encaixes dos apoios dos corpos possibilitem a eliminação desses esforços desnecessários, e na improvisação como base da composição coreográfica”. 

Um panorama das diferentes fases coreográficas configura-se em Dar Carne à Memória - I e II (2010), em que faz uma revisão de sua trajetória. O primeiro eixo do trabalho é formado pela remontagem com das coreografias Um Berro Gaúcho, Hall of Mirrors e Catch. O segundo eixo do trabalho reúne solos e duos do  nima, dançados pelos bailarinos que originariamente os interpretavam. Entre eles estão: Eduardo Severino, em Ser Animal; Cibele Sastre (1965), em O Fio Partido; Mônica Dantas, em Caixa de Ilusões; Tatiana Rosa, em Tons; Luciana Paludo, em Solitude; e Luciano Tavares e Viviane Lencina, em De um a Cinco. Entre os profissionais que ajuda a formar, além dos citados, estão Osman Khelili, Manuel Francisco, Rosane Chamecki (1964), Andrea Lerner (1966), Airton Rodrigues, Adilson Machado e João Fernando Filho.

Nota

1 Herói indígena, nascido na aldeia jesuítica dos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul. É o combatente e líder indígena que atua contra as tropas luso-brasileira e espanhola na chamada Guerra Guaranítica, no século XVIII.

Outras informações de Eva Schul:

  • Outros nomes
    • Eva Schul
  • Habilidades
    • professora universitária
    • pesquisadora
    • crítica de dança
    • produtora cultural
    • curadora
    • dançarina
    • coreógrafa
    • professora de dança

Eventos relacionados (3)

Fontes de pesquisa (5)

  • CUNHA, Morgada; FRANCK, Cecy. Dança: nossos artífices. Porto Alegre: Movimento, 2004.
  • SCHUL, Eva. Base de Dados Rumos Dança. Disponível em: < http://www.itaucultural.org.br >. Acesso em: 29 set. 2009.
  • SCHUL, Eva. Entrevista concedida pela artista em 6 set. 2010.
  • SCHUL, Eva. Memorial. Material não publicado, 2007.
  • SCHUL, Eva. [Planilha Base de Dados]. Enviada pela diretora em 17 de novembro de 2009.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EVA Schul. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109084/eva-schul>. Acesso em: 22 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7