Artigo da seção pessoas Ismael Guiser

Ismael Guiser

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deIsmael Guiser: 01-1927 Local de nascimento: (Argentina / Buenos Aires / Buenos Aires) | Data de morte 26-04-2008 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Ismael Guiser (Buenos Aires, Argentina, 1927 - São Paulo, Brasil, 2008). Coreógrafo, bailarino, diretor e professor. Filho de pais de origem russa que migram para a América do Sul fugindo da Revolução Bolchevique (1917). Começa os estudos em dança em 1946, com importantes professores do Ballet Teatro Colón1, na Argentina, entre eles, o polonês Michel Borowsky (1932) e a inglesa Esmée Bulnes (1900-1986). Em seguida, assina contrato como bailarino profissional no Teatro Argentino de La Plata, onde permanece até 1948. A partir de então, a carreira de Guiser é marcada por temporadas em companhias de dança da Argentina e Europa, como Compañia Argentina de Ballet (1949), Teatro Scala de Milão (1949) e Teatro San Carlo de Nápoles (1949), Itália, Stadsteater Malmö (1950) e Stadsteater Estocolmo (1952), na Suécia. Entre os anos de 1952 e 1953, integra as companhias francesas de Jean Guélis (1923-1991) e de Roland Petit (1924-2011).

Chega ao Brasil em 1953 para participar como solista do Ballet do IV Centenário2. Em 1955, inicia a carreira de coreógrafo e maître de ballet3 no Ballet do Museu de Arte de São Paulo4. No mesmo período, estreia na TV Tupi. Coreografa e atua em filmes e musicais. Entre eles, o filme Uma certa Lucrécia (1957), de Fernando de Barros (1915-2002); a peça musical Sexe (1960); e o filme musical Jovens pra Frente (1968), de Oscarito (1906-1970). Em 1956, é convidado a ocupar o cargo de codiretor e coreógrafo do Ballet do Rio de Janeiro5. Em 1958, funda o Ballet Amigos da Dança, exercendo as funções de diretor artístico e maître. Entre 1956 e 2008, Guiser coreografa em várias companhias e grupos brasileiros e ministra aulas no Brasil e no exterior.

Em parceria com a bailarina Yoko Okada, inaugura sua primeira escola em 1973, a Escola de Dança Ismael Guiser, que encerra as atividades em 2008. Em 1978, também ao lado de Okada, cria o Ballet Ismael Guiser. Em 1988, idealiza e coordena o Encontro de Dança Gala 88, em São Paulo, dedicado à divulgação das companhias nacionais e à circulação das tendências da dança no Brasil.

Em 1989, é agraciado com a Medalha do Mérito Artístico da Dança do Conselho Brasileiro da Dança. Na exposição em homenagem ao Ballet do IV Centenário, realizada em 1998, cria o espetáculo 400/40 Fantasia Brasileira, assinando a coreografia. É laureado em 1999 pela iniciativa São Paulo Dança Moderno do Sesc Pinheiros e recebe o prêmio Personalidade da Dança da revista Dança Brasil. Em 2001, idealiza e coordena a 1ª Mostra de Dança Ismael Guiser, com apresentações de grupos e companhias brasileiras. Nesse mesmo ano, inicia colaboração com a Revista Dançar, entrevistando artistas da cena nacional. Sua trajetória artística é documentada no projeto Figuras da Dança, de 2009.

Análise

A carreira do argentino Ismael Guiser é marcada por distintos empreendimentos na área da dança. Ele cria, na cidade de São Paulo, duas escolas de dança, uma companhia e encontros dedicados ao intercâmbio entre profissionais da área. Guiser ocupa muitas funções, mas é a de professor de balé clássico que faz dele uma personalidade da dança brasileira. 

Como bailarino, tem trajetória relevante, integrando importantes companhias profissionais argentinas e europeias que o colocam em lugar de destaque. É convidado pelo húngaro Aurel von Milloss (1906-1988) a compor como solista, em 1954, o elenco do Ballet do IV Centenário. Diferentemente da maioria dos bailarinos da companhia, oriundos de escolas de dança das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, Guiser contribui com seus colegas nas produções coreográficas, valendo-se da experiência conquistada nesse percurso.

Após a extinção do Ballet do IV Centenário, em 1955, são poucas as possibilidades de continuar a dançar profissionalmente. As oportunidades profissionais encontram-se nos trabalhos realizados para a televisão e na criação de coreografias para eventos e filmes. Surgem convites para dar aula, coreografar e dirigir companhias nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma nova fase se configura: de bailarino a coreógrafo, diretor e professor de balé. 

Coreografar parece ser, em primeira instância, a atividade principal de Guiser. Essa prática inicia-se em 1955, no Ballet Museu de Arte de São Paulo, e intensifica-se nos anos seguintes. São títulos criados em vários grupos e companhias nesse período. Por... que (2008), é a última criação para a Cisne Negro Cia. de Dança. O espírito empreendedor de Guiser estimula-o a fundar, em 1973, a Escola de Dança Ismael Guiser, em parceria com a professora de balé clássico Yoko Okada, que atua em companhias de São Paulo e festivais de dança no Brasil. Na ocasião, fazem parte da grade de cursos aulas de balé clássico e moderno, jazz e sapateado, frequentadas por bailarinos brasileiros e estrangeiros. Nesse momento acontece uma mudança de rumo na carreira de Guiser: mesmo coreografando até 2008, as aulas tornam-se o cerne de seu fazer artístico.

“Maestro” - é dessa forma que os profissionais da área da dança se referem a Ismael Guiser. A aula do “Maestro” é reverenciada em todos os cantos do Brasil, por gerações de bailarinos e professores que buscam aprimoramento técnico, reconhecimento e espaço de troca de experiências. Dentre eles, destacam-se os bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ana Botafogo (1957), Marcelo Misailidis, Paulo Rodrigues e os artistas com percursos em companhias paulistas Beth Risoléu (1955), Luciana Porta, Robson Lourenço, Liris do Lago, Miriam Druwe, Susana Yamauchi (1957), Sandro Borelli (1959) e Key Sawao (1964). 

Conhecido por mesclar humores variados, suas aulas são marcadas pela exigência e pelo rigor técnico: convida o bailarino-aluno a chegar cedo para se aquecer, a primar pela disciplina, falar pouco e estar atento aos exercícios, repetindo-os quantas vezes solicitado. A musicalidade também é rigorosamente exigida dos alunos, pois para ele os bailarinos “escolheram a arte da paciência e das inúmeras repetições, procurando a tão sonhada perfeição”6. Esse articulador da dança interessa-se em criar uma Escola Brasileira de Dança voltada às especificidades da cultura do corpo brasileiro.

Guiser encara a dança como profissão de trabalho e dedicação, intitulando-se, em entrevistas, de “operário da dança”. Ao inaugurar com Okada o Ballet Ismael Guiser, em 1978, lança no mercado nova possibilidade de trabalho para a classe da dança. Por ela, passam muitos bailarinos que, após o aprendizado, levam o passaporte de entrada nas companhias de referência do Brasil e do exterior. Estudar com Guiser também abre oportunidades de trabalho para coreógrafos. No repertório da companhia, há assinatura de Luis Arrieta (1951), Raymundo Costa (1958), Ivonice Satie (1950-2008), Yoko Okada, Sonia Mota, Victor Navarro (1944) e de outros. As obras coreográficas do grupo, a grande maioria composta por Guiser, constituem-se do entendimento do balé filiado ao conjunto de obras dançadas por ele quando bailarino. Assim, ele estabelece diálogo artístico entre o balé clássico e o balé moderno dos anos 1950. Sua lógica coreográfica parte da definição de um tema e a organização se dá com a elaboração de passos oriundos das técnicas clássica e moderna, sendo a música a responsável por definir o tônus das coreografias.

Na década de 1990, estimulado por novas tendências da dança e pelo convívio com outros profissionais de projeção na área, especialmente com seu colega argentino, o bailarino e coreógrafo Luis Arrieta, Guiser propõe novo direcionamento para a pesquisa criativa: “Pela primeira vez na vida faço uso de linguagens diferentes da dança clássica. […] Misturo improvisação com técnicas derivadas da dança moderna americana”, explica. “Este programa é um grande laboratório: se eu ficasse como há vinte anos, estaria superado, se me mudasse, seria esquecido”7.

A lista de ações de Guiser, que inclui a inauguração de sua escola e da companhia, a Gala, a Mostra de Dança Ismael Guiser, a participação em vários festivais de dança, as coreografias e o desejo de criar um método brasileiro de dança evidencia seu modo de lidar com a dança. Sempre sugerindo novas propostas para se pensar e produzir dança no Brasil, faz das aulas de balé clássico sua especialidade maior: ser um mestre.

Notas

1 A mais antiga companhia de dança da América do Sul, fundada em 1925.

2 Companhia paulista criada em 1953 para as comemorações do 4º Centenário da capital. Dirigida pelo húngaro Aurel von Milloss, estreia em novembro de 1954, apresentando seu repertório completo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1954. Encerra as atividades em 1955.

3 Responsável pela rotina de ensaios de uma companhia. Às vezes também atua como diretor, coreógrafo e professor.

4 Companhia fundada pelo diretor teatral e produtor carioca Abelardo Figueiredo (1931-2009).

5 Companhia clássica criada em 1956 por Dalal Achcar, na cidade do Rio de Janeiro.

6 Texto publicado no Jornal da Dança, em 2007.

7 Jornal da Tarde, 1997.

Outras informações de Ismael Guiser:

  • Habilidades
    • coreógrafo
    • diretor
    • professor de dança
    • Bailarino
  • Relações de Ismael Guiser com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (4)

Fontes de pesquisa (8)

  • ISMAEL GUISER - Figuras da Dança. Direção: Ines Bogéa e Antonio Carlos Rebesco. São Paulo: São Paulo Cia. de Dança, 2008. Vídeo (25 min.). In: BRAGATO, Marcos. Guiser mostra sua dança renovada. Jornal da Tarde, São Paulo, 1997.
  • BRAGATO, Marcos. Guiser completa meio século de arte. Depoimento a Marcos Bragato, Jornal da Tarde, São Paulo, 1996.
  • FARO, Antonio José. Pequena história da dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
  • FARO, Antonio José; SAMPAIO, Luiz Paulo. Dicionário de balé e dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
  • KATZ, Helena. Ismael Guiser estreia no Teatro Galpão. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 1980.
  • PONZIO, Ana Francisca. Guiser leva ao palco “O descobrimento”. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1999.
  • SUCENA, Eduardo. A dança teatral no Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura: Fundação Nacional de Artes Cênicas, 1989.
  • VICENZIA, Ida. Dança no Brasil. Rio de Janeiro: Funarte; São Paulo: Atração Artística, 1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ISMAEL Guiser. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109075/ismael-guiser>. Acesso em: 25 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7