Artigo da seção pessoas Alain Fresnot

Alain Fresnot

Artigo da seção pessoas
Teatro / cinema  

Biografia
Alain Fresnot (Paris, França, 1951). Roteirista, produtor, montador e cineasta. Migra com a família de origem judaica aos oito anos de idade para Campinas, onde seu pai instala uma pequena fábrica. Já em São Paulo, frequenta o Foto-Cine Clube Bandeirante e, entre os 15 e 16 anos, o Curso Livre de Cinema da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e o Curso Superior de Cinema da Faculdade São Luiz. Faz pequenos filmes em Super-8 e a continuidade para o longa As Amorosas (1968). Aluno da turma de 1971 a 1974 da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), filma curricularmente os curtas-metragens Pêndulo e Doces e Salgados (1974).

No mesmo período, durante dois ou três anos, trabalha como estagiário não remunerado na Cinemateca Brasileira e difunde um pequeno acervo de 16 mm da instituição em companhia de Felipe Macedo (1952), que então reorganiza o movimento cineclubista. Também edita Cinemateca, pequena revista mimeografada, e realiza Nitrato (1975). Viabiliza seu primeiro longa, Trem Fantasma (1976), ao fundar a Acauã Produções, base da futura produtora Tatu Filmes, uma das que concentra a estimulante produção do chamado Cinema da Vila Madalena da década de 1980. É assistente de montagem na Blimp Filmes, corroteirista, assistente de direção e montador de Doramundo (1977), montador de O Homem que Virou Suco (1979), diretor do curta Capoeira (1979), assistente de direção de Eles Não Usam Black Tie (1981), montador de Janete (1982) e de A Marvada Carne (1984). 

Funda a  A. F. Cinema e Vídeo e realiza o curta Amor que Fica (1986) e os longas Lua Cheia (1988), Ed Mort (1996), Desmundo (2003) e Família Vende Tudo (2011). Produz os longas Kenoma (1998), Através da Janela (2000), Castelo Rá-Tim-Bum (2000) e Saudade do Futuro (2001). Atua na primeira diretoria paulista da Associação Brasileira de Documentaristas (1973) e nas presidências da Associação Paulista de Cineastas (2001-2003) e da Comissão Estadual de Cinema de São Paulo (2004-2006). Trabalha nos projetos O Princesa de Corfu, Xique no Úrtimo e Raul, o Início, o Fim e o Meio.

Análise de trajetória
A estreia de Alain Fresnot como realizador em Trem Fantasma invoca a tirania do trabalho e da repressão familiar, de maneira simplória, como reconhece o cineasta, mas dando vida a personagens que, nas palavras de Jean-Claude Bernardet, representam de maneira original e sincera a juventude do momento. Feito com e para jovens, dentro de um regime independente de produção, o filme só é exibido no circuito alternativo.

Grande parte da carreira do cineasta, a partir de então, se consolida na militância em organismos de classe e órgãos estatais de cultura e na criação de meios sustentáveis de produção, desempenhando em filmes alheios o papel de produtor ou de colaborador nas demais funções técnicas. Os poucos exemplos de realização de cunho pessoal evidenciam uma cinematografia de narrativa clássica e personagens fortes, atenta ao realismo, que alterna ou combina registros dramáticos e cômicos. Cada filme molda-se conforme as exigências do gênero ou da expectativa do diretor quanto à receptividade do mercado.

Lua Cheia (1988), seu primeiro filme profissional, relata em tom farsesco as trapalhadas de um poderoso usineiro, que quando sóbrio administra com truculência seus negócios e quando bêbado deixa  irromper seu desejo de ser amado e magnânimo. Os desvarios do fazendeiro-empresário, em contraponto à fleuma e à elegância cínicas de seu motorista, demonstram a pretensão de apreender um Brasil que oscila entre o autoritarismo e a recente democracia implantada. O filme, realizado nos estertores do chamado Cinema da Vila, do qual o cineasta é integrante ativo desde sua emergência nos primórdios dos anos 1980, escapa da dimensão alegorizante modelada pelo cinema novo, da qual a geração de Fresnot procura libertar-se, mas não encontra público para dialogar, diante da crise que acaba por fulminar o cinema brasileiro logo no início de 1990.

Na tentativa de atrair o público necessário a um cinema de retomada que busca afirmação em outras bases de financiamento, o cineasta arrisca por dois caminhos. O primeiro, a comédia Ed Mort (1996), ancora-se na personagem criada pelo cronista Luis Fernando Veríssimo (1936) e num elenco estelar que inclui a participação, entre outros, dos cantores Chico Buarque (1944) e Gilberto Gil (1942) em papéis secundários. O detetive brasileiro, apalermado e em contínua dificuldade financeira, termina enredado pelo mistério que une um chantageador, um delegado, um empresário e uma apresentadora de programa infantil de televisão no sequestro de crianças, cuja carne é aproveitada na industrialização de alimentos. A comicidade é leve nas piadas verbais mas se tensiona pelo entrecho dramático que tende à sátira social de compromisso mais corrosivo.

O segundo, o do caminho dos filmes históricos, leva o cineasta à adaptação de Desmundo (2002), romance de Ana Miranda (1951). A câmera assume o papel de um cronista rigoroso, que contempla a fala de época e a descrição pormenorizada dos costumes dos primeiros colonizadores portugueses no Brasil do século XVI. Numa impressionante “arqueologia da família patriarcal brasileira” e “seu subsolo de opressão”, conforme analisa o crítico Ismail Xavier (1947), uma órfã chega de Portugal para servir de esposa a um desbravador cujo objetivo é expandir suas propriedades, nas quais ela se inclui. Rebelde por princípio às obrigações impostas pelos homens, ela acaba por render-se ao mundo inclemente que se constrói à sua revelia.

Já Família Vende Tudo (2011) retorna ao registro cômico para abordar o “jeitinho” brasileiro reformatado pelos novos hábitos de uma família da periferia de São Paulo. Acuada por crescentes necessidades financeiras, a programada gravidez da filha é motivo para a extorsão que se promove contra um astro da música brega. A combinação de união familiar com a prostituição velada, o universo do espetáculo e a religiosidade evangélica resulta em filme de apelo popular mas, apesar de ter sido parcialmente financiado pela Globo Filmes, não obtém compensação nas bilheterias.

Notas
1 Press-release do filme.
2 O Brasil havia passado por um período de ditadura militar (1964-1985), em que se que censurava todos os tipos de obra que fosse considerada subversiva, ou seja, que não se alinhasse a seu ideário.
3 Durante a presidência de Collor de Mello (1990-1992), a Embrafilme, empresa estatal que subsidia o cinema nacional, é fechada. Com esse evento e uma série de sanções econômicas, a produção audiovisual entra em declínio.  
4  Ver prefácio de FRESNOT, Alain. Um cineasta sem alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.  p. 15.

Outras informações de Alain Fresnot:

  • Outros nomes
    • Alain Fresnot
  • Habilidades
    • ator
    • cineasta
    • Produção

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Fontes de pesquisa (7)

  • NAGIB, Lúcia. O Cinema da Retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 201-208.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Trem fantasma. São Paulo: Dinafilme, 1977. [Press-release do filme, doc. 615/3 do acervo da Cinemateca Brasileira].
  • FRESNOT, Alain. Um cineasta sem alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
  • LEAL, Hermes. Alain Fresnot: não vivemos em Hollywood. Revista de Cinema, São Paulo, ano 2, n. 14, jun. 2001, p. 10-18.
  • LEAL, Hermes. Alain Fresnot: não vivemos em Hollywood. Revista de Cinema, São Paulo, ano 2, n. 14, jun. 2001, p. 10-18.
  • PERAÇOLI, Fabio; CANNITO, Newton. Entrevista com Alain Fresnot. Novo Cinema, São Paulo, ano 1, n. 6, mai. 1997. p. 8-9.
  • TEATRO do Ornitorrinco. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009. 792.0981 To253

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ALAIN Fresnot. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa108143/alain-fresnot>. Acesso em: 18 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7