Artigo da seção pessoas Glauber Rocha

Glauber Rocha

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deGlauber Rocha: 14-03-1939 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Vitória da Conquista) | Data de morte 22-08-1981 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Terra em Transe [cartaz] , 1967
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Biografia

Glauber Pedro de Andrade Rocha (Vitória da Conquista, Bahia, 1939 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1981). Cineasta, escritor. Passa a infância em Vitória da Conquista, onde recebe educação presbiteriana. Durante o ensino médio, em Salvador, frequenta o Clube de Cinema da Bahia, dirigido pelo crítico Walter da Silveira (1915-1970), e assiste a clássicos do cinema mundial e produções do neorrealismo italiano.

Entre 1956 e 1957, organiza no colégio as Jogralescas, espetáculos com dramatização de poemas modernistas; colabora como crítico em jornais; apresenta um programa de rádio sobre cinema; funda a produtora Yemanjá Filme e elabora os primeiros projetos como produtor e realizador de cinema. Em 1958, viaja pelo sertão nordestino, entra em contato com a cultura popular e conhece a penúria da região, realidade que revisita em seus filmes. No mesmo ano, ingressa na faculdade de direito da Bahia e frequenta a escola de teatro da instituição. Em 1959, lança o curta experimental Pátio, com a atriz Helena Ignez (1942), e filma Cruz na Praça, obra inacabada. Em 1961, inicia as gravações de Barravento, exibido no Brasil apenas em 1967.

Com o livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1963), e o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Glauber consolida-se como maior liderança do cinema novo1. A estreia do filme acontece alguns meses após o golpe de Estado, em abril de 1964. Irritados, os militares proíbem a exibição da película. Entretanto, com o êxito internacional do filme no Festival de Cannes, o longa é liberado para maiores de 18 anos. Nesse período, o diretor viaja pela Europa e América, permanecendo fora do país até 1965, ano em que apresenta em Gênova, Itália, o manifesto Estética da Fome. Quando retorna ao Brasil, é preso com outros sete intelectuais – entre eles, Antonio Callado (1917-1997), Mário Carneiro (1930-2007) e Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) –, por protestar contra o regime militar em reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). O episódio ganha repercussão nacional e internacional2. Em 1966, realiza os documentários Amazonas, Amazonas e Maranhão 66. Em 1967, lança Terra em Transe, marco na produção cultural brasileira. Proibido em todo território nacional durante meses, o filme conquista vários prêmios, como o de melhor filme no Festival de Havana, Cuba.

Em 1968, ano de agitação política no mundo, grava o documentário 1968,  inacabado, e o filme experimental Câncer. Em 1969, lança O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, longa que recebe o prêmio de melhor direção no festival de Cannes. Em 1970, a convite do cineasta francês Jean-Luc Godard (1930), participa como ator do filme Vent d’Est. Com prestígio na Europa, em 1970, obtém recursos para gravar Cabezas Cortadas, na Espanha, e Der Leone Have Sept Cabezas, no Congo. Em 1971, lança o manifesto Estética do Sonho. Permanece no exílio entre 1972 a 1976, mas continua produzindo no exterior. Em 1974, em Havana, realiza História do Brasil. Em 1975, na Itália, filma Claro. De volta ao país, em 1977, grava os documentários Di Cavalcanti Di Glauber e Jorje Amado no Cinema. Em 1980, realiza seu último filme, Idade da Terra, que participa do Festival de Veneza com repercussão e polêmica.

Análise

Entre os cineastas do cinema novo, Glauber Rocha é o que traduz, de modo explícito, a célebre formulação do poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930): “não existe arte revolucionária, sem forma revolucionária”. O diretor é reconhecido por se apropriar de inovações formais do cinema moderno europeu, para formular filmes políticos que expressem a realidade dos chamados “países subdesenvolvidos”. O uso da câmera na mão, a montagem descontínua, a teatralização do espaço e da encenação, a presença cênica da natureza, o improviso dos atores, entre outros recursos formais, incorporam-se às manifestações da cultura popular, sobretudo religiosas, distanciando os filmes de Glauber das fórmulas do cinema comercial produzido em estúdio. O resultado é um estilo original, que, utilizando técnicas de montagem do cineasta soviético Sergei Eisenstein (1898-1948), produz alegorias políticas.

Em Barravento, longa de estréia do diretor, o uso simbólico da imagem está associado ao tema da luta de classes e da religião como alienação coletiva. Gravado na praia de Buraquinho, região de pescadores negros descendentes de escravos, o filme começa quando Firmino retorna à comunidade natal e produz tensões na aldeia. A película aborda a cultura dos pescadores: a capoeira, o samba de roda e o candomblé, “feitiço religioso” considerado por Firmino como causa da passividade da comunidade diante da exploração da indústria pesqueira. O filme apresenta aspectos do culto afro-brasileiro, ao mesmo tempo em que o personagem Firmino denuncia seu caráter alienante.  

A crítica da religião prossegue em Deus e o Diabo na Terra do Sol, circunscrita ao universo sertanejo. O filme associa a miséria do sertão à exploração do trabalho do camponês e, para superar a luta de classes, incorpora a lógica da profecia cristã. No interior dessa divisão, Deus e Diabo tornam-se forças sociais em conflito. A narrativa inicia-se com Manuel prestando serviços para um coronel. Após um desentendimento em torno de uma partilha de gado, Manuel mata-o e foge com Rosa. Começa uma trajetória errante pelo sertão. A revolta, associada a Manuel, é simbolizada por duas figuras do imaginário nordestino: o Profeta Sebastião e o Cangaceiro Corisco. O primeiro tem como referência Antônio Conselheiro e a revolta de Canudos e representa o misticismo popular; o segundo é o cangaceiro mais famoso do bando de Lampião. São esses os  dois polos indicados no título do filme. A teatralidade da cena vinculada à literatura de cordel é visível na sequência em que Corisco, Dadá, Manuel e Rosa aguardam o encontro com Antônio das Mortes. Como destaca Ismail Xavier (1947) “[...] câmera e atores se deslocam de modo a traduzir visualmente o que é dito nos versos, numa representação que funde o espaço das imagens e o espaço da canção de cordel”3.

Após o golpe militar de 1964, o diretor produz dois documentários, Amazonas, Amazonas e Maranhão 66, que contribuem para a concepção estética e política do filme seguinte, Terra em Transe. A geografia da floresta amazônica e as imagens do comício populista de José Sarney (1930) são reencontradas no longa de ficção, cujo balanço estético-político sobre as razões da queda do ex-presidente João Goulart (1919-1976), Jango, gera impacto na esquerda da época. Como no filme anterior, Terra em Transe condensa nos personagens as forças sociais em conflito, relacionadas, agora, ao contexto do Brasil da primeira metade da década de 1960. O protagonista é Paulo Martins, poeta e intelectual de Eldorado, país fictício do filme. Ele oscila entre várias tendências políticas, representadas nas figuras de D. Porfirio Diaz, político da direita tradicional, D. Felipe Vieira, governador populista e demagógico, e D. Júlio Fuentes, dono de um império de comunicação. O filme rememora, de modo fragmentado, o percurso de Paulo, enquanto ele agoniza nas dunas, após receber um golpe de Diaz. Com teatralidade e indumentárias carnavalescas que remetem à épocas distintas da história do país, Terra em Transe acentua aspectos grotescos da realidade brasileira e enfatiza a distância entre política institucional e população.  O filme tem grande repercussão e torna-se referência cultural do final da década de 1960, influenciando produções no cinema, no teatro e na música popular.

Depois de Terra em Transe, o diretor realiza O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, em que retorna ao tema do cangaço, às manifestações da cultura sertaneja e ao personagem Antônio das Mortes. Coirana e um grupo de cangaceiros invadem Jardim das Piranhas e ameaçam a ordem vigente. Apesar da oposição do coronel Horácio, o delegado Mattos contrata Antonio das Mortes para exterminar o bando. Com longos planos-sequências e improviso dos atores, o filme apresenta, de forma alegórica, a conjuntura política e social do Brasil naquele final de década. O dragão é uma encenação utilizada para apresentar os limites políticos de uma luta que parece extemporânea à conjuntura política e à modernização conservadora da ditadura em fins dos anos 1960.

Depois desse filme, Glauber radicaliza as experiências estéticas, com obras de difícil compreensão para o público. Seu último filme, A Idade da Terra, é um grande afresco de episódios decisivos da história da humanidade, projetados na conjuntura brasileira do final da década de 1970.  A narrativa fragmentada, o improviso dos atores, as cenas documentais e os longos planos-sequências procuram condensar a formação social do Brasil, dividido entre classe dirigente e população trabalhadora e expresso em manifestações culturais e religiosas. Idade da Terra encerra a trajetória de Glauber Rocha como cineasta em busca da inovação da linguagem cinematográfica e incansável na denúncia política e social.

Notas

1 O cinema novo é um movimento de renovação da linguagem cinematográfica brasileira, marcado pelo realismo e pelo modo crítico de retratar a situação social do país. Seus filmes caracterizam-se pela concepção de cinema autoral e pelo baixo orçamento de produção, coerente com as condições do Brasil da época.

2 A detenção dos 8 da Glória, como ficam conhecidos os artistas presos, motiva o envio de um telegrama de protesto ao governo militar, assinado por importantes cineastas, como o holandês Jori Ivens (1898-1989) e os franceses François Truffaut (1932-1984), Jean-Luc Godard (1930) e Abel Gance (1889-1981).

3 XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber e a estética da fome. São Paulo: Cosac & Naify, 2007. p.75.

Outras informações de Glauber Rocha:

  • Outros nomes
    • Glauber Pedro de Andrade Rocha
    • Gláuber Rocha
  • Habilidades
    • cineasta
  • Relações de Glauber Rocha com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Glauber Rocha: (4) obras disponíveis:

Representação (1)

Espetáculos (5)

Exposições (1)

Eventos relacionados (7)

Fontes de pesquisa (9)

  • ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo, Cosac & Naify, 2003.
  • RAMOS, Pessoa Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe A. de (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2002.
  • FONSECA, Paulo Yasha Guedes da. 4 Dias pra Filmar, 4 Anos pra Montar e Sincronizar: o problema da temporalidade em Câncer de Glauber Rocha. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
  • GARDIÉS, René. Glauber Rocha – Política, Mito e Linguagem. In: SALLES, Paulo Emílio (Org.). Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
  • GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha, esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
  • Programa do Espetáculo - TBC Apresenta Arena-Opinião - 1965 Não catalogado
  • VALENTINETTI, Claudio M. Glauber, um olhar europeu. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi; Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio de Janeiro, 2002.
  • XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. 2. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2012.
  • XAVIER, Ismail. Sertão mar: Glauber e a estética da fome. 2. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GLAUBER Rocha. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10814/glauber-rocha>. Acesso em: 21 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7