Artigo da seção pessoas Suzana Amaral

Suzana Amaral

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deSuzana Amaral: 28-03-1928 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Suzana Amaral Rezende (São Paulo, São Paulo, 1928). Cineasta, diretora de TV, crítica de cinema e professora. Em 1968, ingressa no curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), concluído em 1971. Neste período realiza os curtas-metragens Eu sou Vocês, Nós Somos Eles, Semana de 22, ambos de 1970, e Sua Majestade, Piolin (1971).

Em 1972 ministra aulas de roteiro e fotografia na ECA/USP. Produz e dirige programas para a TV Cultura de São Paulo, até 1987, entre eles o curta-metragem Erico Veríssimo (1975) - por ocasião da morte do escritor.

Inicia, em 1976, o mestrado em direção de cinema na Tisch School of the Arts da New York University (NYU). Conclui, em 1978, o curso de atuação e direção de filmes no Actor's Studio, também em Nova York. Finaliza seu mestrado em 1979 com o documentário Minha Vida, Minha Luta, que conquista o prêmio de melhor média-metragem no Festival de Brasília. Retorna às atividades na televisão com a direção da série Pensamento e Linguagem, em parceria com a Fundação holandesa Bernard Van Leer, e A Casa de Bernarda Alba, adaptação da obra do escritor espanhol Federico García Lorca (1898-1936).

Prepara o roteiro do seu primeiro longa-metragem, em 1984, que dirige e finaliza no ano seguinte: A Hora da Estrela, baseado no romance de Clarice Lispector (1920-1977). O filme estreia com boa acolhida da crítica, recebendo muitos prêmios, tanto nacionais quanto internacionais: doze prêmios no Festival de Brasília; o Urso de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo no Festival de Berlim; prêmio no Festival de Havana; participações e prêmios em festivais europeus, asiáticos e latino-americanos, além da condecoração com a Ordem do Rio Branco, em 1990, pela contribuição do filme à divulgação do Brasil no exterior.

Preside comissões julgadoras de festivais internacionais, entre eles o de Havana (1987) e de Berlim (1990). Participa de conferências nos Estados Unidos, Espanha e Alemanha e dirige, em 1992, a minissérie Procura-se, para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP). Entre 1993 e 1995 dirige filmes institucionais e comerciais para empresas produtoras, como a campanha Gente Que Faz, do banco Bamerindus.

Trabalha como crítica de cinema para o jornal Folha de S.Paulo, além de compor o júri em várias edições da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Retorna à produção cinematográfica, em 1996, quando corroteiriza O Caso Morel, projeto não realizado, adaptação do romance homônimo de Rubem Fonseca (1925), e prepara o roteiro de seu segundo longa-metragem, que dirige em 2001: Uma Vida em Segredo, da obra do escritor Autran Dourado (1926). No mesmo ano, roteiriza e dirige o documentário Demarcando o Cacique Fontoura, sobre a questão das terras dos índios Carajás.

Volta a dar aulas de cinema na ECA/USP entre 1999 e 2001 e, no ano seguinte, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Em 2009 finaliza Hotel Atlântico, seu terceiro longa-metragem, baseado no livro homônimo de João Gilberto Noll (1946). No mesmo ano é homenageada no Festival de Toronto em seção dedicada aos mestres do cinema.

Análise

A paixão pela literatura é algo evidente, e declarado, na trajetória de Suzana Amaral. A cineasta entende que muitos clássicos do cinema, nacionais e estrangeiros, resultam de obras literárias, e é nisso que aposta para a realização de seus projetos no cinema e televisão, ainda que observando a necessidade de recriação, para além da adaptação, das obras originais.

Outro aspecto do seu método de trabalho é alimentar-se das contribuições que os próprios atores trazem das suas leituras sobre a obra original, e não apenas do roteiro. Assim, o texto literário serve também como mediador da sua relação com os atores, como na metodologia utilizada para a realização de A Hora da Estrela (1985), Uma Vida em Segredo (2001) e Hotel Atlântico (2009).

Realizados no período de vinte e quatro anos, seus três longas-metragens são marcados, segundo a própria cineasta, pelo uso da técnica a serviço da emoção, que resulta da forma como se expõe o conteúdo de um drama, moldado à sua forma pessoal de fazer cinema. Seus filmes enfatizam a caracterização interna dos personagens, e é evidente a apurada técnica na direção de atores para a criação de uma atmosfera intimista, reveladora dos sentimentos, como se pode observar nas premiadas atuações de Marcélia Cartaxo, a Macabéa em A Hora da Estrela; e de Sabrina Greve, a Biela de Uma Vida em Segredo.

Em seus filmes, Suzana Amaral concebe cada narrativa apoiada num projeto estético específico. Em A Hora da Estrela, por exemplo, opta pelo tom minimalista em toda sua estrutura, levando em conta os detalhes para a coerência do todo, dos protagonistas aos cenários por onde a narrativa se desenvolve. Locações, atores, cores, trilhas sonoras são pontos importantes na recriação da obra literária e no cuidado com a essência do romance original. Tal procedimento constrói, com diálogos, gestos, vestimentas, olhares e atitudes de Macabéa e seu namorado Olímpico um filme que tira o máximo do mínimo, com uma simplicidade ricamente detalhada. No filme ela deixa de ser anunciada por um personagem escritor e encarna, ela mesma, a pobreza existencial e a sensação de estar pouco à vontade no mundo.

O êxito de A Hora da Estrela junto ao público - distribuído para mais de dez países da Europa e mais de cinco meses em cartaz no eixo Rio-São Paulo - só é superado pela excelente recepção da crítica nacional e estrangeira, com elogios e prêmios para o roteiro, a fotografia e a direção e o trabalho de atores, e principalmente para a performance de Marcélia Cartaxo que encarna toda a pobreza existencial e a sensação de estar pouco à vontade no mundo da personagem Macabéa.  Assumindo a forma narrativa do filme clássico, a diretora alcança um estilo realista, de observação direta da experiência da personagem, sem fazer uso da figura do narrador, presente no romance de Clarice Lispector, foco de uma dimensão reflexiva bem próprio da obra da escritora. Em Uma Vida em Segredo, Suzana Amaral também lida com o "não glamour" de seu filme anterior, desta vez num cenário interiorano. A personagem Biela, tão desengonçada quanto Macabéa, comporta uma personalidade rica em nuance emotiva, bem retratada em sua ingenuidade..Mas percalços no desenvolvimento da trama a deixam sem a força e a simplicidade do primeiro longa.

Em Hotel Atlântico, Suzana Amaral desloca o campo de experiências tratado. Apresenta uma narrativa não convencional, um road-movie protagonizado por um personagem à deriva. Alberto (apresentado apenas como "ator") não explica a sua busca - se é que busca algo - e transita no seu presente habitado por personagens imprevisíveis e sem preocupações psicológicas. Hotel Atlântico rompe com a narrativa clássica e o estilo intimista e emocional dos filmes anteriores, pois trabalha esteticamente novas formas cinematográficas, numa linguagem mais arrojada. A autora o considera uma obra aberta, distante de filmes de sucesso que se aproximam da estética televisiva.

Outras informações de Suzana Amaral:

Obras de Suzana Amaral: (1) obras disponíveis:

Eventos relacionados (6)

Fontes de pesquisa (40)

  • AMARAL, Suzana.  A Hora da Estrela. Adaptação de Suzana Amaral e Alfredo Oroz do livro homônimo de Clarice Lispector. Roteiro de filme. São Paulo: Raíz Produçöes Cinematográficas, 1984.
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  • RAMOS, Fernão (org.); MIRANDA, Luiz Felipe (org.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. p.21

Como citar?

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  • SUZANA Amaral. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa107480/suzana-amaral>. Acesso em: 16 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7