Artigo da seção pessoas Lula Cardoso Ayres

Lula Cardoso Ayres

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro  
Data de nascimento deLula Cardoso Ayres: 26-09-1910 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 30-06-1987 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)
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Noivado no Copiar , 1943 , Lula Cardoso Ayres
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Biografia
Luiz Gonzaga Cardoso Ayres (Recife PE 1910 - idem 1987). Pintor, fotógrafo, desenhista, ilustrador, muralista, cenógrafo. Estuda desenho e pintura com Heinrich Moser, entre 1922 e 1924. Viaja para Paris em 1925, visita a 1ª Exposição Internacional de Arte Decorativa, frequenta museus e ateliês de pintores como Maurice Denis e entra em contato com os movimentos artísticos modernos da Europa. Regressa ao Brasil no ano seguinte. No Rio de Janeiro, estabelece ateliê no bairro de Laranjeiras, frequenta informalmente a Escola Nacional de Belas Artes - Enba, e tem aulas de modelo vivo com Rodolfo Amoedo. No ateliê de Carlos Chambelland, estuda desenho e pintura. Conhece Candido Portinari, de quem se torna amigo. Profissionalmente, realiza cenários para teatro e atua como ilustrador e caricaturista na revista Para Todos.

No fim de 1932, volta a Pernambuco para ajudar a administrar a usina de açúcar da família, e reside em Cucaú, interior do Estado, até 1944. Realiza incursões por pequenos povoados da região e da observação dos costumes, festas, manifestações artísticas populares resultam diversos desenhos e uma extensa produção fotográfica. Interessa-se sobretudo pela cerâmica popular, que procura explorar em sua produção plástica em telas e aquarelas. Em 1934, no 1º Congresso Afro-Brasileiro do Recife, conhece o pintor Cicero Dias, o psiquiatra Ulysses Pernambucano e o sociólogo Gilberto Freyre (1900- 1987), com quem mantém uma forte ligação a partir de então. Os negócios da família sofrem grave crise em 1945, então Lula retorna ao Recife e procura alternativas para sustentar-se economicamente. Executa painéis e murais em várias cidades brasileiras, entre ele se destaca o elaborado para o Aeroporto dos Guararapes, no Recife, que retrata a vida cotidiana e festiva nordestina e faz ilustrações para obras de autores como Manuel Bandeira (1886 - 1968) e Ascenso Ferreira. Em 1947, funda um curso de desenho para crianças. Como professor, atua na Escola de Belas Artes do atual Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.

No início da década de 1950, sua produção volta-se para o abstracionismo. Participa das três primeiras Bienais de São Paulo, entre 1951 e 1955. Em 1960, realiza exposição retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, organizada por Pietro Maria Bardi, com destaque aos seus trabalhos mais recentes. Em meados dos anos 1960, sua produção retoma a figuração em representações femininas, de bichos ou animais fantásticos. Realiza, em 1984, painéis para o metrô do Recife. Após sua morte, é homenageado pela Associação dos Artistas Plásticos Profissionais do Recife.

Comentário crítico
A formação artística de Lula Cardoso Ayres se inicia cedo, aos 12 anos, trabalhando como ajudante do artista alemão Heinrich Moser no Recife, com quem adquire os primeiros conhecimentos das técnicas artísticas.

Viaja por Paris por um ano, e ao retornar, em 1926, aprimora sua formação estudando com Carlos Chambelland, e dessa experiência recorda dos exercícios de desenho com modelos de gesso, que lhe conferem o domínio dos meios-tons na representação dos volumes.

Sua inserção profissional no meio das artes se dá inicialmente através da ilustração, atividade que exerce com intensidade nos anos 1930 no Rio de Janeiro, e retoma na década de 1940 no Recife. Em sua produção gráfica carioca, que frequentemente retrata a figura feminina e as novas conquistas da modernidade, nota-se a influência do art déco.

Em 1931, produz a ambientação para o espetáculo O Espelho de Próspero, sendo responsável pela criação dos painéis, escolha dos móveis e decoração. O partido não realista e subjetivo de sua cenografia, uma ousadia para os padrões da época, desperta o interesse de teatrólogos como Paschoal Carlos Magno e Renato Viana, que publicam comentários elogiosos a respeito do artista na imprensa. Outro trabalho que realiza nesse campo é a pintura de um grande painel para o carnaval do Clube Internacional do Recife, em 1941, em que retrata cenas do maracatu, do cortejo de reis e outras folias populares.

Em seu processo de pesquisa artística, Ayres começa a realizar fotografias sobre diversos aspectos da vida das populações rurais. No decorrer dos anos 1930 e 1940, intensifica o interesse antropológico por modos de vida e rituais, em parte estimulado pela convivência com o poeta Ascenso Ferreira e o sociólogo Gilberto Freyre. Produz grande quantidade de fotografias e também diversos desenhos de manifestações como o bumba meu boi, o maracatu, o carnaval, os rituais do candomblé e de populações indígenas. Parte das fotografias hoje integra o acervo do Museu do Homem do Nordeste.

De sua vivência no interior de Pernambuco, se interessa acima de tudo pela cerâmica popular. Ao tomar contato com essa produção, procura transferir para o desenho e a pintura as cores e formas das esculturas de barro. Os primeiros desenhos realizados buscando representar a forma e a constituição dos bonecos de barro datam de 1940. Para o crítico Clarival do Prado Valladares, autor de um cuidadoso estudo sobre o artista, a descoberta da cerâmica popular orienta grandemente a produção de Ayres, e é o caminho pelo qual ele se aproxima do cubismo sintético. Tal referência à cerâmica pode ser notada nas formas maciças da figura humana, nos volumes arredondados da vegetação e na estaticidade dos bichos em trabalhos como os óleos sobre tela Representação do Bumba-Meu-Boi e Noivado no Copiar e nas aquarelas Bolo de Noiva e Passeio a Cavalo, todos de 1943.

Em um conjunto de trabalhos, produzidos entre 1945 e 1946, Ayres explora as fantasmagorias e assombrações. Tal universo, que remete as narrativas e crenças populares do Recife, aparece em obras como Capela Mal Assombrada, Sofá Mal-Assombrado, Vestindo a Noiva e Enterro, entre outras.

Sua produção pictórica, de meados ao fim dos anos 1940, é marcada por telas com temática social, representando figuras e paisagens regionais, como Retirantes, Meninas Pedindo Esmola, Cego Violeiro, todas de 1947, presentes na retrospectiva do Itamaraty realizada na década de 1970, ressaltando essa faceta do artista. Figuras do carnaval recifense, do frevo, do maracatu, do bumba meu boi, e cortadores de cana são frequentemente retratadas em suas pinturas.

No início da década de 1950, sua produção caminha para o abstracionismo, mas sem abrir mão totalmente da figuração. Tal mudança de linguagem explica-se em parte pelo impacto, reconhecido pelo artista, da realização das primeiras Bienais de São Paulo. As telas Ex-Votos e Três Ex-Votos, elaboradas em 1951, são exemplos da solução particular explorada pelo artista nessa fase, que trabalha sobre a figura, pretendendo chegar a sua síntese. Em trabalhos em têmpera, como Dançarinas ou Pássaro Vermelho, ambos de 1952, as cores ganham relevância sobre o desenho. Em telas como Rei e Rainha do Maracatu, de 1959, o artista alcança a síntese das figuras por meio da esquematização geométrica. Ayres volta ao tema em Rainha do Maracatu, de 1972, óleo sobre tela pertencente ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, com um tratamento mais figurativo.

No decorrer da década seguinte, Ayres pinta novamente figuras femininas misteriosas, em telas como Vulto na Porta e Mulheres com Manto, produzidas em 1964. Nos anos 1970, dedica-se principalmente a pintar a figura feminina da mulata e da morena, em telas como Cabeça de Mulata, de 1970, na qual a mulher é retratada com olhos vazados e volumosos cabelos compridos.

A partir de meados dos anos 1970, produz diversas pinturas em que surgem bichos imaginários usando tinta acrílica. Nesses trabalhos, emprega cores fortes e contrastantes e largos contornos em preto que dão forma a bichos, como pássaros, emas, bois e outros seres inventados.

A grande maioria de seus trabalhos pode ser vista no Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão de Guararapes, Pernambuco. Criado em 1993 por iniciativa da família, o instituto tem no acervo mais de 300 obras do artista, entre pinturas, desenhos, fotografias, ilustrações e trabalhos gráficos, estudos e projetos de suas cenografias e murais.

Outras informações de Lula Cardoso Ayres:

  • Outros nomes
    • Luiz Gonzaga Cardoso Ayres
    • ula Cardoso Aires
  • Habilidades
    • pintor
    • desenhista
    • gravador
    • cenógrafo
    • fotógrafo
    • designer
    • artista gráfico
    • professor de artes plásticas
    • artista visual
    • ilustrador
    • muralista

Obras de Lula Cardoso Ayres: (19) obras disponíveis:

Espetáculos (4)

Exposições (61)

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Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (24)

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  • AYRES, Lula Cardoso. Reviver. Recife: FUNDAJ, 1991. 36 p., il. p&b. A985 1991
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  • Diário de Pernambuco. Recife, 05/08/1989 Não catalogado
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Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LULA Cardoso Ayres. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10279/lula-cardoso-ayres>. Acesso em: 22 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7