Artigo da seção pessoas Belchior

Belchior

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / música  
Data de nascimento deBelchior: 26-10-1946 Local de nascimento: (Brasil / Ceará / Sobral) | Data de morte 29-04-2017 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Santa Cruz do Sul)

Biografia

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (Sobral, Ceará 1946 - Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, 2017). Compositor, cantor, desenhista, caricaturista, pintor. Na infância é cantador de feira, poeta repentista e estudante de piano. Seu avô toca flauta e saxofone, sua mãe canta no coro da igreja e lhe ensina as primeiras noções musicais. No Colégio Sobralense, aprende música, línguas, filosofia e canto gregoriano. Vai para o Liceu de Fortaleza aos 16 anos e, como ainda não tem idade para prestar vestibular, estuda filosofia com frades capuchinhos. Trabalha como programador de rádio enquanto conclui os estudos.

De 1965 a 1970, apresenta-se em festivais de música do Nordeste. Ingressa no curso de medicina na Faculdade Federal do Ceará em 1968. Toca em shows amadores, programas de rádio e televisão ao lado de artistas como Raimundo Fagner e Ednardo. Abandona a medicina no quarto ano para dedicar-se exclusivamente à música.

Muda-se em 1971 para o Rio de Janeiro, onde conquista o primeiro lugar no 4º Festival Universitário de MPB, com a canção Na Hora do Almoço, interpretada por Jorge Teles e Jorge Néri, e lança o primeiro disco, pela Copacabana. No ano seguinte, o compositor Sérgio Ricardo escolhe Mucuripe (1972), de Belchior em parceria com Fagner, para fazer parte do Disco de Bolso do Pasquim. Na voz da cantora Elis Regina Mucuripe torna-se conhecida nacionalmente. A música é gravada ainda por Roberto Carlos, em 1975, e depois por Nelson Gonçalves e Osvaldo Montenegro.

Belchior muda-se para São Paulo e realiza trabalhos solos e com outros artistas cearenses. Faz trilhas sonoras para curtas-metragens, shows em praças públicas e algumas apresentações na televisão. Com o LP A Palo Seco (1974), suas músicas alcançam grande sucesso e são gravadas por outros intérpretes. A consagração vem com a balada Apenas um Rapaz Latino-Americano, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, do álbum Alucinação (1976). As duas últimas estão no show e disco Falso Brilhante, de Elis Regina. Rompido com a Philips, grava pela Warner em 1977 o álbum Coração Selvagem, do qual se destacam Paralelas, canção que obtém sucesso com Vanusa, e Galos, Noites e Quintais, lançada por Jair Rodrigues.

No disco Paraíso (1982), Belchior abre espaço para compositores como Guilherme Arantes, Ednardo Nunes e Arnaldo Antunes. Apresenta-se na casa de espetáculos Mamute, em 1984, com o show Cenas do Próximo Capítulo, com o qual faz turnê pelo Brasil. Em 1986 lança o disco 10 Anos de Sucessos, recordando as músicas A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Seu 13º LP, Elogio da Loucura (1988), é gravado no Teatro João Caetano.

Em 1999 lança o CD duplo Auto-Retrato, contendo 25 de seus sucessos, entre os quais Medo de Avião (1979) e Fotografia 3 x 4 (1976), com arranjos do multi-instrumentista André Abujamra e do maestro Rogério Duprat. Belchior recebe o título de cidadão da cidade pela Câmara Municipal de Fortaleza,em 2005. Na ocasião há duas exposições na cidade com a retrospectiva de 140 desenhos e pinturas de sua autoria.

Grava dois CDs, traduzindo para o espanhol suas músicas Eldorado (1998), com Eduardo Larbanois e Mario Carrero, e Belchior la Vida Es Sueno (2001).

Análise

Apesar de ser muito ligado à poesia, Belchior dedica-se à música. As letras de suas canções, que revelam sólida formação intelectual, trazem fragmentos de poetas e romancistas brasileiros e estrangeiros. Cita, por exemplo, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e Comédia Humana, de Honoré de Balzac (na balada Divina Comédia Humana); Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdã (em Elogio da Loucura); A Palo Seco, de João Cabral de Melo Neto; O Corvo, de Alan Poe; As Flores do Mal, de Baudelaire; A Via Láctea, de Olavo Bilac; Âge d'Or, Jeunesse e Chanson de la Plus Haute Tour, de Rimbaud. O apreço pela poesia se expressa também pela maneira como dispõe a letra nos encartes dos discos, que se assemelham muitas vezes à poesia concreta.

Utiliza ainda temas musicais brasileiros e estrangeiros, como em Apenas um Rapaz Latino-Americano, em que o compositor cita Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Outras referências são Happiness I sa Warm Gun (em Comentário a Respeito de John); She's Leaving Home e Blackbird (dos Beatles); Like a Rolling Stone (Bob Dylan); e Assum Preto (Luís Gonzaga) em Velha Roupa Colorida. Essas citações são feitas tanto de maneira plástica, por meio de encartes, como na própria construção musical, em que insere trechos dos arranjos originais das músicas, como em Medo de Avião (I Want to Hold Your Hand, dos Beatles), e na balada-blues Elegia Obscena (Satisfaction, dos Rolling Stones).

Além do fator estético, essas inserções situam o posicionamento do artista diante da produção musical de seu tempo. Filia-se tanto ao Pessoal do Ceará,1 que agrega artistas que a partir da década de 1970 despontam no cenário musical brasileiro, quanto à MPB mais ampla.  Estabelece um diálogo entre a música tradicional nordestina, a MPB, o rock e o folk, trazendo para suas composições a tensão entre o espaço urbano e o sertão - o que tem a ver com sua própria trajetória pessoal: "Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco/sem parentes importantes/ e vindo do interior" (trecho de Apenas um Rapaz Latino-Americano). Na mesma canção, ele ironiza os baianos do tropicalismo chamando-os de "velhos": "Em que um antigo compositor baiano me dizia/ Tudo é divino/ Tudo é maravilhoso". Suas influências  evidenciam a variedade de referências e seu processo "antropofágico" de criação. Aprecia a Jovem Guarda e compositores como Chico Buarque e Bob Dylan, este é sua maior influência, até mesmo na emissão vocal nasalada.

Para expressar essas ideias, assume um estilo peculiar. Seu canto é rasgado, falado, à moda das lavadeiras e dos penitentes nordestinos. Nas músicas que tratam do espaço urbano seu canto é gritante, com a finalidade de incomodar o ouvinte, elemento incorporado do rock.
Sua inserção na mídia é dificultada pelo fato de investir numa obra poética de caráter crítico. Apenas um Rapaz e Não Leve Flores, do álbum Alucinação, passam algum  tempo retidas na censura, assim como Caso Comum de Trânsito (1977). Por outro lado, realiza shows com frequência e fica conhecido por canções que falam de amor e paz e ao mesmo tempo incitam às lutas sociais. A canção Velha Roupa Colorida, por exemplo, denuncia o cerceamento da liberdade da juventude, às vésperas do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Em Máquina II, a palavra "máquina" se repete 20 vezes, um procedimento poético concretista que alude ao processo de industrialização e reificação do homem.

A temática da América Latina é constante em suas músicas, como nas baladas A Palo Seco (1974) e Voz da América (1979). Outra questão é a posição do nordestino ao chegar ao Sudeste, como se nota em Conheço o Meu Lugar (1979) e Fotografia 3 x 4 (1976). É também importante sua crítica à estagnação da arte e da vida brasileira na época em Como Nossos Pais (1976): "Nossos ídolos ainda são os mesmos (...) Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém".

Compõe uma quantidade considerável de músicas com parceiros como Toquinho - nas canções românticas Pequeno Perfil de um Cidadão Comum e Meu Cordial Brasileiro, ambas do álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo (1979) -, Gilberto Gil, João Bosco, Jorge Mautner, Moraes Moreira, Fausto Nilo, Jorge Mello, Ednardo, Rodger Rogério. Com Fagner grava o lamento sertanejo Aguapé (1978), parte de seu projeto Soro. No álbum Vício Elegante (1996), interpreta Garoto de Aluguel (Táxi Boy), de Zé Ramalho, Esquadros, de Adriana Calcanhotto, e O Nome da Cidade, de Caetano Veloso.

Nota

1 O Pessoal do Ceará não é exatamente um grupo com um projeto único. Trata-se de artistas cearenses que na década de 1970 migram para o eixo Rio - São Paulo com o intuito de seguir a carreira artística. As concepções estéticas e artísticas desse "grupo" transcendem as fronteiras regionais ao incorporar outros códigos urbanos e cosmopolitas. Musicalmente incorporam influências da música clássica, passando pelo jazz, rock e música popular brasileira. O perfil de seus integrantes - entre os quais Rodger Rogério, Fagner, Téti, Amelinha, Belchior, Wilson Crino e Ednardo - é de universitários, com formação cultural ampla.

Outras informações de Belchior:

  • Outros nomes
    • Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes
    • Antonio Carlos Belchior
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • compositor
    • Violonista
    • pintor
    • desenhista
    • caricaturista

Obras de Belchior: (1) obras disponíveis:

Exposições (3)

Fontes de pesquisa (4)

  • AIRES, Mary Pimentel. Terral dos Sonhos: O Cearense na Música Popular Brasileira. Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto do Estado do Ceará/Multigraf Editora, 1994.
  • Cantor Belchior morre aos 70 anos no Rio Grande do Sul. G1 Ceará. Disponível em: < http://g1.globo.com/ceara/noticia/cantor-cearense-belchior-morre-aos-70-anos-no-rio-grande-do-sul.ghtml >, Acesso em: 30 abr. 2017.
  • CARLOS, Josely Teixeira. Muito além de “apenas um rapaz latino-americano vindo do interior”: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior. 2007, 277f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, 2007.
  • ROGÉRIO, Pedro. Pessoal do Ceará: formação de um campo e de um habitus musical na década de 1970. 2006. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BELCHIOR . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa101849/belchior>. Acesso em: 18 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7