Artigo da seção pessoas Belchior

Belchior

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / música  
Data de nascimento deBelchior: 26-10-1946 Local de nascimento: (Brasil / Ceará / Sobral) | Data de morte 29-04-2017 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Santa Cruz do Sul)

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (Sobral, Ceará 1946 – Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, 2017). Compositor, cantor, pintor, desenhista, caricaturista. Destaca-se por composições que falam de amor e paz e ao mesmo tempo incitam às lutas sociais. As letras de suas canções revelam sólida formação intelectual e muitas vezes trazem fragmentos de poetas e romancistas brasileiros e estrangeiros.

Na infância é cantador de feira, poeta repentista e estudante de piano. No Colégio Sobralense, aprende música, línguas, filosofia e canto gregoriano. Em 1962 muda-se para Fortaleza. De 1965 a 1970, apresenta-se em festivais de música do Nordeste. Ingressa no curso de medicina da Faculdade Federal do Ceará em 1968, mas abandona no quarto ano para se dedicar à música. Toca em shows amadores e em programas de rádio e televisão ao lado de cantores como Raimundo Fagner (1949) e Ednardo (1945). 

Em 1971, muda-se para o Rio de Janeiro, onde conquista o primeiro lugar no 4º Festival Universitário de Música Popular Brasileira com a canção “Na Hora do Almoço”, e lança o primeiro disco. Em 1972, “Mucuripe”, parceria de Belchior com Fagner, torna-se conhecida nacionalmente na voz da cantora Elis Regina (1945-1982).

Ainda na década de 1970, Belchior muda-se para São Paulo e realiza trabalhos solos e com outros artistas cearenses. Faz trilhas sonoras para curtas-metragens, shows em praças públicas e algumas apresentações na televisão. Com o LP A Palo Seco (1974), referência ao poema homônimo de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), suas músicas alcançam grande sucesso e são gravadas por outros intérpretes. A consagração vem com “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, do álbum Alucinação (1976). As duas últimas estão no show e disco Falso Brilhante (1976), de Elis Regina.

Sua inserção na mídia é dificultada pelo fato de investir numa obra poética de caráter crítico. A canção “Velha Roupa Colorida”, por exemplo, denuncia o cerceamento da liberdade da juventude, às vésperas do Ato Institucional nº 5 (AI-5). 

Suas influências evidenciam a variedade de referências em seu processo de criação. Exemplo disso é a constante temática da América Latina em suas músicas, como nas baladas “A Palo Seco” e “Voz da América” (1979). Ou ainda a posição do nordestino ao chegar ao Sudeste, como se nota em “Conheço o Meu Lugar” (1979) e “Fotografia 3 x 4” (1976). É também importante sua crítica à estagnação da arte e da vida brasileira na época em “Como Nossos Pais”: “Nossos ídolos ainda são os mesmos (...) Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”.

Compõe uma quantidade considerável de músicas com diversos parceiros. No disco Paraíso (1982), Belchior abre espaço para compositores como Guilherme Arantes (1953), Ednardo Nunes (s.d.) e Arnaldo Antunes (1960). Em 1999 lança o CD duplo Auto-Retrato, contendo 25 de seus sucessos, entre os quais “Medo de Avião” (1979) e “Fotografia 3 x 4”, com arranjos do multi-instrumentista André Abujamra (1965) e do maestro Rogério Duprat (1932-2006)

Utiliza ainda temas musicais brasileiros e estrangeiros. O apreço pela poesia se expressa não apenas pelas letras das músicas, mas também pela maneira plástica como dispõe a letra nos encartes dos discos, que se assemelham muitas vezes à poesia concreta. Na construção musical, essas referências estão presentes, por exemplo, em “Medo de Avião” (“I Want to Hold Your Hand”, dos Beatles), e na balada-blues “Elegia Obscena” (1988) (“Satisfaction”, dos Rolling Stones), nas quais insere trechos dos arranjos originais das músicas.

Além do fator estético, essas inserções situam o posicionamento do artista diante da produção musical de seu tempo. Filia-se tanto ao Pessoal do Ceará,1 artistas que a partir da década de 1970 despontam no cenário musical brasileiro, quanto à MPB. Estabelece um diálogo entre a música tradicional nordestina, a MPB, o rock e o folk, e traz para suas composições a tensão entre o espaço urbano e o sertão, o que tem a ver com sua trajetória pessoal: “Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior” (trecho de “Apenas um Rapaz Latino-Americano”). Nessa canção, ele cita “Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil (1942), e ironiza os baianos do tropicalismo chamando-os de “velhos”: “Em que um antigo compositor baiano me dizia / Tudo é divino / Tudo é maravilhoso”. 

Para expressar suas ideias, assume um estilo peculiar. Seu canto é rasgado, falado, à moda das lavadeiras e dos penitentes nordestinos. Nas músicas que tratam do espaço urbano, seu canto é gritante, com a finalidade de incomodar o ouvinte, elemento incorporado do rock.

Grava dois CDs traduzindo para o espanhol suas músicas, Eldorado (1998), com os compositores Eduardo Larbanois (1953) e Mario Carrero (1952), e La Vida Es Sueno (2001).

A obra de Belchior revela sua versatilidade, sua multiplicidade, seja na temática, seja no estilo. O engajamento nas questões sociais e políticas de seu tempo e a influência de outros artistas, de variados estilos musicais e da poesia estão presentes em muitas de suas canções e evidenciam seu caráter multifacetado.

Nota

1. O Pessoal do Ceará não é exatamente um grupo com um projeto único. Trata-se de artistas cearenses que na década de 1970 migram para o eixo Rio – São Paulo com o intuito de seguir a carreira artística. As concepções estéticas e artísticas desse "grupo" transcendem as fronteiras regionais ao incorporar outros códigos urbanos e cosmopolitas. Musicalmente, incorporam influências da música clássica, passando pelo jazz, rock e música popular brasileira. O perfil de seus integrantes – entre os quais Fagner, Belchior, Ednardo etc. – é de universitários, com formação cultural ampla.

Outras informações de Belchior:

  • Outros nomes
    • Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes
    • Antonio Carlos Belchior
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor
    • Violonista
    • Pintor
    • Desenhista
    • Caricaturista

Obras de Belchior: (27) obras disponíveis:

Todas as obras de Belchior:

Exposições (4)

Fontes de pesquisa (4)

  • AIRES, Mary Pimentel. Terral dos sonhos: o cearense na música popular brasileira. Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto do Estado do Ceará/Multigraf Editora, 1994.
  • Cantor Belchior morre aos 70 anos no Rio Grande do Sul. G1 Ceará. Disponível em: http://g1.globo.com/ceara/noticia/cantor-cearense-belchior-morre-aos-70-anos-no-rio-grande-do-sul.ghtml. Acesso em: 30 abr. 2017.
  • CARLOS, Josely Teixeira. Muito além de “apenas um rapaz latino-americano vindo do interior”: investimentos interdiscursivos das canções de Belchior. 2007, 277 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, 2007. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/8767/1/2007_dis_jtcarlos.pdf. Acesso em: 29 jul. 2020.
  • ROGÉRIO, Pedro. Pessoal do Ceará: formação de um campo e de um habitus musical na década de 1970. 2006. 140 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, 2006. Disponível em:  http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/3147/1/2006_Dis_PRogerio.pdf. Acesso em: 29 jul. 2020.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BELCHIOR . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa101849/belchior>. Acesso em: 26 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7