Artigo da seção obras Tremor de Terra

Tremor de Terra

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoTremor de Terra: 1967 | Luiz Vilela
Livro

A coletânea de contos Tremor de Terra é o primeiro livro publicado pelo contista e romancista Luiz Vilela (1942). Vencedor por duas vezes de concurso de contos promovido pelo jornal Correio de Minas e cofundador, em 1967, da revista de contos Estória, Vilela tem o livro recusado por editoras e publica-o com recursos próprios. Ainda assim, Tremor de Terra recebe o Prêmio Nacional de Ficção. A premiação de autor estreante, chama a atenção do meio literário nacional e rende ao livro a reedição por uma editora do Rio de Janeiro. Com isso, Vilela torna-se conhecido por todo o Brasil e, um dos contos reunidos no livro, “Por toda vida”, recebe versão em alemão, publicada em antologia de contistas brasileiros modernos na Alemanha Ocidental.

Em Tremor de Terra estão presentes os temas e procedimentos desenvolvidos na produção de contos e romances do autor. A variedade de registros do livro vai da crítica social ao flerte irônico com o fantástico, do humor grotesco ao quadro existencial, e reflete a riqueza e pluralidade do conto brasileiro daquele momento.

O diálogo é o formato narrativo predominante na coletânea. Em “Confissão”, primeiro dos 20 contos que compõem Tremor de Terra, a “palavra magicamente direta” de Vilela, tal como o jornalista Humberto Werneck (1945) caracteriza o estilo do autor, aparece em concentração máxima. É todo construído em diálogo, com um fraseado simples e direto que capta a espontaneidade da fala cotidiana. Em “Nosso dia”, outra peça dramática, a voz narradora ausenta-se perante os fatos narrados, e as vozes das personagens inseridas em suas relações afetivas são tomadas em flagrante em contos como “Por toda vida”. No caso do texto de abertura, o diálogo introduz a crítica social característica de Vilela, com pecados confessados a um padre, contaminando pela matéria pecaminosa. É assim que emerge um riso, ora satírico, irônico, ou grotesco, cuja acidez abrange as instituições sociais e a hipocrisia das relações humanas.

No polo oposto, o conto que encerra e dá título ao livro junta-se a outros como “Chuva”, “O violino”, “Velório” e “Solidão”, nos quais se desenvolve o tema da solidão e da incomunicabilidade entre os homens. Em contraste com “Confissão”, por exemplo, em “Tremor de Terra” as frases breves são substituídas por períodos mais longos, que correspondem aos volteios da mente do narrador-personagem. Já em contos como “O Violino” e “Enquanto Dura a Festa”, voz narradora e voz narrada aproximam-se, e o tema da infância vem à tona como momento de descobertas, marcado pelo fascínio, medo e perigo.

Em um conto exemplar como “Por toda vida”, crítica social e análise existencial convergem, apontando para um horizonte temático dominante, que ressoa nos contos de concepção fantástica, como “O fantasma” e “ O buraco”. “Por toda vida” relata os sonhos e agruras vividas por um homem e uma mulher recém-casados, e reitera continuamente a expressão “Deus sabe o que faz” em paralelo às desilusões dos protagonistas. O conto termina retornando ao ponto de partida: cada personagem fechado em seu isolamento afetivo e existencial. É nesse sentido que o crítico Carlos Felipe Moisés (1942) caracteriza a condição das personagens do livro entre a prisão no cotidiano e a angústia existencial, como “a triste vidinha miúda de cada um, esmagada pela grandiosidade cósmica do mundo aí fora”.

Depois de conquistar o Prêmio Nacional de Ficção, a crítica de Tremor de Terra é calorosa. Em balanço realizado na época do lançamento pelo Jornal do Brasil, Vilela aparece como o autor mais representativo de sua geração. Em 1967, o Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG) publica os primeiros artigos dedicados a sua obra. A fortuna crítica do livro avoluma-se com menções e estudos elogiosos, incluídos em obras críticas como O Caráter Social da Literatura Brasileira (1970), de Fábio Lucas (1931) e comentários mais breves, como os dos críticos Wilson Martins (1921-2010) e Antonio Candido (1918), registrados em matéria do SLMG de 21 de outubro 1972.

Uma boa síntese dos aspectos mais analisados da obra é o comentário de Candido, para quem a “força” da literatura de Vilela “está no diálogo, e também na absoluta pureza da linguagem” e os de Laís Correa de Araújo (1929-2006), que ressalta como “inovações trazidas para a prosa brasilera” a agilidade do texto e a predominância do diálogo sobre a caracterização de personagens. A mesma crítica observa o risco que alguns contos do livro correriam de a simplicidade da linguagem predominar na trivialidade descritiva de certas situações, e o tratamento existencial cair no “psicologismo abstrato” ou vir ao primeiro plano “certa atmosfera romantizante”.

Tremor de Terra constitui um marco da produção contística nacional, realizada a partir dos anos 1960. As qualidades reconhecidas na obra levam o crítico Alfredo Bosi (1936) a incluir Vilela em sua antologia Conto Brasileiro Contemporâneo (1974), da qual Vilela é o autor mais jovem. Bosi o situa na mesma corrente aberta por Dalton Trevisan (1925) e Rubem Fonseca (1925), embora lhe imprima marca própria, dando um teor de experimentação formal e uma visão lírica das situações. Bosi reconhece nesses autores uma linha de respostas literárias a um momento em que “o Brasil passou a viver uma nova explosão de capitalismo selvagem, tempo de massas, tempo de renovadas opressões”.

Ficha Técnica da obra Tremor de Terra:

  • Data de publicação
    • 1967
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português
  • Acervo
    • Coleção particular

Fontes de pesquisa (8)

  • BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 2002.
  • MAJADAS, Wania de Sousa. O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela. Uberlândia: Rauer Livros, 2000.
  • MARTINS, Wilson. Música de câmara. In: VILELA, Luiz. Melhores contos de Luiz Vilela. São Paulo: Global, 2001.
  • MOISÉS, Carlos Felipe. Luiz Vilela, contista. In: VILELA, Luiz. Contos. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.
  • RODRIGUES, Rauer Ribeiro. Faces do conto de Luiz Vilela. 2006. Tese (Doutorado em Estudos Literários) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, Araraquara, 2006.
  • RODRIGUES, Rauer Ribeiro; MACHADO, Karina Torres. Carnavalização e grotesco em dois contos de Luiz Vilela. In: III CIELLI - Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, Maringá, 2014.
  • VILELA, Luiz. Contos. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.
  • VILELA, Luiz. Os novos. Rio de Janeiro: Gernasa, 1971.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TREMOR de Terra. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra7097/tremor-de-terra>. Acesso em: 21 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7