Artigo da seção obras O Tronco

O Tronco

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoO Tronco: 1956 | Bernardo Élis
Livro

O Tronco é o quarto livro, e o primeiro romance publicado por Bernardo Élis (1915-1997). É considerado uma das obras mais importantes do autor, ao lado das coletâneas de contos Ermos Gerais (1944) e Veranico de Janeiro (1966). Segundo diferentes críticos, o texto inaugura a maturidade estilística de Élis. Trata-se, assim, de momento decisivo da trajetória de um dos principais renovadores do romance regionalista brasileiro, retomado duas décadas após seu ciclo principal na década de 1930.

O romance traz a experiência pessoal do autor que, desde sua infância, presencia a dominação política imposta pelas oligarquias de Goiás. A experiência torna-se intensa a partir de 1936, com a nomeação de Élis como escrivão da Delegacia de Polícia de Anápolis, Goiás, e, depois, como escrivão do Cartório do Crime de Corumbá de Goiás, Mato Grosso do Sul. A obra também reflete a militância política do autor, com o engajamento no Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 1950.

Nesse contexto, o livro é um “romance de protesto”, conforme atribuição do crítico Francisco de Assis Barbosa (1914-1991). Nele, sua denúncia dos aspectos arcaicos na sociedade do Centro-Oeste brasileiro contrasta com o ideário desenvolvimentista defendido pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), que toma posse em 1956.

O Tronco baseia-se na recriação ficcional de acontecimentos reais, ocorridos no norte do antigo estado de Goiás, atual Tocantins, entre 1917 e 1918. Trata-se da batalha sangrenta entre tropas da força pública do Estado e as milícias do principal clã oligárquico da região, a família Melo. Desenvolve-se no antigo povoado Vila do Duro (atual Dianópolis), Tocantins, em contexto marcado pela disputa por poder entre grupos encabeçados pelos chamados “coronéis”.

A trama é desencadeada pela reação da personagem principal, Vicente Lemes, diante de sua “indignação” com relação a esse quadro, como se lê já nas primeiras páginas do romance. Funcionário público zeloso da atuação dentro da lei, Vicente obtém seu emprego de coletor estadual por intermédio de seu primo Artur Melo, filho do poderoso coronel Pedro Melo. Apesar de parente remoto da família, discorda da atuação autoritária e truculenta no comando político da região. Ao denunciar irregularidades na execução de um inventário ligado aos Melo, Lemes provoca uma intervenção estadual no povoado, fato que ocasiona um enfrentamento entre coronéis, soldados e jagunços. O título, refere-se a um tronco utilizado para o sacrifício de opositores capturados, ao qual são amarrados membros da família Melo para forçar a rendição dos jagunços ligados ao clã.

O Tronco tem narrador onisciente, em terceira pessoa, cuja fala é contaminada pela linguagem de outros personagens da população. É possível notar no livro a transfiguração da fala popular, identificada por críticos como Moema de Castro e Silva Olival (1932).  Além disso, nota-se uma ênfase na objetividade da transmissão sobre situação social representada, como afirma o autor em entrevista ao crítico Benjamin Abdala Junior. (1943). O crítico pontua a constante utilização de recursos dramáticos, como diálogos e indicadores cênicos, como também ressalta Assis Barbosa (1914-1991), em 1967, quando diz que “O Tronco daria um grande filme” pelo caráter “rude e másculo” do entrecho e “impressionante precisão na marcação das cenas”. Ao mesmo tempo, a vocação “paisagista” que o filólogo Evanildo Bechara (1928) ressalta nos contos de Élis, aparece de modo secundário no romance de 1956. Predomina neste o rico panorama humano do Centro-Oeste brasileiro que o livro compõe com base em personagens de jagunços, sertanejos, vaqueiros, entre outros.

O Tronco não é tão bem recebido pela crítica como Ermos e Gerais, livro que agrada literatos como Monteiro Lobato (1882-1848) e Mário de Andrade (1893-1945). É o que relata Assis Barbosa, autor da nota introdutória da segunda edição do romance, que afirma ter passado “despercebido do grande público e da crítica” no momento de sua publicação. Trata-se, porém, diz ele, de quadro que tenderia a ser revertido na época da segunda edição, de 1967, quando o autor torna-se mais conhecido com a conquista de prêmios literários e a publicação de coletâneas de contos como Veranico de Janeiro

Enquanto a posição do romance na história da literatura brasileira é consolidada nessa época, sua posição no processo de maturação estilística do autor é apontada como intermediária por alguns críticos. É o caso de Abdala Junior., que ressalta a atitude de distanciamento, similar à da novelística da década 1930, alcançada em contraste com a proximidade “ao absurdo psicopatológico da condição existencial” dos personagens, característica das primeiras narrativas do autor. Esta objetividade, pensa o crítico, ainda não se balanceia com a problematização das “relações psicossociológicas” das personagens, o que ocorreria apenas a partir de Caminhos e Descaminhos (1965).

O Tronco é uma sondagem literária pioneira do universo social de Goiás, explorado apenas pelo contista Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). Sua posição privilegiada na literatura nacional é inegável, embora compreenda uma discussão acerca do grau de renovação que realizaria no romance regionalista. É o que se nota na apreciação do crítico Alfredo Bosi (1936), que declara, em 1970, que O Tronco “representa hoje o ponto alto do regionalismo tradicional”.

Ficha Técnica da obra O Tronco:

  • Data de publicação
    • 1956
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (9)

  • ABDALA JUNIOR., Benjamin (Org.). Bernardo Élis: seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios. São Paulo: Abril, 1983. (Literatura Comentada).
  • ALMEIDA, Cristiane Roque de. História e sociedade em Bernardo Élis: uma abordagem sociológica de O tronco. 2003. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Goiás, 2003.
  • BARBOSA, Francisco de Assis. Romance de protesto. In: ÉLIS, Bernardo. O tronco. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1967.
  • BECHARA, Evanildo. Bernardo Élis. Apresentação. In: TELES, Gilberto Mendonça (Org.). Seleta de Bernardo Élis. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1976.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32. ed. rev. e aum. São Paulo: Cultrix, 1994. 528 p.
  • CARVALHO, Tereza Ramos de. A interlocução literatura e história social nas obras O tronco, de Bernardo Élis, Quinta-feira sangrenta, de Osvaldo Rodrigues Póvoa e Serra dos Pilões - jagunços e tropeiros, de Moura Lima. 2013. Tese (Doutorado em Literatura) - Universidade de Brasília, Brasília, 2013.
  • OLIVAL, Moema de Castro e Silva. Prólogo. In: ÉLIS, Bernardo. Caminhos dos Gerais: contos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
  • VICENTINI, Albertina. Romance histórico, realismo e lisibilidade n’O tronco, de Bernardo Élis. Revista Mosaico, v.3, n.2, p.127-135, jul./dez. 2010.
  • VIEIRA NETO, Henrique José. O tronco: obra literária de Bernardo Élis (1956), fílmica de João Batista de Andrade (1999) e as conexões possíveis entre cinema, literatura e história. 2010. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia,  2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Tronco. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra7093/o-tronco>. Acesso em: 22 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7